Os grandes amores. Ou quase

Croniketa da Burakera #22, por Ruben G Nunes

Grandes Amores são os amores impossíveis. Que só existem na sua impossibilidade. Que se alimentam de sua própria interdição. Que nunca se consomem no tempo e nas distâncias finitas ou infinitas.

Ou quase.

Nem fazem pit-stop num final feliz ou infeliz. Como os amores comuns das novelas. Que são. Ou não são. E tácabado.

Grandes Amores são-e-não-são num rôlo só. E tamusconversados.

Não são portanto, os Grandes Amores, do mundo das possibilidades comuns. Mas sobrevoam e mergulham no mundo do absoluto e do infinito. Mundo surreal, cativo em sua própria livre infinidade de se reinventar.  E de um nunca chegar nem acabar

Surfam pois, os Grandes Amores, como num oceano sem margens nem praias coalhado das loucas marés das paixões, num vai-e-vem-de-si alucinógeno…

São, por isso mesmo – os Grandes Amores – pulsações da loucura. E do absurdo que habitam as profundezas infinitérrimas da natureza humana e da VidaViva.

Uma talvez herança dos deuses-uivantes, delirando-se-coçando, em sua eterna solidão infinita. Em suas amorações-e-desamorações. Em suas divinas danças e risos. Em suas teofanias e epifanias. Em suas numinosas fúrias, estrugindo-trollando com suas criações e recriações… através os silentes mistérios do infinitaço.

Tudo isso, essas todas criações-re-criações dos deuses, será pra quebrar o eterno tédio cósmico da solidão-sem-fim – será? Ou quase?

Será então o Amor, tão só uma gargalhada, ou um suspiro, ou um bufar de gozo e solidão dos deuses? Ou quase?

Ou quem sabe sejam – os Grandes Amores – pelo menos, herança viciosa dos antigos deuses gregos. Que não só seduziam as humanas boazudas. Mas que também zoavam-castigavam com os humanos.

Como fizeram com Sísifo, rei de Corinto e sutil mestre da esperteza. Que certa vez enganou até a Morte, enviada pelos deuses, acorrentando-a que nem um cachorrinho.

sísifoDaí, Sísifo, foi condenado a subir-descer eternamente, alta montanha, empurrando pesada pedrona até o topo. Mas lá chegando a pedrona caía sempre. Enquanto os deuses gargalhavam da inutilidade de todo trabalho humano. Vingancinhas da poderosa ditadura divina, sô!

É isso, marujo-velho… Os Grandes Desamores, seus castigos e vingancinhas, assim como os Grandes Amores, suas ternurinhas e alegrias são, marujo-velho, ecos bipolares da loucadançaeterna da deusalhada.

Que enredando-emplastrando nos ziriguiduns do coração de cada um, o coração de cada outro, vão desfiando encontros e desencontros nos garranchos da vidavivaProblema teu marujo, te safa!

O GrandeAmor é pulsão da energia infinita dos deuses e de seus corações infinitos. Pra quem não é do ramo divino, o pipoco é grande, mago. Que nem olho de furacão, nível 8.

O GrandeAmor é, apois, coisa dos deuses. Por isso mesmo uma louqueira numinosa-alucinógena que estrumbica nossa limitada carcaça humana.

Que te revira pelo avesso do avesso e por todos os avessos… num turbilhão que pesadoleve te faz flutuar e te esborracha… te faz gozo de carnespírito… te faz morrerviver… te faz sentir, ouvir, dançar, a música do absurdo dos deuses-uivantes…

Que vicia que te vicia… na doidura d’alma engatada n’alma, em chamegâncias que dá medo, cumpadi... como duas almas, inesperandose-gamando, crash-crush, no vendaval das paixões, agarradinhas, dançando no desespero dos enroscos e encanações o “Último tango em Paris”, de Gato Barbieri, saxe-tocando nas sombras dos tempos, dos corpos, copos, sonhos, fantasias, desejos, respirose na urgência do penúltimo bar das estrelas-perdidas-e-achadas dentro de cada nós.

Quem arrisca a  Dança do Absurdo que vem dos deuses e que pode mudar os passos do destino? Digaí, bro? E mesmo que não mude, causa sérias rachaduras na vida real. Na verdade, quem já dançou amores e paixões nunca mais é o mesmo.

Albert Camus, filósofo existencialista e romancista, no seu fantástico livreto “O Mito de Sísifo – ensaios sobre o absurdo”, de 1942 – avisa: “Viver é fazer viver o absurdo. E fazer viver o absurdo é encará-lo”.

Quem encara os abismos absurdos do Amor numa boa? Quem?

Encarar o absurdo e fazer vivê-lo em nós. Eis a essência da querência abissal dos Grandes Amores.

Encarar o absurdo, chaparia… encarar o absurdo… pupariu, é caixão, velho!

