O poder do afeto

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O amor é um ato revolucionário.

Chico César

Datas festivas sempre nos trazem muitas reflexões e, neste Dia dos Pais, não foi diferente. Gosto de pensar nas festividades, mas sobretudo no significado que uma data como essa tem para pais e filhos. A mim, particularmente, não me diz muita coisa porque não tive a experiência de ter um pai presente. Pouco convivi com o senhor Luiz Gonzaga, cujo nome sequer consta no meu registro de nascimento. Mas tive a sorte de ter irmãos mais velhos como referência e sou muito grata por isso. São eles: Jonas, Anchieta, Paulo, Sebastião. Irmãos que aliás são excelentes pais. Pais amorosos, presentes, como todos deveriam ser. Mas essa é uma outra história sobre a qual podemos falar em outra crônica. Hoje meus pensamentos estão voltados para o meu companheiro, Francisco Julião, a quem gostaria de prestar uma homenagem e dizer o quanto admiro como pai.

Gostaria de ter preparado um café da manhã especial para ele, mas nossa filha não estava em casa e optei por fazer isso quando ela estiver conosco. Também gostaria de ter ido à praia cedinho, fazer uma caminhada e tomar um banho de mar na companhia deles. É um programa que gostamos de fazer juntos nos raros momentos de lazer. Aliás, ele merece um dia inteiro de homenagens. Desde que iniciamos o nosso relacionamento, há quase três anos, tenho testemunhado diariamente seu amor e seu cuidado com essa menina que hoje considero uma filha. Quando nos conhecemos, ela morava na Bahia, onde nasceu, e, em comum acordo com a mãe, veio morar conosco. Ainda bem que existe a tecnologia pra elas matarem a saudade diariamente através das chamadas de vídeo. Em breve, o encontro será presencial. Será um momento de muita alegria para todos nós.

Quando Rebeca chegou, presenciei um dos encontros mais comoventes da minha vida. O abraço apertado, o choro de alívio, a alegria da presença. Nem tudo cabe nessa breve descrição, mas pude sentir a felicidade de ambos naquela manhã de sexta-feira de um dezembro que nunca mais seria o mesmo para nenhum de nós. Nascia ali uma nova família e Rebeca agora teria dois lares, um em Natal e outro em Candeias. De um lado, a alegria do pai em poder cuidar da filha que estava distante. De outro, a sensação de segurança e proteção de uma menina de doze anos que nunca havia ficado distante de seu amado pai (eles ficaram um ano e quatro meses sem se ver após o retorno dele para o Rio Grande do Norte). Que privilégio o meu poder vivenciar com eles esse amor e aprender tanto com essa convivência amorosa entre pai e filha!

Sei que alguns podem pensar que estou falando o óbvio, que todo pai deveria amar e proteger seus filhos etc. e tal, mas sabemos que essa não é a realidade. O abandono paterno é uma triste realidade de muitas crianças e adolescentes. Além disso, meu intuito é homenagear meu companheiro e dizer da admiração que tenho pela relação que ele constrói diariamente com nossa menina. Uma relação cheia de afeto, cuidado, presença, gargalhadas, comilanças, brincadeiras. Mas também uma relação de disciplina, cobranças, reflexões, bons exemplos. Uma relação marcada pelo diálogo constante. Uma relação onde a escuta amorosa é a base de tudo. Uma relação onde o afeto prevalece.

São tantos momentos bonitos que presencio diariamente. A convivência deles é algo que sempre me comove, talvez por eu não ter vivenciado essa experiência e/ou por não conhecer muitas histórias cujos pais cumprem seu papel e ajudam a construir filhos saudáveis, amados, seguros. Gosto de vê-los no sofá assistindo vídeos engraçados ou mesmo olhando carros (uma paixão de ambos) e planejando o automóvel que terão no futuro. Gosto de vê-los dançando ou ensaiando golpes de Muay Thai. Também gosto quando eles estão conversando sobre os amigos que ficaram na Bahia e relembram a época em que Francisco tinha uma loja de sonhos. São muitas histórias. Outro dia nosso café da tarde foi regado a histórias da infância de Rebeca e de seus irmãos mais velhos – Lara e Thalyson (que consideram Francisco como pai). Ficamos algumas horas vendo fotos e vídeos no celular.

