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A literatura marginal de José Bezerra Gomes

Ficcionista, poeta e ensaísta, José Bezerra Gomes (1911-1982) alcança os seus melhores momentos nesse que é o menos conhecido dos seus romances – “Por que não se casa, doutor?” (1). Sem dúvidas, trata-se de uma pequena obra-prima.

O enredo, muito simples, tchecoviano, não tem lances dramáticos, não tem suspense, nada de artifícios para impressionar o leitor; limita-se apenas a narrar, como num diário íntimo, fatos cotidianos, corriqueiros.

A ação romanesca transcorre em Belo Horizonte, por volta da terceira década do século XX. Flávio, principal protagonista e narrador, jovem recém-formado em Direito, não se anima a seguir a carreira jurídica, conforma-se com o emprego de amanuense em uma repartição pública.

Tímido, sem espírito de iniciativa, anseia por um amor, que lhe dê sentido à vida, mas vive a perambular pelos prostíbulos da cidade, gastando o seu parco salário em rodadas de chope, quando não está na pensão barata, onde mora, obrigado a conviver com uns tipos vulgares, pequeno-burgueses sem horizontes, que ele descreve com muito senso crítico.

“-Por que não se casa, doutor?” – costuma perguntar-lhe a dona da pensão, na esperança de lhe dar, em casamento, sua filha já um tanto “passada”. E por aí vai a narrativa, numa prosa fluente e clara, a linguagem calcada no linguajar nordestino, com a marca de um autêntico estilista.

Obra digna de situar-se entre os bons romances brasileiros da modernidade, “Porque não se casa, doutor?” ficou esquecido na modorrenta província literária, longe dos grandes polos culturais. Uma pena.

Os Brutos

Afora o livro referido, José Bezerra Gomes tentou construir uma trilogia ficcional, cujo primeiro volume – “Os Brutos” – saiu em 1938, com o selo Irmãos Pongetti Editores, do Rio de Janeiro (2).

os-brutosRomance ambientado no interior do Rio Grande do Norte, “Os Brutos” insere-se no Regionalismo Nordestino de 30, embora não seja sequer mencionado pelos críticos e pesquisadores que estudam esse movimento literário a nível nacional.

Com a pequena saga de “Os Brutos”, Bezerra Gomes pretendia iniciar o “Ciclo do Algodão”, a exemplo do que José Lins do Rego fizera em relação ao mundo dos engenhos de açúcar.

Lamentavelmente, seu projeto literário não se concretizou. A doença cortou a carreira de um promissor ficcionista, que ainda nos legou, além de vários contos, a novela “A Porta e o Vento” (3), obra fragmentária, que deixa a desejar, parecendo inacabada.

José Bezerra Gomes contista

Vale dizer, ainda sobre o ficcionista, que o seu conto “João Arruma as Malas”, publicado, inicialmente, no Jornal do Commércio, do Recife, 1941, foi escolhido por Nei Leandro de Castro para a antologia “Contistas Norte-rio-grandenses” (1966).

José Bezerra Gomes escreveu contos, publicados nos jornais de Natal, Recife, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, “que dariam um volume” – afirma Nei Leandro de Castro, em nota bibliográfica. Infelizmente, tais contos ainda estão dispersos,

José Bezerra Gomes ensaísta

jose_bezerra_gomes-escritrorNo campo do ensaio, José Bezerra Gomes é autor de dois livros: um elogiado estudo sobre a vida e a obra do maior poeta romântico norte-rio-grandense – “Retrato de Ferreira Itajubá” – (4) e uma monografia de interesse histórico e geográfico, trabalho de menor importância em sua obra, começado em 1951 e só terminado em 1975 – “Sinopse do Município de Currais Novos” – (5), e um livreto -“Teatro de João Redondo” (6) ,extrato, pelo autor, de sua tese “O Brinquedo de João Redondo”, aprovada pelo I Congresso Brasileiro de Folclore (Rio de daneiro,1951).

O primeiro destes trabalhos, lançado em 1944, deveria ser reeditado, pois, embora sucinto, constitui-se em um dos melhores estudos, senão o melhor, sobre a vida e a obra de Itajubá.

José Bezerra Gomes poeta

Poeta, redescoberto na década de 1970, José Bezerra Gomes vem despertando crescente interesse, especialmente depois que as vanguardas mostraram afinidades com ele.

Parece-me que a simpatia que lhe dedicam esses movimentos antiliterários provém do que Luís Carlos Guimarães denominou de “anti-verso”, na introdução à “Antologia Poética” (7) do bardo currais-novense, seu conterrâneo, por sinal.

Bezerra Gomes desbasta de tal maneira o verso que, em sua obsessiva concisão, vai além do haicai. Tem poemas de uma só palavra: Quem assim prescinde das opulências do Verbo, não poderia deixar de agradar aos que renegam a palavra fluente, em especial os concretistas e o pessoal do poema-processo. Daí a reabilitação, que se fez, desse modernista não histórico.

