Sinergia sensorial entre bebidas: cerveja, café, vinho e whisky

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Saudações, degustadores!

No texto de hoje vamos falar sobre algumas conexões sinérgicas entre bebidas: a cerveja, o café, o vinho e o Whisky.

Ou melhor dizendo, vamos explanar, como muitas vezes, alguns degustadores de umas das bebidas do título deixam as demais de lado (ou uma delas, ao menos), quando se poderia intensificar a análise sensorial conhecendo todas elas.

É bastante comum que o conhecimento (sobre bebidas, também, ressalte-se) seja cada dia mais especializado. Isso acontece por diversos fatores, tais como, predileção pessoal, tempo, capacidade econômica, histórico pessoal/afetivo com determinada bebida, dentre muitos outros. Não cabe bem discutir essas inclinações.

O fato que cabe a ser melhor compreendido, e debatido, é como um conhecimento mais amplo e intercruzado entre as três bebidas citadas pode contribuir para o avanço sensorial em várias frentes.

Já fiz alguns cruzamentos sensoriais entre todas as bebidas mencionadas em textos avulsos anteriores, contudo, nunca enfatizei a necessidade da integração entre todas. Agora ouso redigir sobre.

Assim, convido-os a ler sobre as sinergias entre bebidas (alcoólicas e não alcoólicas) e como essa premissa pode ajudar no implemento da análise sensorial de cada uma delas.

Predileção, vocação e especialidade: cada um tem a sua

Certamente, cada pessoa tem uma predileção própria.

Tem pessoas que odeiam café, muitas vezes elas apenas conhecem aqueles bem torrados que se vende nos supermercados.

Às vezes, as pessoas não gostam de vinhos, pois acham que sua cultura é muito rebuscada e cara (não estão errados, mas isso não é o suficiente para não se beber vinho). Outros, não gostam de whiskies porque dizem que são muito fortes, muito álcool… (talvez!).

Muitas outras pessoas não conhecem muito de cerveja e pensam logo que cerveja é uma bebida pouco complexa e que só deve ser bebida quando se está sol e muito calor. Provavelmente essa pessoa viu muita propaganda de cerveja na TV e nunca leu um texto meu…

Claro que, além da predileção, temos a vocação: as pessoas se sentem mais confortáveis a se especializar naquilo que julgam ser melhores. No meu caso em específico, pondero ter uma inclinação às cervejas, pois consigo captar mais facilmente as notas.

Por mais que cada um tenha sua predileção ou vocação, isso não impede de conhecer, um pouco mais detalhadamente, outras bebidas, e, assim, expandir seus horizontes sensoriais.

O extremo da especialização de um lado e o apelo comercial do outro

Um dos exemplos mais comuns que eu costumo observar em influencers que possuem algum respaldo técnico é que eles costumam se inserir em um nicho (ou bolha, como quiser) de especialização e descartam tudo que passa ao seu redor.

Em virtude desse aprofundamento unidimensional em apenas uma de suas bebidas favoritas, costuma-se operar um fenômeno inverso para as demais bebidas mencionadas. Ou seja, se por um lado ele é especialista em uma coisa, por outro, acaba bebendo qualquer bebida (de qualidade duvidosa, principalmente) que não seja a de sua especialidade.

Em termos exemplificativos, um grande conhecedor de vinhos não bebe qualquer vinho, e tem muitas liturgias para poder verter seu líquido de Baco preferido em uma taça de cristal. Contudo, não raras vezes, essas mesmas pessoas quando vão beber cerveja bebem qualquer uma. Ou, no máximo, dizem que “preferem Heineken”, com a especificação que “ela é muito amarga”.

O mesmo exemplo serve para qualquer outro especialista nas demais bebidas. O grande conhecedor de café costuma beber Johnny Walker Red Label e dizer que é um ótimo Whisky (que ele só bebe em casamentos…). Inversamente, um grande conhecedor de whiskies vai beber um “vinho chileno reservado” qualquer e achar que se trata de um belo exemplar…

Assim, quem não conhece da bebida em questão acaba caindo nas armadilhas dos anúncios comerciais, infelizmente.

Conhecimento cruzado

Os exemplos narrados até então não se referem a alguém em específico. Na verdade, trata-se de um compilado de muitas e muitas pessoas, que de alguma forma ou de outra se expressam de forma muito sofisticada em uma bebida e de forma muito “simplória” em outra seara.

Repiso, a falta de apuração pode ser tanto por predileção quanto por vocação.

Entretanto, um conhecimento minimamente robusto e sólido em diversas bebidas nos ajuda a expandir os horizontes de degustação, incorporando cada vez mais conhecimento àquilo que já se sabe.

Um conhecedor de cervejas sempre se beneficiará ao conhecer um bom vinho tinto, destrinchar suas notas terrosas, frutadas ou amadeiradas. Semelhantemente, ele se tornará ainda mais versátil ao conhecer um bom vinho branco, com suas notas cítricas e herbáceas, que lembram as mesmas notas contidas em uma Hazy IPA, por exemplo.

Fazer o cruzamento entre diversas bebidas fará com que o degustador tenha um leque de notas cada vez mais amplo. Pois, nem sempre ao ler uma “roda de sabores” se tem a noção imediata do que cada uma delas representa no líquido apresentado.

Conhecimento integrado

Apenas experimentar muitas bebidas diversas não fará com que o bom degustador incremente sua capacidade de análise. Além de se familiarizar com as notas dadas é necessário que ele saiba fazer a integração entre elas.

