Desistir é uma arte muito subestimada. A gente cresce ouvindo que devemos insistir, persistir, resistir. Mas, sinceramente? Algumas coisas merecem ser largadas de mão.
Eu, por exemplo, já desisti de aprender piano uma vez. Ia às aulas de D. Lourdinha, aprendia meia dúzia de notas e pronto: desespero. “Insista!”, dizia ela, até que um dia desisti de vez, entendi que não nasci para tocar nenhum instrumento por pura falta de coordenação motora e no fim, descobri que a música me tocava de outras formas e hoje posso dizer que sou uma excelente DJ.
A academia é outro clássico. A gente compra roupa nova, faz playlist motivacional, mas a grande verdade é que correr atrás do motoboy da pizza dá mais prazer do que correr na esteira. Quem disse que é obrigatório gostar de academia? Desisto. Quero fazer algo que não pareça tortura medieval.
Desistir também é abrir espaço para o novo. Tentei aprender italiano pra saber cantar as músicas de Eros Ramazotti e Laura Pausini, mas toda vez que pronunciava “gnocchi” parecia que estava convocando um demônio. Abandonei meu curso on line e fui fazer um de escrita criativa. Hoje, estou aqui tentando ser uma boa cronista.
E tem aquelas metas inalcançáveis que inventamos por pura pressão social. O tal do “acordar às cinco da manhã para ser produtiva”. Tentei. No terceiro dia, minha produtividade se resumia a bocejar e amaldiçoar o despertador. Desisti. Troquei a rotina matinal por uma noturna mais alinhada com meu ritmo, e adivinha? O mundo não acabou.
E quem nunca insistiu em maratonar uma série ruim porque “já cheguei até aqui”? Foi assim que perdi horas preciosas com roteiros pavorosos até aprender que ninguém tem tempo a perder com entretenimento medíocre. Desisti e me tornei especialista em abandonar qualquer história que não me prende até o terceiro episódio.
Mas como saber a hora certa de desistir? Simples: quando o esforço supera a satisfação. Se a tentativa de persistir te traz mais frustração do que progresso, talvez seja o momento de largar. Quando você sente que está gastando mais energia do que recebendo em troca, talvez o universo esteja soprando um “chega” no seu ouvido. Desistir não é covardia, é sabedoria de saber onde investir sua paz de espírito.
Curiosamente, muitas desistências nos levam a descobertas inesperadas. Ao abandonar algo que não faz sentido, abrimos espaço para paixões que nunca imaginamos ter. O tempo que eu gastaria tentando dominar Excel foi redirecionado para escrever crônicas. Ao desistir de um relacionamento falido, ganhei tempo para construir amizades verdadeiras. Desistir não é o fim, é a chance de um recomeço inesperado.
A desistência também nos ensina a confiar mais na nossa intuição. Quando deixamos algo de lado e sentimos um alívio imediato, sabemos que tomamos a decisão certa. Esse espaço vazio que surge é um convite para explorar o que realmente nos move. Quem sabe aquela aula de pintura que você nunca levou a sério pode ser a sua nova paixão? Ou aquele curso de cerâmica que parecia um hobby bobo pode virar sua nova profissão?
O problema é que a sociedade romantiza o sofrimento. “Se não está difícil, não vale a pena.” Ah, claro, porque o objetivo da vida é sofrer como uma personagem de novela. Se algo está te arrancando a paz, talvez o universo esteja dizendo: “Miga, larga isso”.
Pensei agora na desistência de amizades, por exemplo. Algumas pessoas já me fizeram morrer de tentar, de insistir, de explicar, dar chances. Até que percebi que investir energia em quem não move um dedo para evoluir é como tentar ensinar japonês para um peixe. Desisti e foi libertador. Mas como diferenciar uma desistência saudável de um simples medo do fracasso? A desistência saudável vem acompanhada de alívio, aquela sensação de que você finalmente soltou um peso que não precisava carregar. O medo do fracasso, por outro lado, vem com culpa, com a dúvida se você deveria ter tentado mais. Se você está parando algo apenas porque teme não ser bom o suficiente, talvez valha a pena insistir mais um pouco. Agora, se a simples ideia de continuar te deixa exausto, sem esperança e sem prazer, então pode ser a hora de abrir mão. Sim eu sei que desistir tem seus percalços. Sempre haverá os fiscais da persistência, aqueles que te julgam, mas, no fim das contas, desistir é sobre escolher batalhas. Sair de cena na hora certa é um ato de classe. A próxima história pode ser melhor. E, se tivermos sorte, virá com um bom solo de guitarra.