Cerveja para matar a sede (?)

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Saudações, cervejeiros sedentos!

Um dos mantras muitas vezes repetidos, tanto em mesas de bar, quanto em propagandas televisivas de cervejas é: beber uma cerveja para matar a sede!

Por incrível que pareça, a frase em questão, por mais simplória que pareça, possui um grande impacto na cultura cervejeira, em particular, na cultura cervejeira nacional. Ela é uma verdadeira formadora do caráter nacional em “termos cervejísticos”.

No entanto, repetirei tal frase à exaustão no texto de hoje, para ver se de alguma forma ela fica um pouco mais fixada no leitor: cerveja não serve para matar a sede de ninguém. Ao menos, não a sede literalmente falando.

Se você, por acaso, bebe cerveja para matar a sede, saiba que está fazendo isso muito erradamente. Tanto porque a cerveja jamais matará sede nem você nunca estará hidratado bebendo cerveja.

Beba água. Se o seu propósito for, de fato, matar sua sede.

Cerveja tem outros propósitos tão nobres quanto, eu diria…

Cerveja ou água? Ou cerveja aguada?

Quem tem sede bebe água para aplacar a vontade de se hidratar. Existe algo mais claro que isso? Imagino que não seja possível ser mais cristalino…

Contudo, as coisas parecem ser menos óbvias do que se pode pensar sobre elas. Então, por que não sugerir cerveja para matar a sede?

Uau, que bela ideia, não é? A televisão está há anos mostrando e repetindo exaustivamente essa sugestão publicitária.

Não, não é uma bela ideia. Contudo, é uma ideia que vende, e vende muito, já que o Brasil é um país tropical e com temperaturas elevadas a maior parte do ano e na maior parte de seu território.

Vender a ideia de “beber uma cerveja para matar a sede” não é algo inato à cultura cervejeira internacional. Muito embora, seja uma ideia usualmente confundida com o próprio ato de beber cerveja, ao menos aqui no Brasil, onde tal premissa foi amplamente difundida em muitas esquetes publicitárias.

Associar praia, calor, cerveja e sede é algo que se amontoou em termos de marketing ao longo dos anos. Para corresponder à publicidade ofertada a cerveja deve estar a sua altura: ou seja, ser uma cerveja aguada, fácil de beber e sem muita (ou nenhuma) complexidade.

O incauto diria: para matar a sede qualquer coisa estupidamente gelada serve! Ouso discordar.

Cerveja aguada e cerveja “encorpada”

Por incrível que pareça, quem costuma beber muito as cervejas de massa de supermercado consegue ter uma análise muito apurada sobre a diferença entre uma cerveja mais aguada e uma mais “encorpada”.

Falo disso porque é comum quem tem esse hábito consumerista indicar o qualitativo “encorpada” como um “grande diferencial” de uma determinada cerveja (notadamente, uma menos popular, que ele costume beber com menos frequência). Exemplificativamente, quem é habituado a beber só Skol tende a dizer que a Therezópolis é uma cerveja bem mais “encorpada”, quando faz uma comparação entre as duas.

No caso dado, o uso do termo “encorpada” nem é feito de maneira estritamente técnica. Já que ser encorpada tem a ver com a questão da densidade da cerveja, ou seja, a sua medida de massa pelo seu volume (relembrem as aulas de química do ensino médio: D=M/V). Usualmente, uma cerveja tida por “encorpada” é considerada uma bebida “gostosa”, ainda que os termos não sejam minimamente correspondentes.

Uma cerveja encorpada tem sua drinkability diminuída. Isto é, ela passa a ter um consumo menor em virtude de uma menor capacidade de processamento. Popularmente, diz-se que a cerveja “empapuça” e por isso rende menos em termos de quantidade a ser bebida, ela logo enjoa o bebedor. Uma cerveja mais aguada consegue ser bebida em maiores quantidades, e, consequentemente, “mata mais a sede”.

“Matar a sede” como um traço cultural nacional

Um dos maiores choques de realidade que um brasileiro pode levar ao chegar na Alemanha, ou, na Europa, de modo geral, é quando ele pede uma cerveja em um bar ou restaurante. Lá, a cerveja não será servida estupidamente gelada.

Os mais afoitos dirão que ela é servida “quente”. Eu, particularmente, diria que ela é servida na temperatura ideal, ou, quiçá, que, por vezes, ela é servida muito fria até… tais apontamentos nem podem ser considerados uma mera questão de gosto, trata-se de uma constatação factual.

A peculiaridade apontada no início da seção denota bem como as diferenças culturais se refletem nos costumes cervejeiros. Na Alemanha, por exemplo, a cerveja pode até mesmo ser considerada um item no café da manhã. Aliás, quem não gostaria de bebericar uma Weiss bem robusta enquanto come uma boa omelete? Uma coisa que se pode dizer do cenário traçado é que a cerveja não servirá para matar a sede.

