O meu nariz torto e os limites da comunicação humana

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Em todas as fases da minha vida, ouvi de pessoas próximas que eu parecia desinteressada: nelas, na nossa relação, no que estávamos fazendo, no que estávamos conversando; seja o que for, eu não estava gostando. Independente de eu dizer “gostei disso”, de eu dizer “gosto de você”, ou qualquer coisa assim, eu ainda recebia a mesma avaliação. Eu não demonstrava que gostava de alguém, eu parecia grosseira e rude ao falar, ou na forma de me comportar. Eu tentei mudar meu comportamento a partir do que as pessoas diziam, me vulnerabilizei deixando pessoas manipuladoras me dizerem o que fazer, como também tive bons amigos que foram pacientes e tentaram entender; mas eu continuava a parecer “desinteressada” ou “grosseira”.

Apenas com 29 anos, depois de tratamento psicológico e psiquiátrico, recebi o diagnóstico de Síndrome de Asperger. A partir daí eu entendi que minha forma de comunicação é direta, ou seja, eu falo o que quero dizer; enquanto a forma de comunicação de pessoas não-autistas é indireta e exige que se entenda entrelinhas; o que significa que essas pessoas também tentam enxergar entrelinhas no que eu falo, apesar de esses subtextos não existirem.

Bem, isso explica muita coisa. Entretanto, ainda passei anos tentando preencher uma lacuna de entendimento, porque eu ainda escutava variações de “você não está gostando daqui, né?”. Foi então que, com 34 anos, descobri outro elemento em mim que eu, até então, desconhecia.

Eu não sabia de nada e, nada sabendo, pensava ser um Moscarda de nariz reto, quando na verdade eu era para todo mundo um Moscarda de nariz torto.¹

Em seu último livro¹, o autor italiano Pirandello conta a história de um homem que, ao ouvir um comentário da esposa sobre a aparência de seu nariz, descende em uma espiral de loucura, pois esse comentário o faz encarar o fato de que a imagem que os outros têm dele não é a mesma que ele tem; entre outras reflexões sobre identidade e autopercepção.

Resgatei esse romance essa semana, buscando consolo ou conselho, quando me arrebatou a descoberta deste elemento, em mim, que eu desconhecia e que explica tanto sobre os desencontros passados.

Frame: O Animal Cordial, 2017

Pois bem, eu já havia escutado que um dos aspectos da minha comunicação que é afetado pelo autismo é o tom de voz, mas eu não tinha uma compreensão clara do que isso significava. Achava, até, que não fosse algo perceptível. Entretanto, o que aconteceu essa semana foi que a profissional que estava me acompanhando parou para explicar-me o que significa ter uma voz monótona: ela declamou uma frase com entonação “normal”, e depois repetiu a mesma frase demonstrando como eu falo, sem entonação. Me acometeu um misto de terror e vergonha. Entendo Moscarda mais que nunca.

Como suportar em mim este estranho? Este estranho que eu mesmo era para mim? Como não o ver? Como não o conhecer? Como ficar para sempre condenado a levá-lo comigo, em mim, à vista dos outros e no entanto invisível para mim?¹

Esse momento de realização me assombra há muitos dias. Eu permaneço sem perceber, de maneira alguma, a entonação na voz das pessoas. Da mesma forma que me escuto, enquanto falo, e não vejo diferença alguma. Eu esperava sentir algum alívio nessa descoberta, já que ela explica tanta coisa. Entretanto, só consigo pensar nas quantas vezes me esforcei inutilmente para entender o que estava fazendo de errado, e quantas pessoas que conviveram comigo poderiam ter percebido que eu sempre falava desse jeito e me avisado, ou me aceitado.

Me vejo novamente debatendo-me com a frustração de entender que a maioria das pessoas não faz o menor esforço para entender o outro, supondo que já entenderam perfeitamente e foram entendidas, tirando, daí, todas as conclusões possíveis sobre as intenções ocultas do outro. Enquanto nós, autistas, somos taxados de não ter ‘teoria da mente’, isto é, não entender que o outro tem uma mente diferente da nossa e outro ponto de vista, o que se vê na realidade é mesmo o contrário ou, ainda, todos nós, humanos, temos essa dificuldade primordial.

Durante seu mergulho existencial na distância entre as pessoas e a desconexão intrínseca nas interações, o autor também esbarra na questão da comunicação verbal:

Usamos, eu e vocês, a mesma língua, as mesmas palavras. Mas que culpa temos, eu e vocês, se as palavras, em si, são vazias? Vazias, meus caros. E vocês as preenchem com o seu sentido, ao dizê-las a mim; e eu, ao recebê-las, inevitavelmente as preencho com o meu sentido. Pensamos que nos entendemos, mas não nos entendemos de modo nenhum.¹

Não nos entendemos. Admito que não há nada de novo nessa constatação. Mal-entendidos são a base de milhares de filmes de comédia. Kurosawa nos fez encarar que até a realidade concreta pode ser percebida de pontos de vista diferentes, em Rashomon². Técnicas de comunicação não-violenta³ são retratadas em filmes, séries e até skits de comédia, de tão populares que já se tornaram (apesar de ainda não sabermos utilizá-las).

Talvez para a maioria dos leitores aqui, isso não seja uma questão importante. Talvez não tenham sido escanteados no mercado de trabalho, sofrido bullying ou perdido amigos. Porém eu acredito que cada vez mais fica evidente o quanto esta é uma problemática urgente.

A própria teoria da Comunicação Não-violenta, como conheci a partir do livro de Rosenberg⁴, se constrói a partir do pressuposto de que o ser humano não sabe se comunicar, e o fato de que a maioria das pessoas fala por meio de indiretas, e tira conclusões precipitadas do que escutam dos outros, preenchendo lacunas de entendimento com deduções sobre as intenções das pessoas; ao mesmo tempo que não sabem, também, conhecer e expressar as próprias necessidades.

Temos lidado tanto com o drama de dialogar num momento de polarização global, em que deixar de conviver com parentes e cancelar celebridades ou empresas parece ser a única resolução possível.

Imagina se conseguíssemos conversar?

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¹ Um, Nenhum e Cem Mil, livro de Luigi Pirandello, 1926

² Rashômon, filme de Akira Kurosawa, 1950.

³ Técnicas que orientam casais a dialogarem expressando suas necessidades e fazendo pedidos, ao invés de acusar/atacar o outro: “comece a frase com ‘eu sinto que’…”.

⁴ Comunicação Não-Violenta: Técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais, livro de Marshal B. Rosenberg, 2006.

Paula Pardillos

Paula Pardillos

Escritora e crítica, membra da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Norte. É também roteirista e diretora de cinema, com enfoque no gênero terror.

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