Esses dias um trecho de Valèry me voltou à memória. No pequeno livro em que cada letra do alfabeto dá origem a um fragmento em prosa poética, sendo a segunda dedicada ao ato de acordar, milhares de interpretações e apropriações são instigadas e possíveis. Mas me peguei refletindo sobre a dificuldade de acordar — no sentido mais amplo de agir sobre a existência, mas também de sair da cama — de qual sou vítima, assim como tantos outros que convivem com uma doença mental. E como muitas pessoas não sabem nem o que é isso.
Entretanto, a patologia não é a única explicação para o estado depressivo, já que a desesperança com relação ao futuro, às vezes, pode ser mais do que confirmada pela realidade externa, derrubando até a pessoa mais otimista. E eu me pergunto se todos os artistas brasileiros estão deprimidos, e se não estão… como não?!
“Braços e pernas encolhidos, distendidos, remexendo as sombras e o leito; repartindo, afastando as ondas da mortalha vaga, o ser enfim se desfaz da sua confortável desordem. A virtude de ser Si percorre-o. Ser Si arrebata-o como uma surpresa; e às vezes uma feliz surpresa, às vezes uma infelicidade imensa. Quantos despertares não desejariam ser apenas sonhos!… Mas na hora a unidade toma conta dos membros, e da nuca aos pés um acontecimento faz-se homem. De pé! clama todo o meu corpo, é preciso romper com o impossível!… De pé! O milagre de ficar de pé se realiza.”¹
Recentemente eu tenho me arrastado para esse lugar sombrio ao me submeter a pensar sobre Hollywood. Via de regra, é mais saudável ignorar as diferenças entre as nossas realidades. Contudo, observar o tamanho desse abismo explicita melhor o tamanho da distância entre o que existe e o que é possível, e que já é possível mesmo dentro do capitalismo.
Em uma dessas minhas sessões de masoquismo, me deparei com o trecho de uma entrevista com uma atriz famosa, que está muito em alta no momento, em que ela falava sobre como decidiu seguir a carreira de atriz; ela disse que decidiu assim que descobriu que isso era uma profissão: “O quê? Você paga suas contas, a educação dos seus filhos, seu aluguel, sendo atriz? Ah, é isso que eu vou fazer!”. É difícil tirar essa frase da cabeça. Nos EUA você pode decidir trabalhar com alguma função do cinema e tentar conseguir um emprego. Você pode se sustentar com isso. É realmente uma loucura. E a matemática é simples: o mundo inteiro valoriza o cinema criado nos EUA. É a segunda maior indústria daquele país.
Em um ensaio do historiador do canal Normose² que assisti semana passada, ele cita que, antes da consolidação do dinheiro como moeda de troca, o Brasil trocava café por filmes americanos. Exportando nossa produção agrícola e importando ideologia, o Brasil dá início a uma lógica que vigora até hoje: nossas salas de cinema seguem dominadas pelos americanos, nossos canais de TV passam filmes americanos dublados.
Mas e qual o problema? Os filmes não são melhores? Comentei no início de outro texto (Veja AQUI) que durante 2009 eu trabalhava em uma videolocadora, na qual os clientes davam risada se eu indicava filmes brasileiros, achando, genuinamente, que era uma piada. Bem, é verdade que os norte-americanos sempre tiveram muito mais dinheiro para as necessidades tecnológicas, entretanto isso já faz pouca diferença no tipo de cinema que produzimos, já que o avanço tecnológico também barateou os instrumentos básicos e essenciais para um filme de qualidade. Nos EUA eles podem, também, contratar roteiristas para passar quanto tempo necessário escrevendo e reescrevendo, e atores para se prepararem por meses, às vezes por anos, para apenas um projeto.
Eu nem vou entrar, aqui, na questão da importância de proteger a cultura de cada país e região, ou do cruel imperialismo ideológico americano que prega consumismo predatório e individualismo. Hoje eu queria, mesmo, propor uma reflexão sobre nós, aspirantes a artistas, no meio disso tudo.

De um lado, milhares de pessoas estão alocadas em empregos que não produzem nada, na área financeira, ou fazem parte de alguma companhia que super-produz alimentos e objetos que vão em sua maior parte para o lixo em pouco tempo, muitas vezes até antes de serem comprados; a maioria passa a maior parte das oito horas de escritório enrolando. Ao mesmo tempo, achamos um absurdo criar uma indústria de arte no nosso país, que produziria entretenimento, diversão, insights, passatempos, e tudo o mais que dá sentido à existência humana.
Se o trabalho é a contribuição de cada indivíduo para a sociedade, aqueles que estão aptos a trabalhar dão a sua contribuição a partir das suas habilidades. Sendo a produção artística a minha contribuição, por que, então, ela não é remunerada, para que eu possa plenamente fazer parte dessa sociedade?
Uma resistência a essa noção é o fato de que essa arte supostamente não é consumida, isto é, não está conectando de fato com as pessoas e devolvendo valor à realidade, ao dia a dia do brasileiro. Esse “se pagar” pode ser entendido do ponto de vista existencial ou econômico, o que na nossa reflexão vai dar no mesmo.
Apesar de muitos filmes quebrarem essa bolha e serem adorados Brasil afora, a realidade é que a valorização do cinema nacional precede esse consumo: primeiro precisamos ter investimento para escrever um ano todo (e não inscrever em editais e leis de captação um roteiro pronto, escrito no horário de almoço do escritório onde trabalhamos com qualquer coisa que nos sustente); filmar o tempo que for necessário, sem precisar fazer diárias de 12 a 15 horas; pagar atores para se prepararem por vários meses; isso, com certeza, aumentará muito a qualidade das produções. Entretanto, desde já temos centenas de produções de altíssimo nível, que precisam ter asseguradas as telas para serem exibidas e, assim, chegarem às pessoas, dando sentido à vida de todos.
Como ficamos nós, produzindo para o vazio, ou tentando produzir sem conseguir financiamento? Escrevendo, ou tentando escrever, tarde da noite depois dos filhos dormirem? Às vezes a confiança de que vale a pena simplesmente some. E me vem à memória nesse momento a discussão que temos, às vezes, sobre como a dor gera a escrita; e, junto dela, uma citação de Svetlana Alexievich que me acompanha há tempos:
“Penso no sofrimento como o grau mais alto de informação, diretamente conectado ao mistério. Ao mistério da vida. Toda a literatura russa fala disso. Nela se escreveu mais sobre o sofrimento do que sobre o amor.”⁴
Contudo, aqui não falamos de dor, de tormento, de experiência vivida. Depressão é desesperança, é falta, é vazio. Ninguém cria deprimido. A depressão é o anti motor da arte, que desafia a existência dos artistas.
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¹ O Alfabeto, livro de Paul Valèry, edição brasileira 2009.
³ Quando o Tempo Cair (2006), curta-metragem de Selton Mello sobre depressão.
⁴ Na introdução de “A guerra não tem rosto de mulher” livro de Svetlana Aleksiévitch, 1985.

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Minha gente… esse final é um punhal no peito. “Contudo, aqui não falamos de dor, de tormento, de experiência vivida. Depressão é desesperança, é falta, é vazio. Ninguém cria deprimido. A depressão é o anti motor da arte, que desafia a existência dos artistas.”
Continuemos buscando a resposta, mesmo sabendo da utopia que pode ser encontrá-la.
Obrigado por escrever!