E não é disso que se trata quando dois olhares faíscam-se-grudam anunciando as loucuras dum Grande Amor?

Pois que, meu camarada, Grandes Amores são transbordamentos mágicos de absurdos e mil louqueiras. Por isso, são e não são, a um só tempo. São híbridos. Reais e surreais. Dialéticos. Estão além da história, mas são história.

São tempestades e pétalas. Tragédias e comédias. Agulhados e zen.

Liberdade, sonhos e vagabundagem, Grandes Amores, têm a ânsia das noites, das madrugadas vadias, danças, bares. E do escurinho do cinema.

Nos Grandes Amores, reverberam a beleza pungente do vôo de gaivotas riscando espaços, afetos, músicas, saudades. A magia da lua reflexa no mar. Dos enroscamentos de pele e alma. De beijos inesperados, de tirar o fôlego, junto ao mar. De encaixes carnespirituais, lentifrenéticos, além toda culpa e tempo.

Grandes Amores, dos autênticos, estão além fidelidades e infidelidades. Mesmo bandidos, nunca são reles traições. São apenas eternos-retornos dos karmas achados-e-perdidos de que é feita a VidaViva. Que ressurgem inesperados na teia de destinos e redestinos. Karmas do imponderável!

Daí que Grandes Amores são absurdamente românticos-e-amânticos. Pairam alto e cabreros sobre a rotina doméstica morgadona.

Amam a aventura de viver sempre apaixonados. E de sentir que “a coisa mais divina que há no mundo é viver cada segundo como nunca mais”, como poetiza o velho Vina, no instigante sambinha “Tomara”, de 1974, cantado na voz destino de Maria Creuza.

Mas também sonham, vez em quando, com casamentinhos cartoriais, casa, filhos, empregada, cachorro e papagaio.

Aí, já não são mais Grandes Amores do puro. Aí, já ficam embaçados em sua marca própria de Liberdade, Afeto, Loucura e Vagabundagem.

Tornam-se Grandes Amores Domésticos.

Que aos poucos viram condomínio – mais-ou-menos-conjugal, mais-ou-menos-cordial – de lazer, brigas, solidão, companheirismos, cuidadismos, “costumações” e solidões-acompanhadas. Um vamuquivamu solidário.

Grandes Amores precisam se manter quase proscritos e desesperadamente sonhadores. Precisam ser incessável turbilhonar de sonhos loucos de amorpaixão, de ternuras-sexi-selvagens, de trepações carnespirituais.

Mesmo livres, ou – quem sabe? – talvez proibidos, precisam manter sua chama de  liberdade, num quase-secretismo, numa quase-camuflagem, numa amoração de cotidiana cumplicidade.

Por serem absurdos e inesperados, são perigosamente hipnóticos. Mas fascinantes. Grandes Amores são karmas misteriosos da energiamor de que é feita a VidaViva e todas as estrelas.

E bote karmas nisso, chefia. Porrilhões de karmas. Nos encontros dos desencontros. Que se gestam em outros carnavais. Desde as galáxias-perdidas-e-achadas, até as encarnações competentes de cada um. Quero dizer: de cada nós-de-nós.

Um Grande Amor reconhece outro. Há um zignal infalível: o olho-no-olho-deslizando-estrelas. Que pulsam intensidades imprevisíveis, ternurinhas, ciuminhos, ciumãos, y loca pasión. Como aqueles desesperados bolerões das antigas.

Por isso Grandes Amorantes estão sempre em eterna santa-paz-em-guerra. Brigam na vertical. E desbrigam na horizontal. E se dão bem nos enroscadinhos encaixadinnhos.

Daí que o ponto final de um Grande Amor, meu rei, nunca é ponto final… é sempre reticências de dor, perda, falta, carência, arrêgos, esperanças, redesejos, esperas… e de eterno retôrno…

Tecido no fino fio das ilusões, delas se alimentando, e querendo mais, o Grande Amor esperneia até no desespêro de paixões, gamações e cotovelos-inchados  “por que matar esta ilusão em mim?”, como canta Altemar Dutra no bregaromantismo das musicálias de gafieira, no arrêgo nosso de cada dia.

Visíveis ou invisíveis, Grandes Amores transformam para sempre interiores e exteriores. E espalham suas vibrações em todas as frestas e espaços sociais, abalando as “normalidades-do-cotidiano”. Criando redes imponderáveis de eus-e-nós e esbagaços de redestinos.

Para o Grande Amor nunca há solução, nem fugas, nem defesas. E muito menos planilha de previsão ou horários agendados. E tudo risco pior que a Bolsa.

Viver um GrandeAmor requer coragem. Muita.

É preciso se atirar de cabeça… reservar hotel, sarapatel e lua de mel em Salvador; além de fazer promessa pra Oxumaré. E se no fim for tudo uma furada, como canta Djavan no “Samba do Grande Amor”porra, sai debaixo! – ai, então é de lascar, mano! Haja cotovêlo inchado!

