Abaixo segue entrevista que fiz com o já saudoso poeta, publicada na edição de março de 2024 da Revista da Academia Norte-rio-grandense de Letras.
O poeta e escritor Paulo de Tarso Correia de Melo comemorou recentemente 80 anos de vida. Em homenagem a tão especial data, publicamos, a seguir, entrevista que, com ele fizemos, em 2013, para o livro Impressões Digitais – Escritores Potiguares Contemporâneos, vol. 1, de nossa autoria.
1 – Paulo de Tarso Correia de Melo é atualmente um dos nomes mais conhecidos e conceituados entre os poetas potiguares. Como brotou em você o desejo de ser poeta?
Grato pelo “conhecido” e “conceituado”. Para ele a fórmula cascudiana: “é mentira, mas é gostoso”. Não sei como me brotou o desejo de ser poeta. Sempre desconfiei que tinha alguma coisa para dizer daqui do meu cantinho estreito e obscuro.
2 – Onde você nasceu? Nos relate um pouco da sua infância, suas primeiras leituras literárias, os livros que te marcaram?
Sou natalense da gema. Xaria. Nasci na Rua São Tomé, na Cidade Alta, por trás do casarão de Câmara Cascudo e defronte a casa do poeta Augusto Severo Neto. Apesar de Mário Quintana, um dos meus mais honrosos “conhecidos pessoalmente” na área da literatura, dizer que “toda infância é azul”, não colou nem fantasiei a minha. Tive uma infância e adolescência típicas da classe média nordestina, vividas entre Natal, Recife e cidades interioranas como Aliança (PE) e Ceará-Mirim (RN). Vai e vem explicado pela mãe natalense e o pai pernambucano. Estudei o primário no Salesiano da Ribeira, o ginásio no “7 de setembro” de professor Fagundes e Dr. Nogueira e o clássico no Atheneu. De livros de infância começo com o obrigatório (“Graças a Deus”) Monteiro Lobato e ainda Dickens e seus meninos infelizes, os piratas de Steveson, o caudaloso Hugo e o interminável Dumas. No discurso de posse da ANL falo dos eventos da leitura adulta.
3 – Como foi a sua juventude em Natal, nos anos 60, você participou de algum grupo literário, frequentou as chamadas “Cocadas”?
Foi uma juventude privilegiada pelos meus primeiros trabalhos na Tribuna do Norte e na equipe da Secretaria Municipal de Educação ao tempo de Djalma Maranhão e Moacyr de Góes. Comecei convivendo precocemente com o grupo literário conhecido como a “igrejinha” composto por Zila Mamede, Newton Navarro, Augusto Severo Neto, Deífilo Gurgel, Luís Carlos Guimarães, Celso da Silveira e Myriam Coeli, Dorian Gray, Francisco das Chagas Pereira, Nei Leandro de Castro, Sanderson Negreiros, Diógenes da Cunha Lima, Miguel Cirilo e Moacy Cirne. Como vê, a nata da geração pós 45. Frequentei posteriormente o “Salão dos Novíssimos”, “as cocadas”, a Vila Flor, o Cine Clube Tirol e muitos outros grupos.
4 – E seu contato com a literatura potiguar, como aconteceu? Você lembrar, por exemplo, dos primeiros livros que leu? os primeiros autores que conheceu?
Na adolescência convivi com Madalena Antunes. Li suas memórias, aproveitei de seus ensinamentos sábios, sua incomparável verve. Desde a infância conhecia a poesia de seu irmão Juvenal Antunes, hoje meu patrono na Academia Cearamirinense de Letras. São também figuras de infância Zila Mamede, Virgílio Trindade e Augusto Severo Neto. Newton Navarro e Dorian Gray foram meus professores na adolescência. Vi ser lançada a coleção Jorge Fernandes e O Pastor e a Flauta de Nei Leandro. Pouco depois, impressionou-me o lançamento de um livro de alguém de minha geração. “Serra Nova”, o primeiro livro de contos de Manoel Onofre Junior.
5 – Foi nesse período que você se graduou em Pedagogia na UFRN? Algum motivo especial para a escolha do Curso? E como era o universitário Paulo de Tarso, um bom aluno?
