Entrevista com Nivaldete Ferreira: “Sou o que sou e o que não sou”

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Nivaldete Ferreira faleceu na madrugada do último dia 12, aos 75 anos. A escritora era paraibana, de Nova Palmeira, mas chegou a Natal ainda em 1972 e pouco depois se tornou professora do Departamento de Artes da UFRN. E em sua trajetória deixou importante legado enquanto docente, pesquisadora e uma escritora versátil, com livros publicados nos campos da poesia, da prosa e voltados ao público infantil.

A seguir, postamos uma entrevista inédita no campo da internet, feita pelo também escritor e pesquisador Thiago Gonzaga:

  • Nivaldete Ferreira, onde você nasceu e como foi sua infância?

      Nasci em Nova Palmeira-PB, então um lugarejo que passou à categoria de cidade em 1968. Infância sem grandes eventos, mas com muitas histórias contadas por minha avó materna, Alzira; brincadeiras com bonecas de pano; cozinhados em panelinhas de barro. Ah, tinha a capela, e nela, no extremo oposto ao altar, o coro, espécie de mezanino onde mulheres às vezes cantavam os hinos da missa. Quando elas não iam, eu e uma amiga costumávamos subir e, lá de cima, a gente pingava vela quente na cabeça das senhoras que rezavam ajoelhadas, embaixo. Era muito riso, então, por essa e outras pequenas maldades. E tinha o João Redondo, de Basto, que chegava por lá de tempos em tempos. E muito banho de chuva. Havia um rio de inverno, por trás da minha casa. Certa vez, depois de uma chuva forte, meu pai atravessou aquelas águas barrentas, para ir ver como estava o seu gado. Sem que ele visse, fui atrás. Comecei a ficar tonta com a passagem da água. Cheguei gritar, mas ele não podia ouvir. Tive a sensação de que ia ser levada pelas águas, foi um desespero. Enfim, a muito custo consegui voltar para a margem… Outra lembrança especial: a Pedra. Uma pedra de calcário, mas não era uma pedra qualquer. Parecia uma grande vaca deitada. Nos fins de tarde a gente sempre ia pra lá e subia no lombo dela. Casais de namorados também gostavam da Pedra. Enfim, gerações passaram por ela, e ela se tornou parte do nosso patrimônio afetivo. Um dia, com a justificativa da construção de alguma coisa no lugar, dinamitaram a Pedra, a nossa Pedra. Ouvi o som dos estilhaços no telhado de casa, como se fosse milho jogado com força. Doeu…

      • Quais suas primeiras leituras?

      Gibis e Monteiro Lobato, da estante da vizinha de minha avó. De lá também, numa velha Selecta Literária, li O Corvo, de E. A Poe. Essa estante havia pertencido ao padrinho de Zila Mamede, Dr. Francisco Medeiros, que fora estudar medicina em Recife e lá ficou clinicando como hansenista. Nesse tempo, médicos e advogados estudavam literatura também. Era uma forma de complementar a formação e de saber da humanidade igualmente através da poesia e da ficção. Tudo mudou, como se vê. Os cursos de Direito, por ex., hoje formam técnicos em lei.

      • Quando veio residir em solo potiguar? Foi para estudar?

      Vim de vez em 1972, pra estudar e tocar a vida.

      • Com que idade começou a escrever seus primeiros versos?

      Acho que tinha uns dezoito anos.

      • E os tempos como estudante universitária na UFRN, como foram?

      Foi um tempo muito ocupado, pois fui mãe no período da graduação e era monitora também.

      • Você estreou na poesia com o livro Sertania, em 1979. Conte-nos um pouco de como nasceu esse trabalho.

      Não estava previsto publicar nada até ali, embora estivesse sempre escrevendo alguma coisa. No caso, sempre com um sentimento do vivido na minha terra. Era o que eu tinha pra falar; afinal, foram vinte anos lá, então fiz o meu cineminha pretensamente poético com as imagens que ficaram guardadas. É mais um livro de exercício, de aproximação com a poesia.

      • Depois de Sertania você passa um longo período sem publicar. O que a levou a dar essa pausa?

      Nesse intervalo escrevi muita coisa, mas deixei nos cadernos. Foram escritas esporádicas, soltas, sem amarramento temático. Por que foi assim? Porque foi. Não sei. Talvez eu tenha preferido viver a poesia viva da convivência com os filhos, que eram pequenos. 

      • E Trapézio e Outros Movimentos segue a mesma temática de Sertania?

