O projeto “Abandonar o mapa colonial: o pensamento negro-dissidente” chega a Natal com uma programação que convida o público a pensar — e sentir — o que pode surgir quando decidimos abandonar o mapa colonial. Inspirado na obra da artista e pensadora Castiel Vitorino Brasileiro, especialmente em Quando o sol aqui não mais brilhar: a falência da negritude (2022), o projeto propõe uma travessia coletiva pelas margens, pela recusa e pela invenção de outras formas de existência.
Com atividades distribuídas entre novembro e dezembro de 2025, a programação reúne nomes centrais do pensamento e da arte contemporânea negra e dissidente, como Jota Mombaça e Castiel Vitorino Brasileiro, em oficinas e palestras que se desenham como espaços de respiração, escuta e experimentação.
Além das ações formativas, o projeto também contará com a Bixaria Ball, realizada em parceria com a Casa das Ixtranhas, celebrando corpos, memórias e imaginários dissidentes. A Bixaria Ball é um baile que reflete sobre as relações que temos com as políticas de controle do corpo e propõe a expansão dessas noções — um desmantelo na lógica cisnormativa e colonial. O evento se afirma como gesto artístico e político, reafirmando a potência das expressões negras e LGBTQIAPN+ no Rio Grande do Norte.
Idealizado por Agnes de Oliveira Costa e Sanzia Pinheiro, o projeto nasce do desejo de tensionar as estruturas coloniais que ainda regem o pensamento e a sensibilidade, apostando na arte e na filosofia como territórios de criação de mundos outros.
Ao ser perguntada sobre como surgiu o desejo de “abandonar o mapa colonial” e o que pode a arte — e o pensamento negro-dissidente — contra as forças governadas pela lógica da guerra e do controle, Agnes explica que o projeto nasceu de uma urgência compartilhada:
“O projeto Abandonar o mapa colonial nasceu do desejo de fazer circular o pensamento negro-dissidente como uma prática de estudo — algo que se faz com outras pessoas, fora dos espaços formais de aprendizagem. Queremos pensar socialidades que nos permitam abandonar um mundo erguido sobre a
guerra colonial e o terror do Estado e do Capital. Trazer Jota Mombaça e Castiel Vitorino Brasileiro é afirmar o compromisso com práticas de cuidado e transformação. O pensamento negro-dissidente é testemunha viva de poéticas de recusa ao projeto de morte que sustenta o mundo em que vivemos”, afirma.
Já Sanzia Pinheiro, ao responder sobre o significado de realizar esses encontros em
Natal, destaca a potência simbólica do território:
“As intelectuais Jota Mombaça e Castiel Vitorino Brasileiro confrontam narrativas históricas de exclusão, apagamento e hierarquização. Essa produção intelectual tensiona as relações de classe, gênero e raça, abrindo fissuras nas práticas artísticas e de pesquisa em Natal. A cidade é marcada por invasões e apagamentos; enfrentar esse passado colonial é também reinventar modos de existência. Ter Jota Mombaça neste primeiro ciclo é muito simbólico — ela nasceu aqui, conhece as dinâmicas de violência e exclusão desse território. Este encontro é um gesto de criação, escuta e invenção coletiva diante das heranças coloniais que ainda nos atravessam”, reflete.
Idealizadoras
Agnes de Oliveira Costa é mestra em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), com pesquisa sobre Capitalismo e Esquizofrenia de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Doutoranda em Ética e Filosofia Política pela UFRN, dedica-se a investigar as relações entre capital, guerra e biopolítica diante do fenômeno do encarceramento em massa. Integra o grupo de pesquisa Metafísica Contemporânea, a escola livre Bibliopreta, o coletivo Quilombo Invisível e a Rede Brasileira de Filosofes Trans.
Sanzia Pinheiro é doutora em Educação e mestre em Ciências Sociais pela UFRN. Atuou em diversas comissões de seleção e curadorias em instituições como a Escola Porto Iracema das Artes, o Hotel Globo e Casarão 34 (João Pessoa/PB) e o Itaú Cultural/SP, além de integrar o comitê curatorial do Programa Rumos Visuais/Itaú Cultural e o Colegiado de Artes Visuais do MinC. Realizou exposições como Gota d’água (Maré Foto Festival, 2024), Poéticas de memória e reinvenção (Galeria Figa, 2025) e Do Banco ao Museu (Pinacoteca do Estado, 2022).
Serviço
06 Nov > Palestra: Para respirar sob a terra
Auditório B, CCHLA – UFRN | 19h às 21h
Com Jota Mombaça
07 08 Nov > Oficina: O que não tem espaço está em todo lugar
DEART | 14h às 19h
Com Jota Mombaça
15 Nov > Ballroom: Bixaria Ball
Figa Bar | 19h
org. CasixTranha
11 12 Nov > Oficina: Método elementar
DEART | 14h às 19h
Com Castiel Vitorino Brasileiro
13 Dez > Palestra: Método Elementar
Local Indefinido | 19h
Com Castiel Vitorino Brasileiro
Instagram: @abandonaromapacolonial
Realização: Fundação José Augusto, Secretaria de Estado da Cultura, Governo do Estado
do Rio Grande do Norte, Sistema Nacional de Cultura, Política Nacional Aldir Blanc de
Fomento à Cultura, Ministério da Cultura e Governo Federal