Motivos especiais foram dois: a rebelde recusa à tradicional trilogia MÃE, isto é, se você não fosse médico seria advogado ou engenheiro. O outro motivo foi mais forte. Outro honroso “conhecido pessoalmente” na época: Paulo Freire. Fiz pedagogia e fui um aluno até melhor que bom no que me interessava e apenas sofrível no que não me interessava.
6 – E a experiência como professor da UFRN, como foi essa fase? Você lecionava o que?
Mesmo depois da pós-graduação em Educação de Adultos, nunca abandonei a área de Teoria da Educação, principalmente História do Pensamento Educacional. Este interesse durou toda a minha carreira acadêmica até a aposentadoria.
7- Você cursou pós-graduação (Master of Arts in Education) na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. Relate-nos sobre a sua experiência de estudar fora do país, escreveu versos sobre esse período?
Nesta fase ocorreu comigo um fato importantíssimo, além do aperfeiçoamento científico e técnico. Sai do país naquele período de predominância das vanguardas, quando se declarava: a literatura está morta. Nos Estados Unidos encontrei-a extremamente viva. Comecei a escrever poesia a sério por lá.
8 – Você está ligado à vida intelectual da cidade desde jovem, colaborando nos jornais e publicando ensaios literários. De que tratavam seus primeiro escritos? Em que gênero literário você começou escrevendo?
A página literária da TN contava com um trio de cronistas ainda hoje insuperável: Berilo Wanderley, Newton Navarro e Sanderson Negreiros. Numa das viagens de Berilo ao Rio de Janeiro Moacy Cirne e eu tentamos substituí-lo escrevendo crônicas. Comecei escrevendo crônicas que nos melhores dias poderiam ser generosamente classificadas como prosa poética.
9 – Paulo de Tarso, você pode nos relatar um pouco sobre sua o estreia em livro “Talhe Rupestre”?
Minha mulher diz que se não fosse Carlos Newton Júnior eu ainda estaria inédito. Na realidade, a literatura é a área que escolhi para exercer a humildade. Sou profundamente inseguro quanto ao valor do que escrevo e necessito constantemente do incentivo, diria empurrão mesmo, dos editores. Invejo profundamente aqueles que publicam cedo e são ingenuamente seguros de si.
10 – Antes mesmo de publicar livro você já era conhecido como um grande poeta no meio literário, como isso aconteceu? Você publicava poema em jornais/revistas?
Isso me faz lembrar Celso da Silveira me telefonando de manhã cedo e perguntando que poema era aquele meu tão bonito publicado no jornal. Lembro com saudade do grande e gordo poeta, como a sua pergunta me deixou perplexo e feliz.
11 – Dentre suas obras premiadas temos “Natal: secreta biografia”; Prêmio Estadual de Poesia Auta de Souza, e “Folhetim cordial da guerra em Natal e Cordial folhetim da guerra em Parnamirim”; Prêmio Municipal de Poesia Othoniel Menezes, que são cronologicamente, segundo e terceiro livro, pode nos contar um pouco sobre eles, e sobre os prêmios recebidos, você esperava esse reconheci mento já nas primeiras obras ?
Acontece que a “boa fama” de poeta e crítico literário fazia-me convidado a julgar esses Concursos. Quando resolvi tirar os poemas da gaveta e publicá-los, decidi antes testá-los nos concursos que julgara anteriormente. Ainda bem que ganhei os dois, no mesmo ano. Era quase uma obrigação moral. Não esperava que isso ocorresse, mas torcia para que se desse.
12 – E sua indicação para Academia Norte-rio-grandense de Letras, como aconteceu? A Academia estava nos seus planos?
Considero a Academia uma forma de reconhecimento ao conjunto de obra, portanto achei o meu ingresso um pouco precoce. A curto prazo a Academia não estava nos meus planos, mas estava nos planos dessa força da natureza, o presidente Diógenes da Cunha Lima, desde o meu primeiro livro publicado. Consegui publicar meia dúzia deles antes de tomar posse.
13 – Em “Natal: secreta biografia”, você colocou um texto teórico no qual faz sua “profissão de fé”, no ofício da poesia. Para você a poesia é algo como uma espécie de chamado, um dom? E a escrita poética, seria inspiração ou muito trabalho?
Sim, a poesia é um chamado, um dom, mas como diz o poeta Mi losz: “Que homem inteligente gostaria de ser o país dos demônios, que nele se multiplicam como em sua própria casa, falam inúmeras línguas, e como se não lhes bastasse roubar-lhe a boca e as mãos, ainda tentam alterar-lhe o destino a seu bel prazer!” O grande trabalho do poeta é controlar e organizar esta confusão.