      Absolutamente não. Trapézio  é meu livro ‘difícil’. O crítico Foed Castro Chamma (RJ) fez uma leitura dele muito rica. Afirmou, entre outras coisas, que para entendê-lo é preciso recorrer à semiótica e à psicanálise. É um livro que-não-diz ou que segue o que foi dito por Paul Celan: “Diz a verdade quem sombras diz”. Eu estava impressionada justamente por ele e por Cummings. Celan, em particular, produziu uma poesia obumbrada. Flávio Kothe (UnB), num estudo sobre ele, justificou isso dizendo que a comunicação ‘fácil’ já nada comunica. E eu quis fazer em Trapézio algo próximo disso. Nada de construções dessas que seduzem e nos fazem dizer: que coisa linda! Eu preferi (e ainda prefiro tantas vezes…) o que faz dizer: que coisa estranha! Pois é tudo muito óbvio, sem aquele importante trabalho de ocultamento. A poesia ‘fácil’ agrada à maioria porque diz o esperado, ao contrário das obras ruptoras, descondicionantes. Trapézio e Outros Movimentos, ao que parece, é para ‘depois’. Um dia alguém o descobrirá…

      • Qual a sua relação de parentesco com a poetisa Zila Mamede? Ela influenciou sua poesia de alguma forma? Como era o contato de vocês?

      Zila era prima legítima de minha mãe (nasceram ambas em setembro de 1928, em Nova Palmeira), portanto era minha prima em segundo grau. Em Sertania há uma aproximação com a poesia dela, assim como com a de João Cabral. Circunstância da hora. Vim para Natal com a ajuda dela. Ela estivera em Nova Palmeira quando eu era menina, mas sempre ouvi referências ao seu nome, por parte de outras primas. Referências de admiração e respeito.  Um dia, desejando vir para cá, enviei-lhe uma carta (ela estava em Brasília, no Instituto Nacional do Livro). Ela me respondeu logo e me mandou procurar o então presidente da Fundação José Augusto, o poeta Diógenes da Cunha Lima. Trabalhei na Gráfica Manibu, no Museu do Sobradinho e na Biblioteca Câmara Cascudo. Depois ela retornou para Natal e eu a visitei algumas vezes, em Potilândia.  

      • Em meado dos anos  90 você recebeu uma importante menção honrosa da União Brasileira de Escritores. Conte um pouco desse fato.

      Foram duas menções especiais, em 1997. Uma, em literatura infantil; a outra, em conto. Por acaso alguém me falou sobre esse concurso e eu resolvi participar. Num certo sábado, alguém me liga do Rio, para dar a notícia. Era Stella Leonardos, um nome injustamente pouco lembrado neste Brasil de incoerências -poeta, romancista, dramaturga, autora de livros para crianças, tradutora (traduziu do espanhol, francês, italiano, inglês, catalão, provençal). Então fui receber as menções, na Associação Brasileira de Imprensa, no Rio.

      • E o livro Psilinha Cosmo de Caramelo, nos conte um pouco dele, de como se deu a construção. Você sempre quis escrever livros infantis?

        Psilinha Cosmo de Caramelo foi justamente o texto que recebeu menção especial no concurso da UBE, em 1997, na categoria ‘literatura infantil’. A personagem Psilinha –que deveria se chamar Priscila, mas foi registrada “Psila”- não conta uma história, ela conta pensamentos que vão lhe ocorrendo. Ganha, por ex., uma máquina fotográfica e diz que quer fotografar a ausência da mãe, que foi viajar… É por aí. Há quem me cobre uma reedição, já que essa que foi feita pela editora da UFRN esgotou e é muito precária, uma brochura. Vou pensar nisso, agora que me aposentei…

        • E os tempos como professora do Departamento de Artes na UFRN, foi uma grande experiência?

          Pedi aposentadoria há poucos dias. O tempo passado no Dep. de Artes foi muito importante, será sempre. Depois da minha casa, foi o lugar onde mais passei tempo. Amo aquele espaço e guardo afeto por todos/as que passaram por mim. Ou por quase todos/as. Lá aprendi também sobre a humanidade.

          • Nivaldete, como você vê posição da mulher no cenário cultural Norte-Rio-Grandense?

            Acho que está bem melhor do que décadas atrás. No cenário artístico propriamente, há mulheres se afirmando na música, no teatro, na literatura, na dança. Isso é bom.

            • A sua estreia na ficção se dá com um livro muito especial, Memórias de Barbara Cabarrús.  Fale-nos um pouco da ideia desse livro, de como surgiu, quanto tempo passou para escrever.

