Olivença e Martins, cidades unidas pelo destino de um homem

O Alferes Onofre José da Silva nasceu a 23 de janeiro de 1787, em Olivença, distrito de Portalegre, Portugal. O que talvez seu pai, o soldado José da Silva, jamais fosse imaginar é que o filho iria atravessar o Atlântico e contribuir para a formação de uma nova árvore genealógica, ou seja, praticamente um novo tronco familiar, numa pequena cidade brasileira chamada Martins. E assim, podemos dizer, se fez a união dessas duas cidades – Olivença e Martins – separadas pelo oceano, porém, ligadas por laços de família.

OlivençaOlivença é uma antiga vila do Alentejo e a sua origem nos remete ao século XIII, período da reconquista cristã pelos Templários. O lugar passou definitivamente a território português em 1297, quando assinado o Tratado de Alcanises, por D. Dinis, rei de Portugal, e Fernando IV de Castela, que definia os bens territoriais de cada reino. Nesse mesmo período D. Dinis ordenou a construção de uma fortificação na vila, reforçada posteriormente através da construção de uma torre de menagem, no reinado de D. João II, e da ponte N. Sra. da Ajuda, também conhecida por ponte da Ajuda ou de Olivença, sobre o rio Guadiana, ordenada por D. Manuel.

Após a ocupação do trono português pela dinastia filipina, começaram as disputas pela posse de Olivença entre Portugal e Espanha. No período da restauração, em 1640, e nas guerras que se seguiram, Olivença foi ocupada por um duque espanhol, sendo devolvida a Portugal na sequência da celebração de um tratado de paz, em 1668, no qual Espanha reconhecia a soberania de Portugal.

Olivença voltou a sofrer a ocupação espanhola em 1801, no episódio que ficaria conhecido como a Guerra das Laranjas. Foi nesse cenário, ao eclodir a Guerra Peninsular, que se registrou a invasão do reino de Portugal, em 20 de Maio de 1801, por tropas espanholas sob o comando de Manuel Godoy, as quais rapidamente conquistaram as praças de Olivença, Juromenha e outras no Alto Alentejo.

Como na luta contra a Inglaterra, Portugal recusou juntar-se à França, que tinha Espanha como aliada, estes dois países pretenderam conquistar o território português. Após as guerras napoleônicas, realizou-se o Congresso de Viena, onde não foi reconhecido internacionalmente o domínio espanhol de Olivença e foram reforçados os direitos de Portugal. Espanha assinou o tratado de devolução, mas, nunca cumpriu o acordo até os dias de hoje.

Atualmente, Olivença é administrada por Espanha, ainda que Portugal não reconheça a soberania espanhola sobre a cidade. A questão de Olivença ainda se mantém, porém, apesar dessa discórdia, as relações entre os dois países são boas.

Fruto dos dois séculos de administração espanhola e isolamento do resto de Portugal, o português oliventino já é quase uma língua morta, por sinal; os jovens não o falam mais, restando apenas alguns idosos e poucos outros que lutam pela sua preservação. O português deixou de ser a língua da população a partir da década de 1940, num processo acelerado pela política de castelhanização implementada pela Espanha.

DE OLIVENÇA PARA NATAL

Vindo para o Brasil, designado para servir em Natal, o alferes Onofre José da Silva constituiu família, casando-se com a paraibana, natural de Mamanguape, Inês Cipriana Geralda de Andrade (V. Câmara Cascudo, “O Livro das Velhas Figuras”, vol I, 1974, p. 91). Por haver participado das lutas pós-independência, o jovem militar teve que voltar ao seu país de origem, onde se envolveu na guerra travada entre constitucionalistas liberais e absolutistas, tomando o partido de D. Miguel.

DE NATAL A MARTINS

Em Natal um filho seu, Manuel Onofre de Andrade, viria a se casar com a natalense Francisca Benvenuta de Borja. Um dos filhos do casal, João Onofre Pinheiro de Andrade, tornou-se professor e terminou por exercer o seu oficio, durante longos anos, na cidade de Martins (RN), onde casou-se com Agostinha de Souza e tiveram vários filhos.

Martins é sede de um município situado na mesorregião do Oeste Potiguar, a uma distância de quase 400 quilômetros de Natal. Com uma área territorial de 169 quilômetros quadrados, sua população, no censo de 2010 ,era de 8 228 habitantes, de acordo com o IBGE.

O município emancipou-se de Portalegre em 1841, com a denominação de Maioridade, em alusão à Maioridade do Imperador Pedro II, ocorrida no ano anterior. Seis anos depois, o nome foi alterado para Imperatriz, homenagem a D. Teresa Cristina de Bourbon-Duas Sicílias, esposa de D. Pedro II e imperatriz do Brasil por quase meio século, desde 1843 até a queda do regime monárquico, em 1889. Através da lei provincial n° 35, sancionada pelo governador Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, em 7 de julho de 1890, “Imperatriz” passa a ser denominado de “Martins”, em referência a Francisco Martins Roriz, fundador de uma fazenda, origem da cidade, e construtor da capela de Nossa Senhora da Conceição, hoje igreja do Rosário.

Localizada a uma altitude de 740 metros em relação ao nível do mar, Martins recebe as alcunhas de Princesa Serrana e Campos do Jordão do Rio Grande do Norte, devido ao seu clima considerado agradável, em contraste com o clima semiárido das vizinhanças, podendo chegar a 15 °C nos meses mais frios.

Um dos principais destinos turísticos do interior potiguar, Martins se destaca no turismo de aventura, abrigando a segunda maior caverna de mármore do país, a Casa de Pedra, com 100 metros de comprimento. No ramo cultural destacam-se, um festival gastronômico, dois museus e a festa da padroeira, Nossa Senhora da Conceição, realizada a partir do final de dezembro, estendendo-se até o início de janeiro; merece menção, também, a Academia de Letras e Artes de Martins (ALAM) e a Casa de Cultura “José Câmara”.

O escritor Manoel Onofre Júnior, acabou de publicar o livro “Os Onofres – de Portugal Para o Brasil” (8 Editora, 2018) que resume a trajetória de três integrantes da família: Onofre José da Silva, o pioneiro, proveniente de Olivença, Portugal; Manuel Onofre de Andrade, que foi tipógrafo e ator, em Natal, encenando peças ao lado do poeta Lourival Açucena; e por fim, João Onofre Pinheiro de Andrade, conhecido como Professor Onofre.

As cidades de Olivença e Martins, dessa forma se unem, através do tempo e do espaço, pela ligação familiar entre o alferes, depois tenente oliventino e o professor, martinense adotivo.

About The Author: Thiago Gonzaga

Thiago Gonzaga

Pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros.

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