Em Pluribus (série da AppleTV, lançada em 2025), a paz mundial é alcançada quando um vírus une (quase) todas as pessoas em uma mente coletiva — isto é, a empatia completa é alcançada. Consequentemente, toda a sociedade se organiza em torno da sobrevivência do planeta e de cada ser vivo nele.
A protagonista é Carol, uma clássica anti-heroína: alcoólica e anti-social. Durante toda a trama, ela permanece completamente resistente a cada mudança: não se pode economizar energia à noite, porque ela quer ver a cidade acesa. Não se pode comer pessoas após a morte, mesmo com consentimento delas, porque… ela acha chocante demais? O ser humano não pode se recusar a matar um animal, porque é… humanitário demais? Não sei. As razões de Carol são dadas como auto-evidentes, sem mais explicações.
Minha experiência assistindo à série foi de ficar extremamente frustrada com a personagem de Carol, ao mesmo tempo que fiquei verdadeiramente empolgada com o quanto a narrativa estava escrachando o individualismo estadunidense.
Que tempo vivemos! Os americanos (sic) admitindo os erros da ideologia que eles nos forçaram goela abaixo durante a colonização cultural. Suas instituições estão completamente falidas — e também os seus cidadãos, à mercê de corporações. A coletividade está ganhando espaço no entretenimento mainstream! Que momento!
Mas… no último episódio ficou abundantemente claro, para mim, que o discurso da série era outro. Independentemente de Carol ser uma anti-heroína, a obra se filia à sua moral. Alguns acontecimentos, e a forma como são dirigidos (por exemplo, o momento em que uma personagem, que vive em uma vila rural isolada, faz a transição para a mente coletiva e todos afastam-se com o semblante apático), transmitem um senso real de estranhamento e medo do vírus. Como também a conclusão da temporada, quando o Oviedo (o personagem Paraguaio que também resiste à Mente Coletiva) junta-se à Carol. Nesse movimento fica implícito que a próxima temporada será sobre a luta dos dois — pintando a atitude de ambos como um teamwork heróico (um tropo amado em hollywood), quando eles saem do lugar do egoísmo (para uma noção de não-egoísmo da cultura estadunidense, claro) para salvar o mundo.
Lembrou-me uma análise de Eu Sou a Lenda, do Slavoj Zizek¹. Foi nesse ensaio dele que fiquei sabendo que no livro original², em que se baseia o filme, o ponto de vista da narrativa é diametralmente oposto. Na história original (do livro, e da primeira adaptação, de 1964³) o protagonista é “A Lenda” de forma pejorativa: essa caracterização indica que ele é o “bicho-papão” que caça os “zumbis”, que são a nova espécie dominante no planeta. O ponto de vista moral, defende Zizek, é que a nova espécie está sendo morta à rodo pelo ‘sobrevivente’ humano simplesmente por serem diferentes da espécie humana anterior — ele é o vilão que, como todo imperialista (especialmente o Império Americano, tendo como contexto a época de lançamento do livro), quer impor a sua própria cultura, sem enxergar ou considerar outras culturas como merecedoras de empatia e existência. Já no filme de 2007⁴ (aquele com Will Smith), o personagem é “A Lenda” porque ele descobre a cura para o vírus e sacrifica-se para salvar a espécie humana. Perfeitamente hollywoodiano.
Enquanto no contexto de Eu Sou a Lenda a fantasia dos zumbis nos empurra, como espectadores, ao lugar de nos alinharmos com o protagonista (para no final nos percebermos como predadores e a reflexão filosófica causar um grande impacto); Em Pluribus a situação ‘distópica’ é tão realista que me é pessoalmente difícil entender COMO o espectador se alinha com a protagonista, diante de tantos argumentos evidentes em defesa da vida. Ainda mais quando o que é oferecido como alternativa é, simplesmente, “as coisas como elas são”.
É frustrante chegar a esse ponto do colapso neoliberal e perceber esse tipo de narrativa repetindo-se e, pior, fazendo sucesso. Depois de acordar dessa ilusão sobre as intenções de Pluribus, pesquisei sobre em outras resenhas e percebi que tinha ignorado os sinais dos episódios anteriores: de acordo com a leitura de outros (muitos) colegas, a série tem intenção de criar dilemas e discutir, realmente, os atritos entre público e privado, entre coletividade e individualismo; como se fossem duas instâncias de fato opostas e necessárias, quer dizer, como se o individualismo fosse um desejo intrínseco humano.
A noção de liberdade estadunidense, que contamina outras culturas no mundo de forma realmente pandêmica, nos convence que a liberdade é um bem individual. Que você pode assassinar uma pessoa se ela pisar no seu quintal, que é sua propriedade. É uma noção que concorre com a ideia de viver em sociedade, de compartilhar uma mesma realidade. É a noção que permite que a ‘liberdade de expressão’ também seja livre para disseminar o ódio contra outras pessoas, como o racismo e a misoginia proferidos abertamente.
É uma liberdade completamente individual, que pertence a cada um — e, por conseguinte, invade a liberdade do outro, tornando-o menos livre. Ou seja, todos têm direito à liberdade, mas o que você chama de liberdade literalmente impede que todos desfrutem desse direito. Me faz sempre pensar nas noções de Bakunin sobre o conceito de liberdade como um bem compartilhado. Que a humanidade e a liberdade começam (literalmente) na vida coletiva.
Só posso me sentir livre na presença e no relacionamento com outros homens. […] Não sou livre ou humano até, ou a menos que, reconheça a liberdade e a humanidade de todos os meus semelhantes.⁵
Mas isso é todo um outro assunto mais complexo.
Um dos dilemas coletividade vs. individualidade, que são apontados pelos resenhistas, seria o seguinte: muitas pessoas morreram quando houve a infecção pelo vírus. Ele é exposto como um acontecimento sem intenção e inteiramente circunstancial, e mesmo assim é repetidamente colocado como uma grande questão moral contra o tal do vírus, apesar de não ter ligação direta com o funcionamento dele. Outra cena construída para gerar incômodo é aquela em que Carol conhece um estádio onde todas as pessoas dormem juntas; esse local parece uma tentativa de desumanizar aqueles personagens, acentuando uma espécie de precariedade. Todas essas pequenas características da nova organização social são confrontadas com a perplexidade e revolta da protagonista, o que seria o esperado de uma caricatura de um estadunidense — mas elas também são retratadas de forma que provoquem repulsa aos espectadores.
Então, me enganei. Parece mesmo que a série é propaganda anti-socialista, é fundada em pânico anti-comunista, e a próxima temporada deve confirmar isso.
Resta, a mim, torcer por uma pequena revolução nos bastidores antes disso.
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¹ “Hollywood hoje: notícias de um front ideológico”, Prefácio à edição Brasileira, Lacrimae Rerum Ensaios sobre o cinema Moderno, Ed. Boitempo (2009).
² I am Legend, livro de Richard Matheson, 1954.
³ Mortos Que Matam (The Last Man on Earth), 1964, dirigido por Ubaldo Ragona.
⁴ Eu Sou a Lenda (I am Legend), 2007, dirigido por Francis Lawrence.
⁵ manuscritos agrupados em Sobre a Liberdade | Biblioteca Anarquista.
