#CaminhosdeNatal: Antiga Rua da Salgadeira assistiu o levante comunista em 1935

rua da salgadeira

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A antiga Rua da Salgadeira compreendia as atuais ruas da Misericórdia, Presidente Passos e a Praça Coronel Lins Caldas. A Salgadeira era uma região de tradição fétida. Havia ali um matadouro, onde eram abatidos gados miúdos, especialmente suínos e caprinos. No mesmo local, o couro dos animais era espichado e salgado, daí o topônimo Salgadeira.

O mau odor causado pelos couros salgados, expostos em plena via pública, afastava o visitante e envergonhava os moradores, que sequer citavam o nome da rua, preferindo identificá-la como “a que fica perto do rio”.

Em 1856, foi inaugurado naquela rua o Hospital da Caridade, o primeiro estabelecimento do gênero na cidade. A fundação do hospital mudou a denominação daquele logradouro público, para Rua da Misericórdia.

Em 1906, o governador Tavares de Lira fechou o referido hospital, conservando no prédio apenas uma única enfermaria, entregue aos cuidados de Sinfrônio Barreto.

A 1º de janeiro de 1910, a Escola de Aprendizes Artífices passou a funcionar no velho prédio do hospital. A referida escola foi criada por decreto do Governo da União, e seu primeiro diretor foi Sebastião Fernandes.

Em 17 de setembro de 1914, aquele velho prédio foi novamente desocupado, sofrendo então uma ampliação, vindo a abrigar o Batalhão Policial Militar.

Levante comunista de 1935

Aquele logradouro público foi palco de um violento combate travado durante o levante comunista de 1935. Nos dias 24 e 25 de novembro daquele ano, os revoltosos, municiados de metralhadoras pesadas, bombas de dinamite e granadas de mão, invadiram o prédio do Quartel da Polícia Militar.

O Batalhão contava com um contingente de apenas 50 homens, municiados com 100.000 cartuchos, tendo resistido heroicamente durante 19 horas seguidas de fogo, contra um inimigo numericamente superior.

Atualmente, aquele edifício da antiga rua da Misericórdia, de propriedade do Governo do Estado do Rio Grande do Norte, abrigou durante muitos anos a Casa do Estudante. de Natal.

Em 1953, com a saída do corpo policial daquela rua, foi construída uma praça defronte ao prédio que servira de quartel. Atualmente a praça já não exibe mais, com seus canteiros floridos e arborizados, tendo sido transformada em uma quadra aberta de esportes de salão.

Coronel Lins Caldas

A praça recebeu a denominação de Coronel Lins Caldas, homenagem prestada ao Coronel PM Manuel Lins Caldas, que comandou a Polícia Militar durante um período de quase 20 anos.

O coronel Manuel Lins Caldas nasceu a 27 de janeiro de 1854, em Assu/RN, tendo sido irmão de Perceval e de Ulisses Caldas, ambos mortos na Guerra do Paraguai.

Manuel serviu ao Exército Imperial, ingressando posteriormente no Corpo Policial do Rio Grande do Norte. Seguiu a carreira militar, como tenente, sendo promovido sucessivamente, a capitão e a major (1893).

A partir de 1894, passou a ostentar os distintivos de tenente-coronel, por exercer este posto no Comando Superior da Guarda Nacional do Estado, na qualidade de Secretário Geral.

O nome do coronel Lins Caldas acha-se indissoluvelmente ligado à Força Pública Estadual do Rio Grande do Norte. Dirigiu ele o Batalhão Policial Militar com disciplina e respeito à hierarquia, transmitindo aos seus comandados o sentimento de ordem e obediência. Fiscalizava frequentemente o uniforme da tropa, exigindo asseio e atenção ao fardamento. Ao soldado descuidado, sentenciava: “soldado desabotoado por fora, é indisciplinado por dentro”.

Em 31 de dezembro de 1913, o coronel Caldas deixou serviço ativo do Batalhão, com direito aos garbos e homenagens protocolares.

O coronel Lins Caldas foi também escritor, colaborando em diversos jornais de Natal. Depois de reformado, passou a gerenciar o jornal oposicionista “A Opinião”. Faleceu em Natal, no dia 27 de maio de 1921.


ILUSTRAÇÃO: Mônica Rosário Alves

Jeanne Nesi

Jeanne Nesi

Superintendente do IPHAN-RN, Sócia efetiva do Instituto Histórico e Geográfico do RN, e Sócia correspondente do Instituto Histórico Geográfico e Arqueológico de PE. Fundou a Folha da Memória, com periodicidade mensal. Publicou cinco livros, sendo dois como co-autora. Publicou folhetos, folders e cordéis e mais de 300 artigos sobre o assunto em uma coluna semanal no jornal Poti, na Folha da Memória e em revistas do IHGRN.
Atualmente aposentada, mas sempre em defesa do patrimônio histórico.

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