responsabilidade social do escritor

A responsabilidade social do escritor

Certa vez, o filósofo Baruch Spinoza, que foi um dos grandes racionalistas do século XVII, dentro da chamada Filosofia Moderna, disse, do alto de sua sabedoria: “Tenho me esforçado por não rir das ações humanas, por não deplorá-las nem odiá-las, mas por entendê-las”.

Relembramos essa frase diante dos fatos políticos que tem acontecido, recentemente, em nosso país. Mas, a questão que queremos debater, relacionada à frase citada é sobre a responsabilidade social do escritor. Como ele tem se comportado em meio a esses fatos recentes? Nos referimos aqui, ao verdadeiro escritor, artista da palavra, e não a escritores circunstanciais, muitos de redes sociais, que parecem estar atingidos pela sentença de Umberto Eco, segundo a qual redes sociais dão o direito à palavra a uma legião de imbecis que antes falavam apenas “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade””. A declaração foi durante o evento em que o famoso escritor, autor de várias obras, dentre elas, o clássico “O Nome da Rosa”, recebeu o título de doutor honoris causa em comunicação e cultura na Universidade de Turim, norte da Itália. “Normalmente, eles, os imbecis, eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel”, disse o intelectual, falecido em 2016.

Na verdade, o que temos visto recentemente na internet é uma explosão de vaidades por parte da maioria dos autores, divulgando com exaustão suas pérolas literárias, com fotos de lançamento e eventos, enquanto outros, ficam se agredindo por terem visões partidárias opostas. O que eles têm feito para mudar o atual sistema? Importa saber que nós mesmos podemos fazer mudanças na sociedade, sobretudo quando trabalhamos com arte, no caso mais especifico a literatura. O que se torna evidente, é que o brasileiro é um ser altamente passional, agindo, unicamente, em prol das suas emoções, dominado pela paixão, quase num fanatismo, guiado pelo coração. Essa é uma questão para refletirmos com bastante seriedade. Mas o que de fato, eles têm feito de prático para mudar o atual sistema?

Na obra “Raízes do Brasil”, do historiador e sociólogo Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), há um capitulo muito interessante que trata da cordialidade do povo brasileiro, porém, cordialidade no sentido que remete ao coração (cor, cordis), ou seja, dá o jeitinho brasileiro de fazer as coisas, baseado na camaradagem, na amizade.

Essa cordialidade brasileira, que a principio seria algo positivo, pode tornar-se negativa, por sair do âmbito privado para o público. Sempre queremos beneficiar os mais próximos, “os de casa” mesmo que isso prejudique a coletividade. Segundo Sérgio Buarque de Holanda tal proceder vicioso é uma herança portuguesa, misturada com um pouco do legado de outras culturas, negras e indígenas. O tipo cordial é individualista, avesso à hierarquia, arredio à disciplina, desobediente a regras sociais e afeito ao paternalismo e ao compadrio. Evidentemente, não se trata de um perfil adequado à vida civilizada numa sociedade democrática. Mas é o que se encontra com frequência no meio literário que é o de que estamos tratando.

O PAPEL DA LITERATURA

Todos nós, escritores e amigos dos livros precisamos compreender nosso papel como cidadãos comprometidos em tornar uma sociedade melhor. Lembremo-nos de que, assim como todas as artes, a literatura está vinculada à sociedade em que se origina. Não há escritor completamente indiferente à realidade, pois, de alguma forma, todos participam dos problemas da sociedade, apesar das diferenças de interesses e de classes sociais.

A função da literatura, segundo Antonio Candido, está ligada à complexidade da sua natureza, e ela é uma construção de objetos autônomos com estrutura e significado, e é também uma forma de expressão e de conhecimento. Para Candido a literatura tem uma função “formadora”, que, lhe confere um caráter educativo, atuando na formação do leitor.

Para o estudioso existem na literatura níveis de conhecimento planejados pelo escritor e conscientemente assimilados pelo leitor. E são nesses níveis que o autor injeta suas intenções sejam ideológicas, de crença, ou revolta. Ainda segundo Candido, a literatura satisfaz em outro nível, a necessidade de conhecer os sentimentos e a sociedade, ajudando o leitor a tomar posição em face deles.

FUNÇÃO POLÍTICO-SOCIAL

O ponto de vista do artista, mesmo implícito, defendido em sua obra, contribui para novos olhares sobre a realidade, e com isso, propaga novas ideologias, consequentemente o leitor de algum modo terá uma nova postura. Dessa forma, atuam duas funções da literatura, a função cognitiva, ou seja, de passar conhecimento, e a função político-social, que é a que interfere no senso crítico do leitor, formando uma opinião. É preciso que o escritor tenha consciência disso.

Ferreira Gullar, no início dos anos 60, já havia mencionado a importância da responsabilidade social do poeta. Gullar criticou o caráter puramente estético da arte, defendendo a arte engajada como instrumento de conscientização numa visão construtiva da sociedade.

Nesta mesma linha de pensamento, o escritor José Guilherme Merquior apresentou tese em que defendeu a arte, vista de maneira geral, como forma de conhecimento da realidade, que deve refletir a condição nacional, ou seja o artista com seu trabalho, deve influenciar direta ou indiretamente as pessoas.

Ainda segundo Merquior, a ideologia do artista está, na maioria das vezes, em discordância com a realidade que é apresentada e cabe ao artista a responsabilidade social pelo simples fato de fazer arte. Portanto ele deve colaborar na formação de uma sociedade, de modo cada vez mais crítico. Mas, claro, sem nenhum caráter panfletário.

Novamente recorremos ao mestre Candido quando ele disse: “Para a Igreja Católica, durante muito tempo, a boa literatura era a que mostrava a verdade da sua doutrina, premiando a virtude, castigando o pecado. Para o regime soviético, a literatura autêntica era a que descrevia as lutas do povo, cantava a construção do socialismo ou celebrava a classe operária. São posições falhas e prejudiciais à verdadeira produção literária, porque têm como pressuposto que ela se justifica por meio de finalidades alheias ao plano estético, que é o decisivo. De fato, sabemos que em literatura uma mensagem ética, política, religiosa ou mais geralmente social só tem eficiência quando for reduzida a estrutura literária, a forma ordenadora”.

O roqueiro Raul Seixas escreveu, certa vez, uma canção intitulada “Eu Sou Egoísta”, onde proclama: “Minha espada é a guitarra na mão” … Caro leitor, escritor, não deixe de usar a espada que você tem, sobretudo num momento tão importante como o que vivemos. Lute, argumente, aja, todavia usando sempre a razão.

Sobre o autor

Thiago Gonzaga

Pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros.

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