Francisco não teve a mesma sorte de Rebeca porque sua história de vida começou de forma inusitada. Foi adotado aos dois dias de vida por uma tia materna, dona Maria Félix. Perdeu a mãe biológica aos oito anos e só esteve com o pai biológico duas vezes na vida. Ainda assim, faz questão de falar com respeito e admiração do vaqueiro Eufrásio Julião, que lhe deixou de herança um chapéu que ele guarda com muito apreço. Dona Maria Félix é lembrada com muito amor pelo filho caçula, que sempre fez questão de dizer que a amava e gostava de lhe dar muitos beijos e abraços. Suas fotos da infância dizem muito dessa relação amorosa entre mãe e filho. Um menino robusto e sorridente que adorava se esconder na rede com o pai para a mãe procurá-lo e enchê-lo de beijinhos.

O pai adotivo, Francisco Ferreira de Carvalho, faleceu quando o menino tinha apenas quatro anos de idade. A partir de então, o filho mais velho, Raimundo Nonato, padrinho da criança, assumiu o papel de pai de Francisco Julião

Raimundo Nonato partiu há um mês, aos oitenta anos de idade. Viveu uma vida longa e feliz, apesar das limitações de saúde enfrentadas nos últimos anos por conta de uma doença renal que o obrigava a fazer hemodiálise três vezes por semana. Além disso, surgiu um grave problema cardíaco, que foi a causa de sua morte. Foram nove meses de internação, alguns deles no Hospital Universitário Onofre Lopes, de onde podia ver o mar quando podia levantar da cama para fazer suas necessidades e caminhar pelo hospital na hora da fisioterapia. O mar que ele tanto amava. “Mas as coisas findas / muito mais que lindas, / essas ficarão”, como nos ensina o poeta. E de Raimundo ficarão as boas lembranças, o sorriso, a força, a coragem e, sobretudo, o amor que ele tinha pela fazenda onde nasceu e de onde nunca gostaria de ter saído, como me confessou uma vez.

Contei um pouco da história de Francisco para mostrar a construção do seu eu, as redes de afeto construídas com a mãe adotiva, os irmãos, sobrinhos, e como tudo isso fez ele se transformar num homem sensível, amoroso, presente. Um homem justo, sensato, humilde, bem-humorado, honesto, trabalhador. Um homem bom. Admiro o profundo respeito que ele nutre pelas irmãs e a disposição constante para ajudar sempre que precisam dele. Não tem dia nem hora, quando o assunto é a necessidade de uma de suas irmãs. Seja para colocar um botijão de água, seja para ir buscá-la no mercado, seja para levá-la na igreja, ele está sempre com um sorriso no rosto e pronto para ajudar.

Francisco é um homem que tem vocação para ser pai, para cuidar, para se doar. E não me refiro somente aos filhos dele. Seus dias são muito mais dedicados à família e ao trabalho do que a qualquer outra coisa. Sua dedicação aos amigos é algo que me comove. Sua amizade com Fernando Lucena é prova disso. As viagens para Bodó, os filmes de faroeste, as histórias partilhadas… Jamais conheci alguém tão desapegado de coisas materiais e tão preocupado com o bem-estar dos seus quanto Francisco. E quantos domingos ele não está na cozinha preparando o almoço da família! Adoro quando ele faz galinha ou carneiro. E quantas noites, mesmo cansado do trabalho, prepara nosso jantar e por vezes o almoço do dia seguinte! Lição que Rebeca tem aprendido e executado com maestria, pois também prepara nossas refeições e está sempre disposta a cuidar da gente. Outro dia ele me confessou que talvez sua missão seja contribuir para o bem-estar do outro. Uma declaração profunda e marcada pela bondade que emana do seu coração e faz dele um ser tão iluminado. Que sorte a nossa ter você, meu bem!