Agora, se na hora do vamuvê e do olho-no-olho der tudo nos conformes das sintonias dum Grande Amor, antão mago-velho os mistérios do inesperado e do absurdo te envolvem num rodopio de furacão. Sai debaixo, maluco!

Que o mundo se revira de pernas-pro-ar num fuzuê daporra. Flores cantam. Cores espalham perfumes. E você flutua na leveza das gaivotas. O mundo dá uma paradinha e se refaz em sorrisos e beijos. Murmúrios e gritinhos. O pensar vira música. Os zôio suspira. O dizer vira poema.

Tudo inscrito indelevelmente nas páginas dos belos momentos humanos. E gravados para sempre nos livros da Biblioteca Cósmica de Borges – ab aeterna, infinita – que tudo registra.

Tudo salvado nas nuvens, ecos e back-ups das tais radiações cósmicas de fundo do universo infinitão. Que a Ciência diz existir e que portanto também deve registrar nas funduras das finas energias a Energia dos GrandesAmores esfogueando a VidaViva.

Ecos infinitórios dos Grandes Amores, velha-guarda.

Por ser coisa de deuses-uivantes encanados na solidão cósmica. Por ser o Grande Amor tem em si todas as contradições e diferenças do sim-não, e do ser-não-ser-sendo, que movem a vidaviva através os mistérios do fim-sem-fim

Sublimecanalhas, plena de sonhodesejos, e de encantoloucuras, certas declarações de amor dos Grandes Amores são pura magia.

Ou são buquês de sonhos colhidos nos acordes gamados do coração. Ou são buquês de sexos colhidos na ardência bandida dos desejos.

Sublimes ou bandidas são, porém, declarações que fluem da energiamor dentrofora de nós. Repentes d’encantos e ternurinhas antigas saindo dos nossos abismos e estrelas  .

Por exemplo, as palavras de Augusto Comte, filósofo positivista, que fremindo de emoção declara amor total a Clotilde Devaux, mulher de sua vida: “Eu a considero como minha única e verdadeira esposa não apenas futura, mas atual e eterna.”.

Imagine, amigão, a troca de energia emocional desse momento em que Clotilde recebe de Comte esse buquê de sonhos!

Também nosso Imperador D.Pedro I e Domitila de Castro Canto Melo, a divorciada Marquesa de Santos, curtiam um Grande Amor pra lá de tórrido e devastador.

Só que Pedro, que se apelidava de Demonão, era mesmo o cão-chupando-manga no quesito fidelidade. Puuuu, sai-de-baixo-my-friend, o bicho era um mulherengo daporra.

Dizem que em plena rua de Santos, não resistiu aos encantos torneados das volumosas nádegas calipígias duma bela escrava. Num acesso de imperial poder agarrou a nêga, ali mesmo na rua. Tascou-lhe um beijo surpresa. E segurando firme a blackvastabundaça, afro-descendente, deu-lhe um acocho de taradice anal aguda. Contam que levou um tremendo tabefe republicano.

Mesmo com alguns foras, Demonão sempre tentava e passava todas que podia. Inclusive a irmã de sua amada Domitila. Nessas paradas era um imperador-socialista.

Mas era também um romântico-gamadão pela Marquesa Domitila, seu Grande Amor. Enviava diariamente pra Domitilia, que ele chamava de “minha Titília”, cartas de amor inflamadas, verdadeiros buquês de sexi-amor-real, bregaromântico.

Numa dessas cartas, Pedro, o Demonão, mandava recado libidinoso: “Até à noite, que conversaremos, e nos apalparemos por dentro e por fora”.

Em outra carta para “Titília”, Demonão, declara seu Grande Amor Real valorizando o amor por devoção entre amantes, diante do burocrático amor de matrimônio da rotina do casamento: “Ontem fiz amor de matrimônio para que hoje, se mecê estiver melhor e com disposição, fazer o nosso amor por devoção“. Amor por devoção… já pensou?…

Seja como for, Grandes Amores, sejam pré, pós, ou além-chifres, possuem um perpétuo cheiro  de devoção, ternura, pecado, bandidagem, destino.

E se movem poeticantando o mantra musical do nosso sacro-poetinha Vinicius de Moraes: “que não seja eterno, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”, cantado em seu Hino Universal dos Grandes Amores:  “euseiquevouteamar”.

Na verdade, meus campanhas de fé-e-cabaré, o Homem, que é um prisioneiro desse Infinitão alucinógeno que nos cerca; que é também prisioneiro do micro-infinitinho interior e da finitude cotidiana; o Homem que, segundo Sartre, é um prisioneiro de sua própria Liberdade; o Homem é também prisioneiro dessa sublime gangorra-da-porra que é o Amor. Ou quase…

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Ruben G Nunes

Desfilósofo-romancista & croniKero

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