O mijão

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O verbo “mijar” é sinônimo informal de urinar e, por derivação de sentido, passou a designar “verter qualquer líquido”. O garoto que urina/mija enquanto dorme pode ser considerado um “mijão”. Porém, de uns dias para cá, tenho me lembrado de outro tipo de “mijão”.

Quando morei nas Rocas, na época do São João, os meninos – que compravam ou ganhavam de presente dos adultos – brincavam soltando fogos.

Nunca fui considerado traquinas, danado ou medonho. Raramente eu tinha dinheiro para satisfazer minhas vontades, mas acompanhava, assistindo ou compartilhando com os outros meninos, a diversão das brincadeiras. As opções de pirotecnia variavam: dos dispositivos mais inocentes e frequentes como o “chumbinho” e a “cobrinha” aos mais barulhentos como “peitos de véia”, “traques” e, no máximo, as temidas, bombas “bujão”.

Um dia, os meninos estavam com um “fogo de artifício” novo: era o mijão. O artefato tem forma cilíndrica, feito de bambu com pólvora socada em seu interior. É enrolado em papel seda colorido, contendo uma sobra na ponta que lhe serve de rastilho para o acendimento. Alguns já o conheciam e alertaram que, apesar de ser bonito de se ver, ele era “sabido” e, assim como a “cobrinha”, poderia “correr” atrás da gente, só que por mais tempo; por isso, todos tinham de ser rápidos para não serem atingidos pelo negócio.

A rua onde eu morava era curta e estreita. Com poucos passos, passava-se de uma calçada à outra. Além disso, possuía uma pequena ladeira. Os meninos decidiram soltar o mijão no meio da rua, que era pavimentada com paralelepípedo. Despercebida e inocentemente, o lugar onde resolveram soltar o “bicho” ficava exatamente em frente à casa de um casal de idosos evangélicos que não gostava nem um pouco de barulho e, muito menos, de brincadeiras perto de sua porta.

A casa tinha portão de ferro fundido, decorado. Era vazado, mas, justamente, para não serem perturbados, os donos colocaram um tapume de Eucatex no portão, obstruindo a visão tanto de quem estava dentro da área quanto de quem passava na rua. Isso deu certa tranquilidade aos garotos.

Uma roda de meninos animados se formou para ver o acendimento do “mijão”. Devia haver uns oito garotos. Alguém aconselhou:

– Coloca nessa baixa, aí, entre um paralepípedo e outro; aí, ele fica preso e não foge!

– É mesmo! A meninada concordou.

Dois garotos se encarregaram da empreitada: Beto, o dono do mijão, empunhou um palito e a caixinha em suas mãos, e Zeca pôs as mãos em concha para que o vento não apagasse a chama.

Primeiro fósforo riscado e nada! Segundo fósforo riscado, e o mijão não acendeu.

Num presta não! Resmungou um expectador.

– Usa dois fosfros de uma vez, burro! Alguém gritou para o pirotécnico mirim.

Assim Zeca fez: dois fósforos, juntos, entre o polegar e o indicador. Levou-os em direção à caixinha. Riscou. O atrito causou um barulho típico de algo sendo arranhado; faísca criada, pequena labareda acesa e encostada na ponta do mijão.

De repente, sentiu-se um cheiro forte de combustão no ar, um chiado alto anunciou que o negócio tinha pegado. Parecia que tinha sido ligada uma turbina de avião! Todos se afastaram. Alguns por medo, outros por desconfiança. A luz do mijão clareou ao redor, revelando os rostos alegres e sorridentes das pequenas testemunhas.

Subitamente, o bicho que estava preso entre o sulco dos paralelepípedos levantou o rabo, deu três rodopios em torno de si, no ar, e, numa velocidade incrível, disparou em direção ao portão da casa dos crentes. Parecendo ser além de sabido também trapaceiro, o bicho desviou do tapume, encontrou uma brecha embaixo do portão e entrou na casa sem pedir licença: houve uma debandada da garotada! Foi o famoso: pernas para que te quero!

Era menino subindo calçadas altas, caindo e perdendo chinelo no meio de caminho, correndo em direção à igreja, subindo ladeira acima e exclamando a famosa “eita, p….!” – reveladora de uma culpa inconsciente pueril!

Da esquina da rua, à espreita, ficamos observando o que acontecia: em meio a brados de xingamentos, dava para perceber que o mijão chiava, corrupiando a cauda de cometa dentro da área. Clarão de Batatão era pouco! O mijão não vertia líquido, mas fogo contínuo e rodopiante, alumiando a residência!

Após poucos minutos, os arroubos vulcânicos do mijão pararam. A luz apagou. A cortina de fumaça foi baixando aos poucos. Do lado de fora, os crentes gesticulavam os braços freneticamente, interpelando os vizinhos sobre quem tinha sido o autor daquela danação, que juravam ter sido premeditada.

Ninguém teve coragem de sair dos esconderijos com medo da fúria do casal. Calados, entre nós, tínhamos uma certeza: não era culpa de ninguém, mas da esperteza do mijão.

Sandro de Sousa

Sandro de Sousa

Filho de Macau-RN, residente em Natal desde os 5 anos de idade. Licenciado em Letras Português-Inglês (UFRN), Doutor em Letras (UFPB) e advogado.

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