Dois livros reveladores da literatura potiguar

Em nossa literatura, como, aliás, em muitas outras, certos livros distinguem-se não apenas pelo seu valor intrínseco, mas também pela sua importância histórica, seja porque constituem verdadeiros marcos, seja porque de uma forma ou de outra mudaram o curso dos acontecimentos, fizeram surgir coisas novas.

É o caso, por exemplo, de “Dois Poetas do Nordeste”, de Veríssimo de Melo (Rio de Janeiro: Ministério de Educação e Cultura – Serviço de Documentação, 1964). A este pequeno/grande livro deve-se a redescoberta de Jorge Fernandes, modernista pioneiro no Rio Grande do Norte.

Com efeito, antes da publicação de “Dois Poetas…” pouco se falava e menos se escrevia sobre o poeta, mas depois foram surgindo cada vez mais estudos sobre ele, de modo que, hoje, é um dos autores norte-rio-grandenses mais prestigiosos. Numerosos ensaios, artigos, teses e dissertações acadêmicas têm enriquecido a bibliografia a respeito da sua única obra poética, “Livro de Poemas de Jorge Fernandes” (Natal: Tipografia de “A Imprensa”, 1927).

No meu livro, “Salvados – Livros e Autores Norte-rio-grandenses” (3ª ed. – Natal: Offset Editora, 2014) especifico a referida bibliografia, da qual se destacam três livros: “O Lirismo nos Quintais Pobres”, de Humberto Hermenegildo de Araújo (Natal: FJA, 1997), “Leitura de Jorge Fernandes”, de Francisco das Chagas Pereira (Natal: FJA, 1985) e “Jorge Fernandes, o Viajante do Tempo Modernista”, de Maria Lúcia de Amorim Garcia (Natal: RN Econômico, 2009).

Jorge Fernandes, como se vê, está bem estudado. Merecidamente. Mas, convém ressaltar que, não fora o estudo precursor de autoria de Veríssimo, é bem provável que ele permanecesse por bastante tempo, desconhecido.

“Dois Poetas do Nordeste” foi editado pelo MEC, integrando uma serie de notáveis publicações, com distribuição em todo o território nacional, o que diz da sua relevância. Ao que me consta não teve reedição.

Jorge Fernandes e Ascenso Ferreira (o outro poeta focado) identificam-se, além da própria nodestinidade, pelo engajamento no Movimento Modernista, bem como pela linguagem de natureza oral; pelo sentido plástico e cromático dos seus versos; pelo humor e outras características de suas obras. Veríssimo de Melo, com o seu estilo ágil e leve, estuda-os de forma objetiva e dá depoimento pessoal, amigo que foi dos dois. Também transcreve vários poemas, inclusive, de Jorge o famoso “Rede”, antevisão do Concretismo.

Em 1970, Veríssimo organizou a segunda edição do “Livro de Poemas”, acrescentando algumas poesias inéditas e outras coletadas em coleções de jornais e revistas (Natal: FJA). Além da introdução, pelo autor, valoriza essa reedição um texto de Luís da Câmara Cascudo, amigo e grande incentivador de Jorge Fernandes.

AFONSO BEZERRA

Tão significativo quanto o poeta Jorge Fernandes, para as nossas letras, é o escritor Afonso Bezerra (1907-1930).

Em 1967, Manoel Rodrigues de Melo reuniu toda a sua obra em um volume sob o título “Ensaios, Contos e Crônicas”, acrescido de introdução e notas (Rio de Janeiro: Editora Pongetti). Admirável pesquisa bibibliográfica e crítica, essa, que se constitui em uma das melhores contribuições ao estudo da literatura no Rio Grande do Norte.

Afonso Bezerra tinha tudo para se tornar um escritor de renome nacional, mas infelizmente, morreu moço, sem ter tido tempo de realizar a grande obra, cujo potencial demonstrava possuir.

Dos gêneros literários por ele cultuados, foi o conto, sem dúvidas, aquele em que revelou suas melhores qualidades de artista da palavra. Imbuído de forte sentimento telúrico, compôs, com engenho e arte, pequenas histórias em que revelou flagrantes da vida do sertanejo – costumes, traços psicológicos, coisas e animais – e o fez usando do próprio linguajar matuto. Neste sentido alinhou-se junto a Hugo de Carvalho Ramos e Afonso Arinos, autores a quem muito admirava, e outros contistas regionalistas.

Como já tive oportunidade de dizer, em “Ficcionistas Potiguares”, ele foi, de certo modo, um precursor do Regionalismo Nordestino da década de 1930. Inquestionável a sua importância no contexto da literatura potiguar.

Mas, lamentavelmente, os seus contos, embutidos na referida coletânea, lado a lado com trabalhos outros menos valiosos, não tiveram o realce que bem merecem. Fazia-se necessário resgatá-los do injusto olvido mediante publicação em volume próprio com ensaio introdutório e notas.

NO RANCHO DOS BENTINHOS

Em boa hora, o escritor e pesquisador Thiago Gonzaga tomou a si esse encargo árduo, mas prazeroso, concretizando-o em livro sob o título “No Rancho dos Bentinhos e Outros Contos” (Natal: Sebo Vermelho Edições, 2014).

Thiago Gonzaga tem know-how: autor de vários trabalhos de pesquisa publicados em livro, com boa receptividade de crítica e do público, entre os quais “Presença do Negro na Literatura Potiguar & Outros Ensaios” (Natal: CJA Edições, 2014) e “Os Grãos – Ensaios sobre Literatura Potiguar Contemporânea” (Mossoró: Sarau das Letras/Natal CJA Edições, 2016).

Mas, a sua atividade intelectual não se restringe ao campo da pesquisa e do ensaio: Thiago é também contista, autor do livro “Uma Outra Estação” (Natal: CJA Edições, 2016), igualmente bem aceito, e nesta condição pôde interagir da melhor maneira com a obra ficcional de Afonso Bezerra.

Não tenho dúvida em afirmar que “No Rancho dos Bentinhos”, deverá ter, em relação à obra ficcional de Afonso Bezerra, o mesmo significado histórico que tem “Dois Poetas do Nordeste”, em relação ao “Livro de Poemas de Jorge Fernandes”.

Sobre o autor

Manoel Onofre Jr.

Desembargador aposentado, pesquisador e escritor. Autor de “Chão dos Simples”, “Ficcionistas Potiguares”, “Contistas Potiguares” e outros livros. Ocupa a cadeira nº 5 da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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