Num país em que quase todo homem é técnico de futebol e toda loja de vinil tem clube do bolinha, vou me atrever a falar de um tema que, em muitos sentidos, ainda joga no campo do masculino: música. Como não sou especialista, escolho um ângulo diferente, que talvez interesse a quem de música e busca saber sempre um pouco mais. É o meu caso. Confesso que também não resisto a uma provocação e esta veio do músico Moisés de Lima que, aliás, tem ótimos textos sobre o assunto.
Qual é a natureza da música? Não estou me referindo aos sons, nem sequer ao silêncio ou ao tempo, que é o regente do ritmo. A mesma pergunta poderia ser feita sobre a poesia: qual é a sua essência? Se a música tem melodia e pode ter palavras, a poesia tem palavras, mas pode sugerir musicalidade. Como a palavra inspirada surge para nós? Como pode a letra de uma música brotar em nossas almas? E a melodia, de onde vem essa manifestação que junta matemática e sonho? Estou falando de música boa, claro.
Oliver Sacks, médico neurologista, gosta de contar histórias. Com “Tempo de despertar”, inspirou um filme; com “Alucinações musicais”, inspirou este meu atrevimento. Ele nos diz que a música é fundamental para os seres humanos, mesmo que não tenha conceitos, nem símbolos e não tenha relação necessária com o mundo. Mesmo assim, a música é essencial em todas as culturas. Sacks afirma que nós somos uma espécie musical, além de linguística.
Sim, somos uma espécie linguística, ou seja, somos capazes de simbolizar. Com os símbolos, sinais, imagens e palavras, podemos representar o mundo, representar a nós mesmos, e também podemos cantar com as palavras que criamos, e podemos encantar com o nosso canto.
E o canto dos humanos faz mais que encantar. Outro escritor, Bruce Chatwin, pesquisou e escreveu um lindo livro sobre “os mitos aborígenes da Austrália Central, que falam de seres totêmicos legendários que atravessaram o continente no Tempo do Sonho, o Tempo da Criação, cantando tudo o que viam pela frente e, assim, dando existência ao mundo por meio do canto”, um canto passado de pai para filho por gerações.
Esses mitos nos dizem que a imaginação cria o mundo, ou seja, é a nossa imaginação que cria a nós mesmos. Digo isso pensando assim: o mundo existe para nós quando podemos pensar nele, quando podemos recriar esse mundo em nossas mentes. Se não percebemos, não pensamos nem entendemos o mundo, ele na prática não existe para nós. A existência de algo precisa ser reconhecida e admitida por nós para poder existir para nós. Os símbolos possibilitam isso porque servem para representar o mundo em nossas mentes; e os símbolos não podem existir sem nossa faculdade de imaginar que eles representam algo.
É assim que a imaginação é a substância dos sonhos, da criação musical e poética. É a partir dela que se faz labuta do compositor, do letrista, do escritor e do poeta. Quem imagina, forma, não apenas se conforma, pois o imaginador não recebe um mundo já dado; ele sabe que tem que fazer sua parte na criação desse mundo e é assim que ele se cria junto com o mundo.
O músico, escritor, o poeta são crianças espantadas, experimentando o gosto da vida com as bocas abertas em eterno maravilhamento. Mesmo a dor que vem de um mundo já criado vira matéria de criação; ela se transforma em denúncia, em repúdio, em compaixão para que algo novo surja dela e recrie a humanidade em cada um de nós no próprio ato de se imaginar.
A imaginação não cria do nada; todo início tem um pouco de recordação. A cultura onde se insere a mente criativa, a imaginação musical ou poética, essa cultura é feita de acúmulos, camadas superpostas, resquícios de memórias e rastros de outras criações. Tudo isso vira matéria para a imaginação criadora, que usa uma técnica de bricolagem para rearranjar elementos, justapondo coisas arcaicas com atuais, dando-lhes novas posições e outras funcionalidades. O legado coletivo cresce com cada inflexão singular.
Legados, experiências, imaginação e singularidades são as substâncias das músicas e suas letras. Também são a substância dos poemas, que não nascem como letras de música, mesmo que depois possam ser musicados. Além disso, toda criação tem também enormes doses de imponderabilidade, incerteza e caos. A obra artística traz seus limites e superações ou vira arte quando justamente reconhece que não é possível ir mais além. Em qualquer dos casos, tudo pode terminar em samba. Em repente. Em chorinho. Em versos. Para quem lê um poema ou escuta uma música sem saber direito como se faz a mágica, sempre vai restar o luxuoso conforto do encantamento.
