Myriam Coeli

Meu reencontro com Myriam Coeli

Luciano Capistrano21 de outubro de 2019Literatura, Opinião, Artigos e Crônicas Image

Acho que foi no dia 05 de junho de 2007, quando entrei pela primeira vez na Escola Estadual Myriam Coeli, localizada no Conjunto Nova Natal, bairro Lagoa Azul, Zona Norte de Natal. De início me deparei com uma pintura na entrada da Diretoria, uma linda imagem da patrona da escola, arte do artista, na época vice-diretor, Edson Moura. Estampada na parede, o cartão de visita da escola, a poetisa, com seu lindo semblante a me convidar a reencontrar sua poesia.

Professor de história e amante das letras potiguares, herdeiro dos hábitos de papai, foi em sua biblioteca meu primeiro encontro com a poetisa de ‘Vivência Sobre Vivência’. Visitei a biblioteca da escola em busca de Myriam Coeli e, minha surpresa, nada encontrei. Os livros voaram, criaram asas e voaram… Encontrei, enfim, com a professora de Português Lurdimar, o ‘Inventário’. Era o Projeto Chá Com Arte, sobre a coordenação da professora Sandra, e eu pensei em apresentar a patrona da escola, então escolhi Busca – poesia dedicada a Celso da Silveira seu amor -, para realizar uma Intervenção Poética:

Busca

Deus é a meta.
Eu O procuro
Em vias tortas
E em metáforas.
Sou caliça,
Fel, mordaça,
Circo e faca.

[…]

Deus é a face,
Eu, o disfarce.

[…]

Não tem como ficar indiferente a poesia de Myriam Coeli. Seus versos traduzem o ser humano nas suas dimensões diversas. Me apaixonei. Segui os caminhos dos sebos catando livros, no mundo dos ácaros para encontrar sua obra poética. Enfim, numa manhã de sábado, caminhando pela Cidade Alta, ao lado dos professores Otoniel e Henrique, fico frente a frente com ‘Cantiga de Amigo’, livro editado em 1981 pela CLIMA, do saudoso livreiro Carlos Lima. Nem penso duas vezes, tinha três volumes, pego todos. Versos cantam a amizade:

[…]

De minha torre mui alta
Com canções junquei estradas
Sejam albas ou serenas,
Trovares, chantos, baladas.
Meu amigo
Por quem morro.

Da torre descendo a seta,
De olhar firme no olhar.
Descerei, serei fanfarra
E viola de trovar.
Meu amigo
Por quem vivo.

[…]

Jornalista, professora, poetisa, inquieta, marcou sua passagem no plano terreno. Mulher, esposa, mãe, deixou para nós um grande legado literário. Mesmo não tendo o privilégio de seu convívio a conhecemos através de sua escrita. Uma mulher a frente de seu tempo. Na década de 1950, abriu as redações dos jornais diários para o sexo feminino, sendo inclusive a primeira mulher a ser encontrada nas redações no período noturno.

Numa época em que Natal se expandia para além do Loteamento Reforma, hoje bairro Felipe Camarão; o Alecrim, bairro centenário, consolidava-se como lugar de morada e comércio, nas palavras do professor Itamar de Sousa, ‘O Cais do Sertão’; a espoliação imobiliária chegava às portas do cemitério da cidade, como alertava nosso historiador Luis da Câmara Cascudo; a imprensa diária publicava crônicas de Myriam Coeli para o deleite dos natalenses.

Myriam Coeli, dona de uma escrita tradutora do ser humano.

Manoel Onofre, em ‘Literatura e Província’, nos informa: “Não temos receio de afirmar: – Myriam Coeli é um dos mais altos valores da Literatura brasileira contemporânea. Juntamente com Zila Mamede representa, hoje, a melhor contribuição do nosso Estado, em termos de poesia de mulher, para as letras nacionais.” Concordo com o mestre Onofre, homem das letras que se fez desembargador. Myriam Coeli é sim um valioso expoente das letras potiguares.

A filha do Amazonas, potiguar de coração, Myriam Coeli nos presenteou com as seguintes obras: ‘Imagem Virtual’ (1961); ‘Vivência sobre vivência’ (1980); ‘Cantigas de amigo’ (1980); ‘Inventário’ (1981) e o livro publicado pós morte, ‘Da boca do lixo à construção servil: o livro do povo’ (1992).

Caro leitor, este é o convite e a provocação, deste artigo, para não se guardar, somente, no baú da memória, as belas letras de Myriam. A poetisa de São Jose de Mipibu, necessita ser revivida nas escolas, nas salas de aulas, fazendo de sua palavra o caminho das letras das novas gerações.

Uma geração que tem o direito de conhecer a Ode à Palavra: “A palavra trabalha com hábeis mãos. Dela me sirvo à mesa com esses poucos gestos que saciam meus segredos. Por menos que me baste, a ela servindo estou e lhe ofereço o disfarce da ordem e da compreensão. Através dela me armo e soletro caminhos incertos com seus ardis tão certos. Mas, animal, dela sou presa e me resumo na proeza de lhe dar formas libertas – pois meu ofício é dar à palavra, invenção.”

Num país sem memória, seria interessante o desenvolvimento de projetos incentivadores de leituras potiguares. Projeto pioneiro, que vivi como professor, na cidade de Parnamirim, “O Escritor Potiguar Vai à Escola Pública”, meu segundo encontro com Myriam Coeli, experiência exitosa, estudantes, professores, lendo e dialogando com escritores norte-rio-grandenses. Na Escola Municipal Manoel Ferreira, vivemos e convivemos com Auta de Souza, Ferreira Itajubá, Zila Mamede, Myriam Coeli, Francisco Ivan, Pablo Capistrano e tantos outros, antes, ilustres desconhecidos.

Enfim, amigo leitor, ao lembrar Myriam Coeli descobrimos o quanto estão distantes de nossas salas de aulas os escritores potiguares. Esperamos que a Secretaria de Cultura, a Fundação José Augusto, a Secretaria de Educação e outros órgãos públicos e organizações da sociedade civil, façam uma rede de promoção das letras potiguares. Acredito ser possível reviver, nos diversos municípios potiguares, a experiência do projeto: ‘O Escritor Potiguar Vai à Escola Pública’. Iniciativas alvissareiras já existem, precisam deixar de ser projetos para se transformarem em Políticas Públicas.

Assim foi meu reencontro com Myriam Coeli e hoje guardo na minha estante, ‘Cantigas de Amigo’, ‘Inventário’ e ‘Da Boca do Lixo á Construção Servil’. Obrigado Myriam Coeli, para além de ser patrona do meu lugar de trabalho, és poesia em nossa trajetória de amante das letras.

Sobre o autor

Luciano Capistrano

Amante da história urbana de Natal. Uma das alegrias é as caminhadas “dialogadas” entre ruas e becos da cidade de Câmara Cascudo. Atualmente, além da História vivo entre meus pecados poéticos e a fotografia.

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