              Em novembro de 1999 fiz uma cirurgia e, de repouso, só me restava ler. Li até uma pequena enciclopédia que adquiri a uns garotos de Maceió, que assim tentavam manter uma bolsa de estudo, segundo diziam. Comprei para ajudar e deixei lá na estante, só pegando nessa ocasião. Foi quando dei com os olhos num verbete que falava de Teresa Cabarrús (1773-1835), uma espanhola radicada em Paris. Foi simpatizante da Revolução Francesa, talvez espiã, para o que usava seus dotes femininos, e teria colaborado para a queda de Robespierre. Teve vários maridos e escandalizou a sociedade francesa com seus comportamentos atrevidos para a época. Então me ocorreu criar uma personagem que fosse descendente dela, mas o romance faz referência a Violeta Cabarrús, que seria a avó de Bárbara… O surpreendente é que, na mesma semana em que lancei meu romance aqui, a jornalista Carmen Posadas lançava, em Madrid, La Cinta Roja, justamente sobre Teresa Cabarrús! Li no jornal El País, por puro acaso: alguém me questionou sobre o acento do nome “Cabarrús”. Expliquei que se tratava da língua espanhola, mas fui me certificar mais uma vez, agora na internet. Foi quando fiquei sabendo do livro de Posadas. Quanto ao tempo que passei para escrever Memórias de Bárbara Cabarrús, bem, comecei no início de 2000; deixei pra lá; retomei depois; abandonei; retomei, até que surgiu a ocasião. Mas eu gostaria de modificar algumas soluções: a mãe de Bárbara estaria mesmo mumificada e Bárbara encontraria outro amor em suas andanças… O livro está esgotado. Alunos do curso de Letras da UnP têm feito trabalhos interessantes sobre essa ficção e a Profª Drª Conceição Flores me cobra com veemência uma reedição. Vou tentar.

              • Você gostou do resultado final do livro? Pensa em escrever mais ficção?

              Vou fazer uma revisão. Há itálicos demais, alguns que nem deveriam existir, mas o computador colabora sempre, não é? O livro em si ficou muito bonito, e muitas das pessoas que o leram disseram que não conseguiram parar a leitura. Esse livro tem detalhes específicos que ainda não foram percebidos. Por exemplo, a citação de algum autor ‘real’ que ainda não havia sequer nascido, se considerarmos o tempo histórico da narrativa (mas não vou dizer quem é esse autor). Outra coisa: pode sugerir uma discussão sobre como se gera uma imputação de culpa… Bárbara tem algumas coisas de mim e deve ser minha porção selvagem e revolucionária que não deixei existir. Mas nos encontramos em outros aspectos: na angústia da história que senti por muito tempo; na admiração pelos andarilhos; na repugnância à injustiça; no apreço pelas mulheres corajosas… Sim, estou escrevendo mais ficção. E não me preocupo com a destinação disso. Importa escrever. Escrever é a minha melhor viagem, a minha (pro)cura.

              • Você também escreveu peça de teatro?

              Escrevi uma: Entre o Carrossel e a Lei, publicada em 2007.

              • Nivaldete Ferreira, além de poetisa, é ficcionista; alguma predileção por estas vertentes literárias?

              Não. Agrada tanto o dizer conciso que a poesia exige quanto o mais extenso e detalhado da prosa.

              • Em sua opinião o Rio Grande do Norte continua mantendo a tradição de sempre ter boas poetisas/poetas?

              Sim, claro.

              • Nivaldete, e o mercado editorial local, como você observa?

              Acho que o mercado editorial local é mais ou menos como o de outras capitais fora do sempre eixo Rio-S.Paulo: difícil de ser praticado. Mas há boas e louváveis iniciativas:  Sebo Vermelho, Jovens Escribas, Una…

              • O momento atual da literatura potiguar, muita gente boa produzindo? Pode citar alguns nomes?

              Novos ficcionistas, novos poetas?… Sinceramente, não tenho percebido, em termos de livro, de publicação –até porque não é fácil publicar. Ou pode ser que, simplesmente, não tenho tomado conhecimento, mas há sempre alguém postando textos bons, curtos e essenciais, no facebook, por ex. Gente que, por certo, mais à frente publicará em livro físico ou e-book. Tem um rapaz por aí, o Canniggia Carvalho, dono de uma imaginação poética extraordinária.

              • Além da literatura, que outro tipo de arte lhe desperta interesse?

              A música (compus algumas, letra e melodia), a pintura e a fotografia.

              • E quais são seus planos literários para o futuro?

              Publicar outras ficções, outros poemas, “outras palavras”…

              • Quem é a escritora Nivaldete Ferreira?

              Sou o que sou e o que não sou.

              Hibridez de ser, não-ser, a ser,

              Por isso mesmo estou aqui…

              Thiago Gonzaga

              Thiago Gonzaga

              Pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros.

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