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Eudes, o gestor que recepcionou Sartre em Natal e profetizou o Beco da Lama

Manoel Onofre Jr.27 de setembro de 2019Opinião, Artigos e Crônicas, Image

Dias desses, estive me lembrando de Eudes Bezerra Galvão. Eudes foi meu colega na Faculdade de Direito; fazia parte de uma turma boa – Deífilo Gurgel, Glênio Andrade, Jarbas Martins, Ney Lopes e Pedro Simões, com quem eu tinha afinidades e maior aproximação.

Depois de formado, Eudes não seguiu carreira jurídica, preferiu exercer cargos na administração pública, inclusive o de diretor da empresa de turismo do Estado, no Governo Cortez Pereira. Deixando Natal, algum tempo depois, ele foi morar em Brasília, e terminou por se fixar em Buenos Aires, como alto funcionário do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Era uma espécie de cônsul do Rio Grande do Norte na capital da Argentina. E lá morreu, precocemente, vitimado por um infarto.

Figura humana fora de série, Eudes tinha uns modos aristocráticos, em sua nobreza santa-cruzense, e – peculiaridade interessante – gostava de cultivar amizades com personalidades importantes.

Certa vez, eu, que era repórter de “A Ordem”, fiz uma brincadeira para mexer com ele: publiquei, no jornal, uma crônica, inventando que ele fora anfitrião de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, em Natal. Pura gozação. Para escrever essa crônica inspirei-me numa outra de Carlos Drummond de Andrade, em que o poeta relata imaginária visita de Greta Garbo a Belo Horizonte.

Ontem, remexendo nos meus “alfarrábios”, encontrei o recorte da crônica, o papel já amarelado pelo tempo. Transcrevo a seguir dois trechos da mesma, a título de curiosidade:

“Tudo nasceu de uma correspondência do universitário Eudes Galvão, único natalense a manter contato intimamente transoceânico com celebridades européias e norte-americanas.

Pois bem, Eudes, numa de suas conversas epistolares com Sartre, convidou-o a vir passear na cidade dos reis, descrevendo-lhe, com força persuasiva, a tranquilidade provinciana que, se para uns é tédio, para outros significa paz de espírito.

Sartre, em resposta, mandou dizer que aguentasse a mão, e qualquer dia estaria espirrando por aqui. Mas, fez uma ressalva: ‘Desejo permanecer incógnito em sua Natal'”.

(…)

…Naquela tarde, fomos debaixo de aguaceiro ao aeroporto, com grande expectativa, receber o casal famoso.

Esperamos um bocado de tempo. Afinal abriu-se a portinhola daquele bimotor e surgiram aos nossos olhos, dois vultos – Sartre, baixinho, óculos escuros, certamente para despistar eventuais caçadores de autógrafos, ao lado de Simone de Beauvoir, esta bem mais avantajada de corpo, o qual comprimia-se num vestido amarelo com grandes flores de estampa.

Fomos às apresentações. O filósofo ligeiramente irritado com a chuva. A romancista melhor humorada. Tencionavam demorar-se quinze dias aqui em repouso bucólico.

Alcançaram realmente a pretensão.

A imprensa de Natal, com seu faro para furos, nem ao menos sonhou com a presença de tão importantes personalidades, bem ali na casa do Rio do Sol. Felizmente.”

Engraçado é que muita gente acreditou nessa história.

POTENCIAL BECO DA LAMA

Quando era Presidente da EMPROTURN, Eudes Galvão adivinhou o potencial turístico do Beco da Lama, viela escondida no centro histórico de Natal, até então considerada reduto do submundo. Propôs recuperá-la. Sua sugestão serviu de zombaria, até mesmo na imprensa. Lembro-me que Eudes chegou a ser ridicularizado, publicamente. Hoje, o Beco da Lama virou atração turística, todo adornado com painéis do melhor grafite-arte. O mundo dá muitas voltas, como diz a sabedoria popular.

DE UM QUARTEIRÃO DA MEMÓRIA

Tenho em meu arquivo todas as cartas que me foram enviadas por Eudes Galvão. De uma delas pinço este fragmento, prova de que Eudes, embora não tenha publicado nada, sabia escrever com elegância e senso de humor:

“Fico aguardando, com entusiasmo, o seu livro. Assim – verdadeiramente – como esperei os anteriores. Até porque serei o seu biógrafo. As velhas cartas seguem, implacáveis, e guardadas, como sói acontecer, num velho baú, amarelecendo ali, caladas, na umidade das margens do rio Trairí.

Obrigado pela carta. Agora raras e curtas. Assim mesmo valem a pena.

Você é uma dessas pessoas que povoaram uma quadra da minha vida, da maneira mais gratificante possível. Devo-lhe isso. Uma forma de pagar (e nunca liquido o débito) é dedicando-lhe o melhor de minha amizade e com muito apreço,

Eudes”

Sobre o autor

Manoel Onofre Jr.

Desembargador aposentado, pesquisador e escritor. Autor de “Chão dos Simples”, “Ficcionistas Potiguares”, “Contistas Potiguares” e outros livros. Ocupa a cadeira nº 5 da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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