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FREVO: Conheça a história e os mestres do ritmo mais eletrizante do carnaval

Manoel Onofre Jr.18 de fevereiro de 2020Carnaval, Opinião, Artigos e Crônicas, , Image

“Pernambuco tem uma dança
que nenhuma terra tem”

Estes versinhos bem expressam a pernambucanidade do frevo. O legítimo, só made in Recife. Foi aí, que, no começo do século XX, ele nasceu, filho do maxixe e da habanera, segundo alguns estudiosos.

Num excelente ensaio, já clássico, Valdemar de Oliveira, estudando as fontes do mais carnavalesco dos gêneros musicais, esclarece:

“Recuando-se (…) de uma geração para outra – de pais, a avós, bisavós, trisavós, compreende-se a dificuldade em conceituar, rigorosamente, a origem do frevo, isto é, em abrir caminho na terra do Tempo para descobrir-se até onde vão suas radículas. De começo, é claro, não era maxixe, nem polca, nem quadrilha, nem dobrado ou modinha, e era tudo isso, no fim de contas, em solução perfeita.” (“Frevo, Capoeira e Passo” – 1971, pág. 33).

Música popular (mas não folclórica) e forma de dança, o frevo, talvez a mais engenhosa expressão musical brasileira, ficou meio enjeitado. Perdeu terreno para o samba e a marchinha, por causa de sua regionalidade e do seu caráter estritamente carnavalesco.  Só nos últimos anos tem obtido maior difusão nacional, e é executado com mais frequência fora dos dias de Momo. Compositores como Alceu Valença e Morais Moreira o prestigiam sempre.

Existem vários tipos de frevo, mas o genuíno é o frevo-de-rua. Fácil distingui-lo: é aquele que faz a folia “frever” na alucinação do passo. Exclusivamente instrumental, requer fanfara incrementada, num esbanjamento de metais. Essa modalidade foi eclipsada pelo frevo-canção, menos trepidante e mais romântico, que surgiu por volta de 1930 e logo passou a fazer concorrência à marchinha. É frevo cantado.

Deve-se mencionar, ainda, dentre as modalidades principais, o frevo-de-bloco, parente da marcha-rancho. Só tem graça quando executado pelos corais dos “blocos”, animação dos carnavais recifenses. Pede orquestra de pau e­ corda. Há, entretanto, uma interpretação individual muito boa, fazendo exceção à regra; é a do Hino do Batutas de São José, por Zélia Barbosa com o Quinteto Violado, gravação incluída no LP “Música Popular do Nordeste”, vol. 1, da Marcus Pereira. A  voz límpida, parecida com Nara Leão, valoriza essa belíssima composição (de autoria de João Santiago), cuja letra, apesar de tosca e ingênua, ou por isso mesmo, não poderia deixar de entrar em qualquer antologia.

Mas os mais lindos frevos-de-bloco são, sem dúvidas, Evocação nº 1, de Nelson Ferreira e a Marcha nº 1 de Vassourinhas, de Matias da Rocha. Desta os versos singelos já ganharam sabor folclórico, principalmente estes:

“Se essa rua fosse minha /eu mandava ladrilhar/com pedrinhas de brilhante /para o meu amor passar.”

Vale dizer que Vassourinhas virou frevo-de-rua, “verdadeiro hino do carnaval do Recife”.

Evocação nº 1 tem na sua crônica sentimental um fato interessante. Foi a música que José Lins do Rego, saudoso do Recife antigo, pediu para ouvir após receber a extrema­ unção. Assim diz Aldemar Paiva em nota na contracapa do LP “O Que Eu Fiz… E Você Gostou – Carnaval Cantado de Nelson Ferreira”.

Quem desconhece estes versos?

“Felinto…Pedro Salgado… /Guilherme…Fenelon … /cadê teus blocos famosos?”

Fato digno de nota, Evocação nº 1 foi talvez o único caso de sucesso estrondoso do frevo no carnaval carioca. Dominou, absoluto, em 1957.

Mestres do frevo

O escritor pernambucano Mário Melo considera José Lourenço da Silva (Zuzinha) o pai do frevo. “Foi ele quem estabeleceu a linha divisória entre o que depois passou a chamar-se frevo e a marcha-polca, com uma composição que fez época e pertencia ao repertório da minha gaitinha dos tempos acadêmicos” (Cit. por José Ramos Tinhorão – “Pequena História da Música Popular (Da Modinha à Canção de Protesto)” – 1975, pág. 141).