Em vários países do mundo a cerveja terá finalidades diversas, como no emblemático caso da Alemanha. Lá, culturalmente, a cerveja jamais servirá para aplacar a sede de ninguém. Nem mesmo em festivais mais populares como a Oktoberfest. Ela sempre desempenhará um papel diverso, seja como coadjuvante ou como estrela da festa.

No Brasil é que a cerveja, muito gelada, com pouco aroma e pouco sabor, adquiriu esse status de água saborizada e com álcool. Já que seu intento mais básico é matar a sede, nada mais justo que ela seja assim categorizada, um arremedo de água, com algum sabor e com uma porcentagem etílica.

Faz parte do panorama cultural nacional que a cerveja sirva para “matar a sede”. E é a partir da incorporação de tal finalidade extrínseca que a cultura cervejeira tupiniquim monta suas bases na terra de Pindorama, inclusive em seus contornos sociais, como se debaterá mais adiante.

Por que não beber água? O papel social da cerveja matando a “sede”

Claro que não sou ingênuo ao ponto de não saber ou entender que a “sede” que a cerveja mata é metafórica. Não há sede alguma, no sentido fisiológico, há apenas a vontade de beber, socializar, curtir… Geralmente, beber qualquer coisa que seja gelada e refrescante (e alcoólica).

Daí se segue que a cerveja, aguada, é servida estupidamente gelada. Sua alta carbonatação serve para dar os contornos da “refrescância” necessária à liturgia cervejeira de beira de praia.

Certamente, uma água com gás ou um refrigerante qualquer atingiriam os mesmos objetivos propostos inicialmente, exceto pela parte alcoólica envolvida. O detalhe etílico é a única parte inalcançável pelas duas outras bebidas mencionadas.

Não sou misantropo ao ponto de rechaçar o papel social da cerveja, bem como também sei dar o devido valor à tessitura social que a cerveja é capaz de amalgamar. Vou dizer a mesma coisa só que de uma maneira menos pomposa: a cerveja deixa tolerável muitas situações sociais chatas ou corriqueiramente constrangedoras.

Quem nunca pensou: “como esse aniversário infantil está chato, se tivesse uma cerveja sendo servida ele melhoraria 100%”? Sim, todo mundo já passou por alguma situação similar e a cerveja indubitavelmente teria um importante papel social a desenvolver: tornar situações desagradáveis menos desagradáveis, melhorando-as, deixando-as, até certo ponto, agradáveis… por assim dizer.

Por causa de tais pormenores, há de se perceber que a cerveja, por mais aguada e sem graça que seja, consegue matar a sede social de situações em que o porre é não beber.

Dessa forma, beber para matar essa “sede” apenas mascara a verdadeira complexidade de alguns eventos sociais que somos obrigados a sobreviver… Beber água não resolveria o imbróglio social de forma alguma.

Saideira

A desmistificação da frase: “beber uma cerveja para matar a sede” passa por complexos elementos econômicos e sociais. Eles não são necessariamente dissociados um do outro, mas acabam tendo serventias primordialmente diversas.

Por anos e anos a indústria cervejeira de massa transmitiu a ideia de que uma cerveja amarelo palha, servida muito gelada, em algum ambiente tropical (quente) serviria ao propósito elementar de matar a sede.

Por mais que seja o contrário, já que, fisiologicamente, a cerveja jamais vai matar a sede, o líquido das massas, servido como sugerido, angariou seguidores fervorosos. Não, a cerveja, de fato, nunca serviu para isso, hoje temos todo um arcabouço cultural cervejeiro para nos mostrar outros direcionamentos, principalmente quando se trata de cervejas artesanais.

Quanto ao papel social da cerveja, em matar a “sede” existencial de situações sociais complexas por si mesmas, demanda-se uma construção teórica muito difícil de ser desenvolvida em poucas palavras. Assim, há de se explicar que o papel social da cervejas nesses casos é salutar para que o caos não se instale definitivamente.

Soa natural que a cultura do “beber para matar a sede” perdure, no entanto, uma boa explicação foi dada sobre esse tema no texto em desenvolvimento.

Recomendação Musical

Eu já trouxe muitas músicas que combinavam com o texto, mas nenhuma tão explicitamente convidativa como a de hoje.

A pérola musical da vez se chama: Sede de Cerveja, da dupla sertaneja (what!?): Thiago e Jaqueline.

Apreciem essa obra prima! (Contém ironia).

Saúde!

Lauro Ericksen

Lauro Ericksen

Um cervejeiro fiel, opositor ferrenho de Mammon (מָמוֹן) - o "deus mercado" -, e que só gosta de beber cerveja boa, a preços justos, sempre fazendo análise sensorial do que degusta.
Ministro honorário do STC: Supremo Tribunal da Cerveja.
Doutor (com doutorado) pela UFRN, mas, que, para pagar as contas das cervejas, a divisão social do trabalho obriga a ser: Oficial de Justiça Avaliador Federal e Professor Universitário. Flamenguista por opção do coração (ou seja, campeão sempre!).

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A verdade doa a quem doer... E aí, doeu?

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