14 – Atualmente (2013) você tem quantas obras publicadas , algum “filho” preferido e por quê?
Estou publicando o vigésimo volume de poesia. Lá vai agora uma revelação: o Folhetim é uma espécie de filho preferido e, ao mesmo tempo, uma grande decepção. Esperava que tivesse uma repercussão maior do que realmente teve.
15 – Fale-nos sobre os trabalhos “Sabor de Amar” e “Livro de Linhagens”, do processo de criação, da temática dos poemas ,de como surgiu a ideia de faze-los?
Mais revelações. Sabor de Amor, como todos os meus livros, estava escrito muito tempo antes da publicação. O poeta Adriano de Souza diz uma coisa que gosto muito. Que todos os meus livros são envelheci dos em gavetas de carvalho. Acho a frase inteligente e bem humorada. Sabor de Amor era um deles. Esquecido na gaveta porque achava amor e mulher temas muito gastos. Aí surgiu um livro tratando desses temas que fez um certo sucesso. Considerei que Sabor de Amor era muito melhor e resolvi publicá-lo. Quando o fiz um irmão telefonou dizendo que não havia gostado do título, que parecia título de novela da Globo. Respondi laconicamente que o título não era meu e sim de Arnault Daniel, um dos inventores da poesia provençal. Sempre pensei que se publicasse poemas de amor seria com esse título e as epígrafes de Arnault Daniel e Robinson que abrem o volume. No caso de Livro de Linhagens, a possibilidade de uma co-edição em Portugal, o que realmente ocorreu, me fez retirar da gaveta esta coleção de poemas sobre Portugal e Grécia.
16 – E o seu livro publicado em 2009 pela EDUFRN “Talhe Rupestre” é uma antologia ?
A UFRN quis homenagear, no seu cinquentenário de fundação, a poesia de um de seus professores, nascida e criada em suas salas. Mantive para esta reunião de oito livros publicados e quatro inéditos o título geral do primeiro livro publicado, Talhe Rupestre, que considero exemplarmente “low-profile”, isto é, dignamente pouco pretencioso.
17 – Na atualidade como você observa a produção poética potiguar, continuamos produzindo uma poesia representativa?
Observo-a com muita atenção. Um dos meus bordões a respeito é: o perigo é que eu leio. Tudo que posso. Todo dia está surgindo gente nova que continua uma evolução de nossa poesia.
18 – Você poderia destacar alguns novos nomes, na novíssima geração de poetas locais?
Temendo a omissão por lapso de memória e citando vivos corajosamente, porque “a fila anda”, destaco o poeta visual Avelino Araújo, o alternativo Carito Cavalcanti, o neo-acadêmico e poeta inédito Marcelo Navarro e Iracema Macedo, representando uma tradição evolutiva feminina.
19 – Se você fosse para uma deserta e tivesse que levar apenas dez livros potiguares, quais seriam?
1) Na Ronda do Tempo, de Luís da Câmara Cascudo, para lembrar-me na ilha deserta que fui citado por ele. 2) Poeira do Céu de João Lins Caldas, um sonho dele, meu e de muitos outros que ajudei a professora Cassia Matos a realizar. 3) Acreanas, do meu patrono na ACL, Juvenal Antunes. 4) Oiteiro, de Magdalena Antunes, para lembrar-me dos olhos azuis dela na ilha deserta. 5) A Canção da Montanha, de Othoniel Meneses. 6) Navegos, de Zila Mamede. 7) Fábula, Fábula, de Sanderson Negreiros. 8) Obra Completa, de Newton Navarro. 9) Literatura no Rio Grande do Norte, de Diva Cunha e Constância Lima Duarte, garantindo a presença delas e de outros omitidos nesta lista pela restrição numeral. 10) Corpo Breve, de Diógenes da Cunha Lima, um título pouco lembrado do poeta.
20 – Paulo de Tarso, você poderia citar e destacar, algumas personalidades da poesia potiguar, com obras bastante significativas, que você conheceu e que já morreram?
Zila Mamede, Augusto Severo Neto, Myriam Coeli, Celso Silveira, Newton Navarro, Walflan Queiroz, Miguel Cirilo, Luis Carlos Guimarães e Deífilo Gurgel.
