Sobre quando o tempo parou e uma janela se abriu

Joseh Garcia13 de maio de 2020Opinião, Artigos e Crônicas, Image

O tempo parou, não porque os relógios tenham tramando em conspiração de não mais mexer seus ponteiros, mas por consequência do cessar dos movimentos frenéticos das cidades, do vai e vem dos automóveis, das idas e vindas aos shoppings e às academias. Como que a um retiro forçado, fomos enviados para casa para proteger a si mesmos e aos outros da entrada do invisível invasor, o covid-19, nos nossos corpos. Desde então, a realidade como a conhecemos foi interrompida e neste contexto, nos restou exclusivamente estar face-a-face com a inescapável incerteza de como se configurará o futuro quando tudo passar.

Neste tempo de suspensão, do fundo de si desafios vieram à tona: começamos a ser visitados por angústias, ansiedades, depressões, raiva… enfim, tantos sentimentos comuns ao luto por, de repente, ter perdido o senso de controle da realidade e o sentido de orientação. Além disso, os problemas se multiplicaram e se agravaram para os menos privilegiados devido à necessidade de sobreviver em meio às dificuldades sanitárias e de escassez financeira. Insistentemente, a crise continua a se alastrar com seus tentáculos e prematuramente já somos convidados a deixar o nosso casulo apesar de tudo indicar que o recolhimento ainda é preciso.

Não é de hoje que uma mudança profunda de estilo de vida se faz necessária. Se formos honestos consigo mesmos, perceberemos que o mundo há muito está doente. Com uma ganância desenfreada e uma compulsão por produção e consumo, nós nos tornamos, em muitos aspectos, os vilões da Terra e temos intoxicado o planeta com nosso desejo desenfreado por bens e por excessos de conforto.

Além disso, não temos sido muito hábeis em dividir o nosso espaço, a nossa casa terrestre, e criamos um sistema de cohabitação humana gerador de mazelas sociais e procriador de injustiças e violências. Há longa data que as crises globais intensificam seus clamores por melhores maneiras de lidar com outras formas de vida, com a poluição, com o excesso de plástico e lixo, com a distribuição de renda e com as nossas diferenças no geral.

Mas eis que de repente e por um momento ainda indeterminado, os motores das máquinas pararam… e no silêncio das ruas podemos ouvir os pássaros antes abafados por buzinas e burburinhos humanos. No habitar deste silêncio, eis que se apresenta a oportunidade de refletir sobre a realidade na qual desejamos habitar de agora por diante.

Gostaríamos de recomeçar a engrenagem social recriando a mesma existência anterior, ou escolheremos reinventar, reimaginar uma nova realidade mais harmônica e de caráter desconhecido? E dentre deste contexto, cabem várias perguntas de natureza similar: ao fim desta crise, aceleraremos ainda mais os aparatos econômicos nos apressando ainda mais em busca do dinheiro e da “prosperidade” numa corrida desenfreada pelo tempo perdido? Ou honraremos a morte de tantos em favor de uma possível nova humanidade menos consumista, mais equalitária e mais respeitosa com as formas de vida? Continuaremos aumentando o desnivelamento de grupos sociais onde uns têm mais oportunidades e privilégios do que outros? Continuaremos nosso caminho de autodestruição poluindo e sufocando ainda mais a natureza e assim aumentando a temperatura climática planetária?

Em vidas agitadas de compromissos e aparentes propósitos, adrenalizados pela correria do dia-a-dia em busca do pão, de prestígio e do sucesso, o mais difícil é parar, pois já nos acostumamos demasiadamente a correr e a seguir a mesma direção, pelo simples fato da rota nos ser familiar.

Porém cabe lembrar que parar, nós já paramos – o que significa que o primeiro obstáculo já foi vencido. E neste cenário inusitado, agora então, o que se apresenta diante de nós?

Presentemente, o grande desafio se passa no íntimo de cada um em se permitir uma reflexão sobre seus valores e a importância das suas ações para o todo. O mundo é um reflexo do que somos, se mudarmos o mundo mudará. E neste momento, o local de controle é sobre si. Se quisermos mudar o mundo, comecemos em nós mesmos, e deixemos que esta mudança se irradie pelas escolhas e ações das nossas vidas: seja pela forma como escolhemos candidatos políticos, seja pelas causas que abraçamos, seja pela forma como tratamos as diferenças, seja pelo grau de consciência em escolhemos consumir, seja pela escolha em interagir com compaixão no nosso pequeno círculo. Cada ação conta.

Precisamos criar um novo mundo, certamente. Para isso precisamos nos aprofundar, nos conhecer, estar com nossos conflitos, escutar nossos valores, e assim descobrir o que realmente importa para nós.

No embate com os desejos egóicos (do melhor para mim, do consumismo e seus prazeres) muitas vezes permitimos que a voz do coração permaneça abafada por tantos desejos de natureza egoísta e até mesmo, descaradamente fingimos não ouvir a voz do bom senso.

A crise sanitária, provocada pelo coronavirus, e tantas outras crises globais, incluindo a climática, parecem nos relembrar que precisamos urgentemente cuidar do nosso elo com a vida.

O grande desafio é tornar realidade os desejos mais profundos e elevados dos nossos corações. Para isso é preciso escutar atentamente os anseios profundos. Para isso, é preciso resolver a matemática interior: no findar das contas, quem é você e quais são seus valores?

E com esta perspectiva em mente, que pequeno passo podemos dar para uma vida que reflita o mais profundo de si e assim contribuir para uma nova realidade coletiva. Se assim o fizermos mesmo que em mínimas doses, teremos honrado esta oportunidade que nos foi dada para nos reinventar e recriar nossa convivência mútua e nosso impacto no planeta.

Porém, para tudo isso precisamos de tempo. No momento, e por enquanto ainda temos tempo.

Sobre o autor

Joseh Garcia

Psicólogo, cineasta, músico, escritor. Doutor em Psicologia pela California Institute of Integral Studies (EUA). Co-criador do premiado filme CONSCIOUS: Fulfilling Higher Evolutionary Potential. Cantor e compositor do single Bossa a Trois e do álbum Conscious (Original Movie Soundtrack). Autor da tese Musicas a Vehicle for Self-Transformation: an organic inquiry into the experience of Rita Lee's songs e do livro A Mulher que Nunca Recebeu Flores. www.josehgarcia.com

COMMENTS

Diulinda Garcia

Olá José García!
“Quando o tempo parou,”paramos nós,mas o seu olhar investigativo não se intimidou:fotografou,gravou,registrou com multiplicidade de detalhes um momento de incertezas,medo e desafios, para compor o cenário que daria origem a um texto maduro,incisivo que nos instiga a refletir sobre a nossa realidade coletiva.
Parabéns!
Diulinda Garcia

Maria de Lourdes de Medeiros

Maria de Lourdes de Medeiro
13 de maio de 2020.
Olá Jose Garcia!
Que texto fantástico , que nos leva a refletir seriamente sobre todo o momento que estamos vivendo.
Algumas questões abordadas com”a ganância desenfreada a compulsão por produçao e consumo ” isso não minha opinião vai contínua. Para muitas pessoas isso é só bobagem,a mentalidade não alcança esse nivel de entendimento.
Parabéns ,cada dia fico mais orgulhosa de você,tão maduro vendo as coisas com tanta nitidez e mostrando uma reflexão tão grandiosa.

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