jeovania p

Na cama com Jeovânia P.

Sérgio Vilar13 de maio de 2019Agenda, Poesia, Image

Jeovânia P. estará nesta próxima sexta-feira lançando seu novo livro ‘Poeticamente entre Versos & Bocas’ no Bardallos Comida e Arte às 19h30.

De cá, lembro de poucos poetas potiguares com trabalhos calcados e consistentes na poesia erótica. Nei Leandro… Acho que Cláudia Magalhães publicou um livro. Não lembro de outros.

O poeta e estudioso de filosofia, Cezar Sturba, resenhou este livro, com o título acima, e publicamos abaixo suas impressões e já alguns poemas de Jeovânia P.:

Por Cesar Sturba

Viver é um atrevimento! Aos heróis atrevidos resta o risco ou o gozo – quiçá ambos. O mundo moderno está repleto de maneiras para um herói se atrever. Muito mais que habitar heroicamente, porém, habita-se eroticamente o mundo. Por isso há aqueles (ou aquelas) que flertam com os limites do libidinoso, do sedicioso. Mas essa não é uma tarefa fácil, pois ao invés de carros voadores os novos tempos proporcionaram às voltas de um moralismo tacanho contaminando de hipocrisia a cultura brasileira. O cidadão comum saliva pelas gostosas seminuas no horário nobre da TV e agita-se com a sambista em pêlo nos desfiles da Festa da Carne. Porém, ele levanta bandeiras morais ao mesmo tempo em que levanta seu pau para a bundalização da mulher. Para o público, esse paladino da moral é um defensor da família; para sua família, em seu íntimo, torna-se um ogro medieval. Nesse terreno a coerência é planta estéril; a hipocrisia, lugar comum daqueles que não se atrevem.

Jeovânia P., no entanto, concebe uma obra que morde. Ela mete até o talo seu falo negro de mulher! Nesse “Poeticamente Entre Versos e Bocas” a atre-vida consegue habitar o mundo heroica, erótica e poeticamente! Um acinte anti-conservador que deve incomodar aqueles que transam com uma toalhinha higiênica ao lado da cama. A autora parte do coloquial para o… coloquial, isto é, o trabalho todo apresenta um trânsito dentro de uma mesma acomodação de linguagem. Como resultado temos naturalidade, fluidez, conforto.

Trata-se da inconfundível letra da moça já verificada em outra obra, “Palavras poéticas”, onde a autora discorre sobre temas cotidianos dentro de uma linguagem cotidiana que ganha aprofundamento nas reflexões que abordam o amor, a morte e a existência. Então, mesmo num trabalho de poesia erótica Jeovânia enriquece o tema com ares de uma cronista safada em “Chupada”:

(…)A língua?
Lambe a cabeça
cada gota daquela baba
e chupa-o inteiro
Gulosa
repleta de desejo
permanece chupando
mas
quer mesmo é comer
Um pau gostoso assim

Como é próprio da leveza coloquial os poemas se apoiam mais no conteúdo do que na forma. Existe uma sacada de que, na verdade, a felação, segundo a plástica do movimento, é um ato de comer que nunca come o pênis. Ou, mesmo se pensarmos que ‘comer’ signifique uma forma de satisfação exagerada, porém verdadeira com o ato, o texto termina de uma maneira que escapa de um final previsível.

Nesse momento nos damos conta de que o trabalho que você tem em mãos coloca implicitamente uma analogia muito interessante. Ora, a pornografia explicita o que o erotismo cobre em véus. Deveria da mesma forma, a literatura explicitar ou apenas criar uma atmosfera para que o leitor respire a arte final da criação? Jeovânia abre essas duas pernas e explicita das duas formas; hora com poemas e títulos objetivos (a citar o próprio nome da obra), hora com textos pornográficos como em “Plena”:

Sua rola na minha boceta
Tampa
Encaixe simétrico
Adentrando o mais profundo Eu
(…)
Todas essas portas de ser abertas
Arranhando a liberdade do dar-se
Abertamente de quatro
Sendo todo sem sobra

Ou em outro texto meta-pornográfico. A autora escolhe a palavra “Coração” muito mais do que sua função semântica no texto. Tratar-se de conspurcar a imagem romântica que o órgão carrega na seara dos textos românticos:

(…)
o coração suga uma rola grande
grossa
majestosa
o coração chupa
aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
nem taí pras batidas
só quer mesmo é chupar
se estremece em meio à melanina
troca sangue por gala
suas veias possuem esse líquido branco pastoso
com gosto de água sanitária

Mas o lirismo não é negligenciado. O poema “Desejo” parece combater a vulgaridade inerente ao pornô que permeia a obra. Tal “combate”, na verdade nos lembra da máxima do filme Lua de fel, de Roman Polanski: “não existe promiscuidade nos amores verdadeiros”. A saber, não há vulgaridade entre amantes reais. Vale a pena transcrever o poema na íntegra:

Quero o toque das tuas mãos
Suave
Deslizando
Sobre meu corpo
Como quem caminha
Delicadamente
Para o amor

Assim como
Teus lábios
Macios
Sobre os meus
Sedentos

Em um deserto
Achar-me contigo
Em brasas

E fazer chover
Nosso suor
Pelas areias do deserto
Criando rios de amor fecundo

Para completar o trânsito entre vários cenários nos arredores do tema erótico/pornô não podemos nos esquecer da leveza do humor. Na lúdica do cômico a sátira passeia como protagonista, como bem nos ensina Gregório de Matos. Entre o sacro e o profano os caralhos angelicais aparecem como avatares das divindades:

Abram-se crateras na terra
Lateras no céu
Fendas no universo
Que vazem anjos santos
Para um imenso caldeirão
Para serem todos recebidos
Por imensos caralhos angelicais

Ou, para estilhaçar de vez, “Libertina”:
Desce macio e reanima
Sua pomba no meu cú

(!) (Kkkkkkkkkkkkkkk)

Por fim, uma seringueira é uma árvore enorme que ocupa um grande espaço no campo de visão. Tal como essa natureza tamanha é Jeovânia: pessoa frondosa, afrontosa cuja risada gostosa capota sem freios. Por isso, por ser sensível à linguagem da natureza, pôde compor um livro corajoso e atraente sobre o primitivo do amor. A fala do artesão sobre seu trabalho é sempre mais respeitada depois de uma mostra do seu artefato. Logo, o artefato é a garantia da fala sobre o ofício. Como fica então escrever bem e foder bem? Jeovânia P. nos diz com todas as tetas que os órgãos sexuais são os instrumentos musicais mais deliciosos de tocar. Nos diz que todos nós somos “músculos ambulantes que gozam”. Atreva-se a abrir este livro.

Sobre o autor

Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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