21 – E a obra de Bartolomeu Correia de Melo, seu irmão?
Não conseguiria a imparcialidade e distanciamento emocional necessários. Não seria honesto. E para mim a honestidade intelectual é muito importante.
22 – E como aconteceu a parceria com Alfredez Pérez Alecanrts, renomado escritor e professor da Universidade de Salamanca na Espanha. Seu livro mais recente “Misto Códice”, que tem poemas bilíngues , teve tradução e prefácio dele. Essa relação com grandes nomes de fora da província valorizam de que forma a nossa produção literária?
De modo imediato é uma felicidade e um privilégio ter sido des coberto pelo Dr. Alfredo Perez Alencart, o que se deu através do amigo comum David Leite. De modo mais aprofundado, o fato poderia ser explicado pela globalização do mundo moderno e a evolução do conceito de Weltliterature, modernamente analisado por Milan Kundera na segunda parte do livro de crítica literária A Cortina. Claro que isso tem valor, em bora a província prefira as homenagens costumeiras.
23 – Misto Códice é um livro diferente dos outros?
Sim, por levar às últimas consequências o conceito de intertexto e tratar de temas não tratados anteriormente em minha poesia, como a seca do nordeste.
24 – Nos últimos dez anos não houve uma preocupação local em registrar, em antologias, as revelações poéticas potiguares que vem surgindo. Você não acha que corre o risco desse período ficar “em branco” na nossa historia poético literária?
Confio em pessoas como você para evitá-lo.
25 – E o mercado editorial potiguar, como você observa? Melhorou muito em relação aos anos 70/80? Temos boas editoras locais?
O mercado tende a melhorar cada vez mais, graças a novas tecnologias a partir do computador. Já contamos com boas editoras locais. Querer que sejam parecidos com as de New York é provincianismo e pose.
26 – E sua relação com a Saraus das Letras?
Excelente. Apostei na editora local e não me arrependo. Anteriormente era publicado pela Bagaço de Recife, hoje dependo do cuidado editorial de Clauder Arcanjo, da eficiência do amigo David Leite e das primorosas programações visuais de Augusto Paiva.
27 – Você também publicou e escreveu inúmeros prefácios estudos críticos sobre a poesia norte-riograndense, onde figuram Zila Ma mede, Myriam Coeli, Luís Carlos Guimarães, Sanderson Negreiros, dentre outros. Você nunca pensou em reunir em livro toda a sua produção crítica?
Muitos cobram uma publicação reunida destes estudos. Não o fiz até agora, mas não me oponho a que alguém o faça, desde que sob minha supervisão.
28 – E além da poesia e da critica literária, Paulo de Tarso escreve em outro gênero? Nunca pensou em escrever romances, contos?
Não tenho simpatia pelos chamados polígrafos. Há exceções, claro. Os gênios como Borges que recriou a narrativa, o ensaio e fez poesia superior.
29 – Que outro tipo e arte desperta seu interesse além da literatura? Quais suas as grandes paixões além da poesia?
As artes visuais e a música. Os grandes Museus e Teatros são lugares felizes do mundo.
30 – Paulo de Tarso foi o único representante brasileiro em 2012 a fazer parte da antologia de poemas na Espanha, como aconteceu o convite?
Outra vez consequência da globalização. Nada de extraordinário, a não ser o gênio e a disposição de Alfredo Perez Alencart. O convite é feito aos participantes do Encontro Iberoamericano de Poesia, anualmente coordenado por Alfredo na Universidade de Salamanca.
31 – Como se sente sabendo que faz parte da história da literatura potiguar, e que participa de várias antologias poéticas?
Humilde, grato e tranquilo.
32 – Como você definiria a sua poesia?
De início, um documento do meu tempo e da minha experiência. Deixo a outros, outros acréscimos à definição.
33 – E quais os seus planos literários para o futuro?
Lembro sempre Jorge Fernandes, cujo primeiro e único livro terminou servindo para enrolar sabão e hoje, meio século depois, é deificado como precursor do Modernismo. Quero apenas registrar para o futuro a minha poesia. Lamento não poder estar presente ao julgamento final do tempo. Se positivo, ótimo. Se negativo, a ausência terá tido suas vantagens.
34-Quem é o Poeta Paulo de Tarso Correia de Melo?
Alguém que vive de acordo com a verdade, o bem e o belo e partilha-os com seus semelhantes.
