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Polycarpo Feitosa e a falta da Academia Norte-rio-grandense de Letras

Quem se debruçar sobre a história da vida literária, no Rio Grande do Norte, vai deparar-se com alguns fatos inusitados. Por exemplo: um dos nossos maiores escritores – Polycarpo Feitosa (pseudônimo de Antônio José de Melo e Souza) não pertenceu à Academia Norte-rio-grandense de Letras, nem sequer como sócio honorário. Por quê… Nunca se soube o motivo de sua ausência numa instituição, que, pelo menos em tese, reúne a elite intelectual do Estado.

Ficcionista de primeira grandeza, além de poeta, ensaísta e memorialista, Polycarpo Feitosa é um nome que orgulha o nosso Estado. Tinha tudo para ser acadêmico, inclusive status social (às vezes é levado em conta). Disfarçado pelo pseudônimo, Antonio de Souza exerceu altos cargos: Governador do Rio Grande do Norte (dois mandatos), Deputado Estadual, Procurador Geral do Estado, Senador, etc.

Note-se que, apesar da sua fama de ermitão, não era avesso à vida literária, pois, entre outras atividades sócioculturais, fundou e dirigiu, ainda jovem, o Grêmio Polimático, entidade prestigiosa, e foi sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.

Quando a ANRL foi fundada, em 1936, Antonio de Souza havia deixado de exercer, no ano anterior, as funções de Secretário Geral do Estado (substituto eventual do Interventor Mário Câmara) e aposentara-se no cargo de Consultor Geral do Estado.

Noticiando a instalação da ANRL, disse o jornal do Commércio, do Rio de Janeiro:

“Realizou-se, ontem, em Natal, solenemente, a instalação da Academia Norte-rio-grandense de Letras, fundada sob a orientação da Federação das Academias de Letras do Brasil e auspícios do governador do Rio Grande do Norte.

A Academia compõe-se de 25 cadeiras, sob o patrocínio de nomes ilustres de riograndenses falecidos, e já ocupadas as primeiras vinte por individualidades representativas da intelectualidade do Estado.”

Após enumerar os patronos e acadêmicos destas cadeiras, o jornal adianta:

“Para as cinco restantes cadeiras os acadêmicos serão eleitos dentre os Srs. Adauto Câmara, Eloy de Souza, Januário Cicco, José Augusto, Nestor Lima, Rodolfo Garcia, Matias Maciel, Tobias Monteiro, Valdemar de Almeida e Tavares de Lyra.”

Cinco dos nomes citados, aliás, dos mais eminentes, não foram eleitos: Eloy de Souza, José Augusto, Rodolfo Garcia, Tobias Monteiro e Tavares de Lyra. Estes três últimos tornaram-se sócios honorários.

José Augusto veio a ser eleito, anos depois, quando se aumentou para 30 o número de cadeiras, em 1943. E Eloy de Souza elegeu-se em 1949, sucedendo a Antônio Pinto de Medeiros, que renunciou. Em nenhum momento foi cogitado o nome de Antonio de Souza.

Em 1957 ampliou-se, mais uma vez, o número de cadeiras da ANRL, fixando-se o mesmo em 40, de forma definitiva, conforme o modelo da Academia Francesa. Antonio de Souza falecera dois anos antes, mas ninguém lembrou-se de homenageá-lo como patrono de uma das cadeiras então criadas.

Motivação política?

É provável que a exclusão do ilustre escritor, quando da fundação da Academia, tenha tido motivação política.

Como consta da notícia do Jornal do Commércio, acima citada, a novel entidade nasceu “sob os auspícios do governador do Estado”, que era, então, Rafael Fernandes. Este disputara a governança com Mário Câmara, em 1935, numa das campanhas mais conturbadas da história do Estado. Numerosas inimizades resultaram do sectarismo generalizado nessas lutas políticas. Ora, se Antonio de Souza tinha sido um homem da confiança de Mário Câmara…

Antônio de Souza, injustamente esquecido

Decorridos 64 anos de sua morte, Antonio de Souza está, injustamente, esquecido.
Fala-se muito e muito se escreve sobre ilustres governadores do Estado – Alberto Maranhão, José Augusto, Juvenal Lamartine, Aluízio Alves – mas nunca se diz que Antonio de Souza foi um dos melhores governantes que já tivemos, senão o melhor.

Honradez, tino administrativo, conhecimento da problemática socioeconômica do Estado, tudo depõe a seu favor. Mas, não é reconhecido.

No campo da literatura, as homenagens vão, quase sempre, para Câmara Cascudo, Auta de Souza, Jorge Fernandes, Zila Mamede e alguns outros, deixando de lado Polycarpo Feitosa. Dos seus cinco romances, apenas um – “Gizinha” – foi reeditado, e o seu único livro de contos permanece em primeira edição. Felizmente, o editor Cleudivan Janio, da CJA Edições, prometeu agora relançá-los.

Não sei de grande logradouro, tampouco de instituição que tenha o nome do eminente patrício. Estudo biográfico em profundidade – nenhum! Em 2016 tracei o seu perfil, em breves pinceladas, editado num volume, tipo pocket book, pela 8 Editora, na prestigiosa Coleção Presença.

Ampliando agora esse trabalho juntei valiosos subsídios, muitos destes coletados com a ajuda do escritor Thiago Gonzaga, e escrevi o livro “Antonio de Souza. (Polycarpo Feitosa) – Uma Biografia”. O lançamento está previsto para o mês de março do próximo ano.

Sobre o autor

Manoel Onofre Jr.

Desembargador aposentado, pesquisador e escritor. Autor de “Chão dos Simples”, “Ficcionistas Potiguares”, “Contistas Potiguares” e outros livros. Ocupa a cadeira nº 5 da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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