Dentre os compositores da pequena classe média recifense – muitos deles instrumentistas de bandas-de-música – salientaram-se outros nomes:  Levino Ferreira  (O  Último Dia), os irmãos Valença (Um Sonho Que Durou  Três Dias), etc.

Mestres, porém, existem apenas dois: Nelson Ferreira (Casá-Casá, Qual é o Tom, Come-Dorme, Pernambuco, Você é Meu) e CAPIBA (Lourenço da Fonseca Barbosa ), o primeiro talvez e mais importante, do ponto de vista só do frevo, por dominar, com a mesma maestria, todas as modalidades.

Capiba, que também é autor de canções de sucesso, notabiliza-se mais pelo frevo-canção (É de Amargar, Os Melhores Dias de Minha Vida, Quando se Vai Um Amor, E… Nada Mais, A Pisada é Essa, etc.).  Ambos não somente compõem, criam música, mas também são exímios letristas. Da verve ferreiriana sirvam de exemplo os seguintes versos:

“Dedé, Dedé/Você diz que me qué /Mas você me enganô/E deu a outro o seu amô.

“Dêstá, você, Dedé, muié marvada /Gastei meu coração só com você /Dadá, Dedé, Didí, Dodó, Dudú/Dessas muié mais neste mundo eu não quero sabê.”

(Dedé – fragmentos.  Interpretação de Claudionor Germano – LP “O Que Eu Fiz… E Você Gostou/ – Carnaval Cantado de Nelson Ferreira”).

Outra bonita letra:

“Maria, ó Maria, me responde já /Maria, onde está a minha fantasia?
(Bis)
“A minha fantasia é uma coisa louca /De um lado ela é palhaço/Do outro é Arlequim/
Metade é de seda /Metade de algodão/ Não é rica nem pobre/ Mas serve pra mim”. ”
(De “Minha Fantasia” – LP cit)

Capiba, assim como Nelson Ferreira, revela-se em sua arte um homem do povo. Nas letras de composições suas encontramos com frequência expressões do linguajar popular. Estes versos, por exemplo, em que ele faz trocadilho com a palavra farol, que significa, na gíria da época, pabulagem, mas também é o nome de um recanto de Olinda.

“Você diz que gosta de mim/Mas só pode ser brincadeira de berlinda/
Por que você mente tanto assim?/Quem vai pra farol é o bonde de Olinda.”
Outros bons momentos do Capiba letrista nestes fragmentos, aliás um tanto machistas…
“Mulher que não consente seu marido passear /E por qualquer besteira pega logo a reclamar
É bom ficar em casa pras crianças balançar /Chega pra lá, deixa o homem se virar.”
(“Deixa o Homem se Virar – Interpretação de Claudionor Germano – LP “Capiba – 25 Anos de Frevo”, 1975).

“Que é que eu vou dizer em casa /Quando chegar quarta feira de cinzas?
Que é que eu vou dizer, que é?/Com este cheirinho de mulher.”
(Que é Que Eu Vou Dizer – LP cit.)

Ressurgência do frevo – Os trios elétricos

O surgimento dos trios elétricos da Bahia, na década de 60, assinala o início de nova era para o frevo. Pequenas orquestras à base de guitarra elétrica, conduzidas em carros de som com alto-falantes superpotentes, logo tornaram-se coqueluche (vá lá o termo) nos carnavais de Salvador e, depois, de todo o Brasil. A elas deve-se o renascer do carnaval de rua.

Caetano Veloso tomou-as como tema na primeira e melhor de suas composições carnavalescas:

“Atrás do trio elétrico/Só não vai quem já morreu.”
(Carnaval de 1969. Gravações: do próprio Caetano e de Nara Leão).

O frevo é o gênero que melhor se presta para execução por aqueles conjuntos. E tem efeito eletrizante, sem trocadilho. Daí a redescoberta e o consequente prestígio junto a compositores novos.


FOTO: Sérgio Bernardo/PCR

Sobre o autor

Manoel Onofre Jr.

Desembargador aposentado, pesquisador e escritor. Autor de “Chão dos Simples”, “Ficcionistas Potiguares”, “Contistas Potiguares” e outros livros. Ocupa a cadeira nº 5 da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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