Diante de tudo isso, por vezes me pego a pensar: que sorte a de Rebeca ter um pai como Francisco! Digo sorte porque sei que nem todas as crianças e adolescentes são amadas e protegidas pelos seus pais, como deveria ser. E isso me causa uma tristeza profunda. As consequências do abandono paterno são irreversíveis. Sendo assim, penso no legado que Francisco vai deixar para ela com essa referência de homem, de companheiro, de pai. Mas, acima de tudo, de amigo. Sim, porque é um pai-amigo, um pai que dita as regras sem ser autoritário, que diz o que precisa ser feito sem alterar a voz, que mostra através de sua trajetória como ela deve construir seu futuro e a importância de estudar, de trabalhar, de ter uma profissão para viver com dignidade. Um pai que também senta com a filha para escutar o que aconteceu na escola, na aula de Muay Thai, para escutar as fofocas dos amigos dela, os problemas de cada um deles (outro dia, ela teve que sair de casa às pressas para ajudar a fazer o velório do cachorro de uma amiga).

E depois de mostrar um pouco do pai que é Francisco para Rebeca, meu maior desejo para este Dia dos Pais é que ele possa conviver mais com os dois filhos que moram em outra cidade, Dayssa e Diego. Eles são fruto do primeiro casamento de Francisco. Igualmente amados pelo pai, eles foram viver em Mossoró justamente quando Francisco retornou a Natal com o desejo de estar mais presente na vida de ambos e desfrutar da convivência com os filhos (“A hora do encontro é também despedida”). A vida e seus (des)encontros… Lembro da alegria dele quando os meninos apareceram numa festa surpresa de aniversário. É bonito de ver o orgulho com que ele fala dos filhos mais velhos: “minha filha é advogada”, “meu filho estuda Psicologia”, “meus filhos são muito talentosos, cantam, tocam violão”. “Não há um dia sequer em que eu não pense nos meus filhos”, diz, emocionado, enquanto lhe mostro a crônica que será publicada em sua homenagem.

São muitas as lembranças que ele tem da infância dos meninos, especialmente na época em que moravam em Aracaju, onde tinham uma loja de roupas. Os passeios na orla, as corridas frenéticas atrás de Diego no carro elétrico que ele amava. As idas ao mercado com o garoto também estão em suas melhores recordações. A primeira coisa que Diego fazia era pegar um pacote de biscoito de chocolate, o seu predileto. Dayssa era fã da pista de kart, onde acelerava sem dó e deixava o pai aflito. Nessa época, era o pai quem deixava e buscava os meninos na escola, uma rotina que ele amava. Outra recordação desse tempo feliz é o São João de Aracaju, momento em que pai e filha dançavam muito forró.  Outro dia ele me contou da época em que moravam em Natal e saíam para passear toda noite no calçadão da Praia dos Artistas. “Dayssa amava esse passeio”, diz ele.

Sei o quanto ele está disposto a curtir seus filhos adultos e participar da vida deles. Sei o quanto isso vai trazer mais alegria e vitalidade para seus dias. Não falo em “recuperar o tempo perdido”, porque seria insensatez, mas em viver o tempo presente. Afinal, “o tempo que passou pertence à morte”, como diria o filósofo Sêneca. Melhor mesmo é seguir o conselho do mestre Drummond: “O presente é tão grande, não nos afastemos. / Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”.

Queria eu ter um pai desejoso de minha presença, do meu afeto. Um pai que quisesse caminhar ao meu lado mesmo quando eu não precisasse. Um pai que estivesse disposto a festejar minhas vitórias. Um pai que estivesse disposto a enxugar minhas lágrimas e a me abraçar nas horas incertas. Um pai que me aconselhasse quando eu estivesse seguindo algum torto caminho. Mas a vida não é justa, e “recebe menos quem mais tem pra dar”, como diz o samba de Arlindo Cruz brilhantemente interpretado por Maria Rita.

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Andreia Braz

Escritora e revisora de textos.

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