Quem conhece alguma coisa de envelhecimento em barris, principalmente de carvalho americano, vai saber que as mesmas notas (ou bem similares) serão encontradas em Bourbons (“Whisky americano”), em vinhos envelhecidos nessas barricas, e também em cervejas (principalmente as ex-Bourbons).

As notas de baunilha e de coco tendem a ser bem presentes em todas essas bebidas.

Até mesmo nos cafés envelhecidos em barris, algo que vem se tornando cada vez mais comum, é fácil se perceber quando eles se utilizam do carvalho americano. Junto com o perfil torrado, notas de baunilha e de coco se integram ao conjunto e à acidez da bebida.

Perceber como todas as bebidas em questão possuem similaridades (e também disparidades, em termos de teor alcoólico, principalmente) ajuda a assimilar a integração das notas postas. Acompanha-se desse processo o reconhecimento mais rápido das notas em similaridade e uma melhor apreciação do conjunto dado.

Conhecimento e dissonância

Certamente que algumas notas também podem ser assimilada por dissonância na intensidade em cada uma das bebidas.

Exemplificativamente, tanto vinhos (tintos) quanto alguns Whiskies de certas regiões da Escócia, bem como também algumas cervejas (escuras, Stout’s e Porter’s) podem possuir notas de frutas vermelhas (morango, cereja, amora, etc.). Algumas variedades de café também incorporam tais notas.

A intensidade das notas mencionadas (das frutas vermelhas), por conseguinte, variará, sendo bem mais presente no vinho e bem menos presente no Whisky. Contudo, o conhecimento da variação da intensidade ajuda o degustador a saber o calibre de cada experiência com as notas em questão.

Quanto mais intensas, maior sua variação intraespecífica, quanto menos intensas, mais delicadas.

Somente com um conhecimento integrado com as mais diversas bebidas isso se possibilita.

Saideira

Conclusivamente, ouso dizer algo que sempre repito em sala de aula: conhecimento nunca é demais! Claro que é necessário certo norteamento, para que não se saia provando qualquer coisa a torto e a direito. Contudo, experimentar as mais diversas bebidas apenas contribui para a expansão da capacidade sensorial humana.

Claro que não estou falando em se atingir o mesmo nível de proficiência em todas as bebidas citadas! Isso é impossível, sempre vai haver uma especialização maior numa ou noutra. Apenas o que se sugere, humildemente, é que se abra a mente para novos sabores e aromas!

Não sei exatamente a quem esse texto se dirige, se ao bebedor de café, de cerveja, de vinho ou de Whisky. Mas, a mensagem derradeira que eu gostaria de passar é: ouse!

Deixe de comprar um fardo de Heineken e compre um bom single malt (fuja dos Red/Black Label’s da vida) ou um Bourbon de qualidade (corra do Jack Daniel’s…). Largue aquele café de torra extra forte na gôndola do supermercado e compre um bom vinho, pode até ser chileno, só não pode ser um reservado! E sempre, sempre, fortaleça a cultura cervejeira, busque por cervejas artesanais de qualidade ao invés da mesmice das de massa.

Que tal experimentar uma boa Stout com um cafezão de verdade? Moído na hora e feito no método da Hario V60? São esses tipos de aprofundamentos que fazem com que a experiência gustativa seja sempre incrementada e feita de maneira ainda mais prazerosa!

O texto de hoje poderia ter escolhido outras bebidas igualmente relevantes para nortear a sinergia, a exemplos da: cachaça, brandy (destilado de uva), chás, rum…

O universo das bebidas e suas interações é gigantesco!

A escolha pelos vinhos, cervejas, Whisky e café foi pela maior representatividade de cada um. Se fôssemos falar de todas, o texto ficaria muito extenso, mas quem sabe não retornaremos às demais noutra oportunidade…

Resumidamente: a sinergia é o cruzamento e a integração sensorial entre as mais diversas bebidas citadas!

Saúde!

Recomendação Musical

Já vi muitas pessoas que entendem de vinho, de Whisky ou de café dizer que intercalam essas bebidas com uma “cerveja para lavar”. O termo se aplica ao contexto dando a entender que a cerveja é uma bebida de menor expressão, e serve apenas como um mero acessório decorativo: para lavar…

A música de hoje literalmente é sobre isso: Uma Cerveja para Lavar, do famigerado forrozeiro das multidões, Wesley Safadão.

Resumidamente, não façam como ele indica na música, uma cerveja tem muito mais valor que apenas “para lavar”.

Lauro Ericksen

Lauro Ericksen

Um cervejeiro fiel, opositor ferrenho de Mammon (מָמוֹן) - o "deus mercado" -, e que só gosta de beber cerveja boa, a preços justos, sempre fazendo análise sensorial do que degusta.
Ministro honorário do STC: Supremo Tribunal da Cerveja.
Doutor (com doutorado) pela UFRN, mas, que, para pagar as contas das cervejas, a divisão social do trabalho obriga a ser: Oficial de Justiça Avaliador Federal e Professor Universitário. Flamenguista por opção do coração (ou seja, campeão sempre!).

Sigam-me no Untappd (https://untappd.com/user/Ericksen) para mais avaliações cervejeiras sinceras, sem jabá (todavia, se for dado, eu só não bebo veneno).

A verdade doa a quem doer... E aí, doeu?

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