Mas, à parte esses aspectos formais, o que importa, sobretudo, é a essência poética, valor intemporal – o apelo telúrico de poemas como “Mealheiro” e “O Cântico da Terra”; a indagação existencial presente em quase tudo; o senso profundo de humanidade.

Biografia

José Bezerra Gomes nasceu no sítio Brejuí, município de Currais Novos (RN), a 9 de março de 1911. Pertencente à tradicional família, seu pai, Napoleão Bezerra de Araújo Galvão, era filho do Coronel José Bezerra de Araújo Galvão e cunhado do Desembargador Tomaz Salustino; sua mãe, D. Veneranda Bezerra de Melo, filha do Coronel Luiz Gomes de Melo Lula e D. Maria Idalina da Rocha.

Gomes, como era chamado em família, viveu a sua infância no sertão do Seridó, sua terra-berço, “cenário e drama de toda sua criação literária” (8).

Fez o curso primário no Grupo Escolar Capitão-mor Galvão, em Currais Novos, e o ginasial de madureza no Atheneu Norte-rio-grandense, Natal.

Bacharelou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais, tendo colado grau no dia 7 de Setembro de 1936. Não sei por que motivo foi estudar em Minas, quando, naquela época, era a Faculdade de Direito do Recife a grande atração para os jovens nordestinos com aspirações ao bacharelato.

Dr. Gomes não quis seguir a carreira jurídica. Embora inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil, quase não exerceu a advocacia. Há notícia de que viajou, por duas vezes, a Portugal, na defesa de uma causa.

Voltando a morar em Currais Novos (1941), fez uma incursão pela política partidária. Tinha, diga-se de passagem, ideias socialistas. Eleito vereador à Câmara Municipal de Currais Novos, apresentou projeto de lei, instituindo a Diretoria de Documentação e Cultura da Prefeitura de Currais Novos, “com a função de órgão destinado a zelar pelo patrimônio histórico e cultural do Município”. (9). Foi o primeiro diretor e organizador do referido órgão.

Ainda em Currais Novos, Dr. Gomes participou da elaboração do estatuto do Centro Esportivo Currais-Novense (Aero-clube de Currais Novos) e foi seu diretor cultural durante dez anos (1941/51).

Não consegui apurar em que ano veio para Natal. Viveu em companhia da mãe, numa casa modesta da rua dos Pajeús, no bairro do Alecrim.

Era frequentador habitual do Café São Luiz, no centro da cidade. Vi-o, muitas vezes, ali. Bati ligeiros papos com ele. Achava-o excêntrico. Parece que estou vendo: estatura mediana, troncudo, cabeça arredondada, imensa careca, vestia sempre um paletó surrado. Tinha nos lábios finos, permanentemente, um meio sorriso irônico. Os olhos, muito pequenos, soltavam chispas. O modo de andar chamava atenção. Andar de pato…

Ofereceu-me, certa vez, um exemplar do seu “Retrato de Ferreira Itajubá”, verdadeira raridade bibliográfica. Pela data da dedicatória verifico que ele tinha, então, 57 anos de idade. Aparentava mais.

Morreu em Natal, no dia 26 de maio de 1982.

Em homenagem ao poeta e escritor, instituiu-se, em Currais Novos, pela Lei Municipal nº 1191, de 1990, a Fundação Cultural José Bezerra Gomes, com sede naquela cidade, instalada a 17 de março de 1993.

Grande escritor, ainda sem o devido reconhecimento, dele se poderia dizer o que disse Andrade Muricy sobre Auta de Souza: “Eminente e humilde.”


NOTAS

  1. Natal: Edição Surto,1944. 2a. ed. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti Editores,1945. 3ª. ed. (in “Obras Completas-Romances”), Natal: Editora da. UFRN,1998.
  2. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti Editores,1938, 2a. ed. Natal: Editora da UFRN, 1981. 3ª. ed. (in “Obras Completas-Romances”), Natal: Editora da UFRN,1998.
  3. Natal: Fundação José Augusto, 1974. 2ª. ed. (in “Obras Completas-Romances”), Natal: Editora da UFRN, 1998.
  4. Natal: Edição Surto,1944.
  5. Natal: sem indicação de editora,1975.
  6. Natal: Fundação Jose Augusto, 1975.
  7. Natal: Fundação José Augusto, 1974.
  8. Nota biográfica in “Teatro de João Redondo”.
  9. José Bezerra Gomes. “Teatro de João Redondo. Natal: Fundação José Augusto, 1975, p. 21.

Sobre o autor

Manoel Onofre Jr.

Desembargador aposentado, pesquisador e escritor. Autor de “Chão dos Simples”, “Ficcionistas Potiguares”, “Contistas Potiguares” e outros livros. Ocupa a cadeira nº 5 da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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