Pipa: do cosmopolitismo à modernidade nociva e um recanto de resistência

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Frequento Pipa desde 1997 com assiduidade. Claro a praia já se distanciava daquela aura hippie oitentista, ou até de antes, formada por surfistas adeptos da kaya. Ainda assim existia uma vibe alternativa por onde se olhasse, mesclada à atividade pesqueira nativa muito presente.

Naquele fim de século 20 já havia bom número de comércios, a maioria dominada por estrangeiros, como hoje. A diferença era o perfil dos frequentadores. Procuravam a praia quem comungava com esse aura alternativa. Por consequência, Pipa se preservava das modernidades mundanas nocivas.

O que se vê hoje é a bolha furada: a invasão da pasteurização humana e cultural do mundo-hoje. Se no fim dos anos 90 predominavam ali os hits do Cidade Negra, Chico Science, Skank, Rappa… hoje proliferam a farsa sertaneja e sambas dessa mesma época, mas que até então permaneciam longe do cheiro da maconha.

Mesmo na beira da praia, onde a natureza parece imutável na beleza e na paz, alguns ainda tentam vender seus gostos duvidosos com pequenas e potentes caixas de som com derivações de suingueira, espalhando modernidades pela brisa cansada da praia.

Sim, insisto em frequentar Pipa. Driblo alguns desses percalços, saio menos e procuro lugares de resistência. O melhor deles, sem dúvida é o Taipa Brasil. Fica nas proximidade da saudosa boate Calangos, em frente ao supermercado Atacarejo.

Semana passada rolou por lá o Festival de Verão anual. Muito reggae na veia. Regueiros guerreiros encheram a casa e prestigiaram atrações de renome local e nacional. Fui lá na última sexta. Parece que entrava não em um espaço gastronômico e musical consolidado, tendo a pizza e o reggae como carros chefes do serviço, mas em um túnel do tempo.

A Taipa Brasil abriu em 2016 já com esse propósito: reverenciar o reggae, desde aquela época com pouco espaço em casas de show pelos chãos potiguares. Ou se for além, também para fincar morada e sonho de um argentino que encontrou em Pipa a sua “vibe” de vida.

Mariano Hernan Murias traçou um roteiro no estilo Diário de Motocicleta, o filme que retratou as andanças do guerrilheiro Che Guevara pela Sul América. Foram cinco anos ininterruptos conhecendo países, culturas e paisagens. E entre esses recantos estava a praia de Pipa.

Nesta dia que vos escrevo tem a Terça do Reggae, e a banda maranhense Raiz Tribal como atração principal, com abertura de um acústico com Peixinho e fechamento da noite com o DJ Guerreiro. E no próximo dia 17 volta à Pipa e ao Taipa nada menos que um dos grandes nomes da música jamaicana: Eek-A-House.

E da taipa resistente das velhas casas nordestinas, a Pipa tem sobrevivido aos novos tempos, como também o entusiasmo pela deste velho escriba pela praia, pelo reggae, pelas boas vibrações.

 

Sérgio Vilar

Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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