BIBLIOBUNKER: Filme de Bairro – cinemas, cineclubes e cinéfilos na Cidade Alta natalense

Filme de Bairro

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Filme de Bairro: cinemas, cineclubes e cinéfilos na Cidade Alta natalense

Autor: Alexis Peixoto

Editora: Caravela

Ano: 2025

Páginas: 238

Para quem nasceu neste século deve parecer realmente inverossímil os relatos de pessoas da minha geração (nascidas entre os anos 70 e 80 do século passado) sobre a vida na Cidade Alta natalense nos últimos anos do milênio que passou.

Quem visita o hoje chamado “centro histórico” de Natal, vendo aquele amontoado de prédios abandonados, de calçadas esburacadas e de lojas vazias, não consegue imaginar que, há pouco mais de duas décadas, pelas ruas daquele bairro, a vida urbana da capital pulsava de modo efervescente.

Antes de ser apenas um livro sobre os cinemas de bairro que marcaram o horizonte afetivo daquela urbe do nunca mais, o texto de Alexis Peixoto, sob a coordenação editorial sempre certeira e cuidadosa de José Correia Torres Neto, é um livro que nos apresenta a Cidade Alta em seu apogeu cultural e urbano. Um espaço de Natal que se tornou central para a vida de seus moradores, particularmente, de modo mais intenso, a partir da segunda metade do século passado, quando a Ribeira começou seu lento e inexorável processo de decadência.

Escrito em um formato de “livro-reportagem”, o texto de Peixoto nos transporta para os anos gloriosos da Cidade Alta, com a agilidade do repórter, sem perder o rigor da pesquisa histórica. Longe de apresentar pretensões de ser uma monografia acadêmica, o livro apresenta uma recuperação da memória da cidade a partir da história do cinema em Natal. Seguindo essa trilha, Peixoto, a partir de entrevistas com as pessoas que viveram a cena da Cidade Alta, de livros, jornais, revistas e artigos acadêmicos, nos ajuda a recompor a história da cultura cinematográfica da cidade no século que passou.

A narrativa parte dos primeiros registros, na imprensa da província, da passagem da “Companhia de variedades ilusionista e dramática empresa C Oliveira”, vinda da Paraíba em 1898, que, junto a apresentações de “alta magia”, sonambulismo e “decapitação de uma pessoa viva”, teria projetado imagens através de um “Caleidoscópio gigante”. Passando pela memória dos principais espaços de exibição cinematográfica da cidade, o percurso histórico reconstruído por Peixoto vai ancorar, lá pelo começo do século XXI, na banca Sétima Arte (no camelódromo da Ulisses Caldas).

Costurando as partes do seu livro como se fossem episódios duma série documental, o autor retorna à velha Ribeira, para nos apresentar Nicola Maria Parente, um comerciante italiano radicado na Paraíba que teria sido o primeiro (com registro documental atestado) a exibir, na parede de um dos prédios daquele bairro, imagens projetadas por um cinematógrafo lumieriano.

Peixoto nos lembra que foi ali, naquela Ribeira, que o cinema carregou Natal para o século XX, ajudando a pôr fim aos “três séculos de lentidão” que pareciam congelar a cidade, sempre oculta do mundo por seu sudário de areia, em um sono dogmático pré moderno.

Construindo a paisagem da cena cultural da Cidade Alta no começo do século, o livro também mostra a importância do Royal Cinema (localizado na Ulisses Caldas, perto do prédio da prefeitura) tanto para a música quanto para a literatura potiguar. Afinal, era no esteio das sessões cinematográficas daqueles anos que o Café Majestic (de propriedade do poeta Jorge Fernandes), localizado bem em frente ao cinema, protagonizava as famosas “diocésias” literárias reunindo escritores, poetas e boêmios. Também, na mesma avenida, se localizava a Livraria Cosmopolita, onde a intelectualidade de uma Natal que era pouco mais do que uma fazenda iluminada, se reunia, não apenas para adquirir livros, mas para se atualizar acerca das novidades literárias que eram publicadas em revistas como A Cigarra, O Tico-Tico e O Malho.

Em um tempo que os filmes eram mudos, também foi, naquelas sessões do Royal Cinema, que figuras fundamentais da música potiguar iniciaram suas carreiras, sentados ao piano, embalando com suas melodias, os filmes de D. W. Griffith, Chaplin e Buster Keaton.

Nomes como o do maestro Waldemar de Almeida, da pianista Generosa Garcia e do grande compositor Tonheca Dantas, autor da valsa que leva o nome do cinema (administrado pelo empresário Petronilo de Paiva) e que se tornou mundialmente conhecida por ter sido executada durante a guerra (sem a atribuição de autoria, diga-se de passagem) pelas ondas da rádio BBC, de Londres; foram personagens centrais das tertúlias cinematográficas daquela Natal do nunca mais.

O livro traz também uma importante recuperação da história do movimento cineclubista na cidade, especialmente do Cine Clube Tirol, que começou em 1961, ainda no auditório do Colégio Marista, por influência do Padre Manoel Barbosa e que depois foi transferido para o salão paroquial da Igreja Santa Terezinha. O Cine Clube Tirol foi central na história do audiovisual potiguar, não apenas por ter congregado em suas sessões nomes como Bené Chaves, Jarbas Martins, Alderico Leandro, Moacyr Cirne, Falves Silva, Franklin Capistrano (AKA meu pai) entre outros; mas fundamentalmente por ter ajudado a construir uma “cena cinéfila” na cidade. Envolvidos com a divulgação e a crítica cinematográfica (por meio de um programa na Rádio Rural e por boletins impressos com crítica de filmes) os membros do Cine Clube Tirol também foram pioneiros no audiovisual da cidade, tendo produzido alguns curtas metragens experimentais, ainda nos anos 60 e atuando na instalação das sessões do chamado “Cinema de Arte”, que marcaram época aqui na capital.

Para quem, como eu, nasceu nos anos 70, o livro também tem um apelo afetivo muito presente, não apenas porque recupera a memória de espaços como o Rex e o São Pedro (cinemas que frequentei, com meu pai, na infância), mas também porque traz à lembrança o papel central, especialmente para as pessoas de minha geração (a última geração de adolescentes do mundo analógico) de vídeo-locadoras como a Canal Um, Vitória Régia, Cine Stop Vídeo (do cineclubista Bené Chaves) e FM Vídeo.  

Muito além de ser um livro sobre a história dos cinemas mais famosos da Cidade Alta, como o Nordeste (o mais charmoso de todos) e o Rio Grande (o maior e mais imponente), a narrativa de Peixoto atravessa também o perfil de figuras humanas inesquecíveis, como a do incontornável escritor Inácio de Magalhães Sena (o bispo de Taipú) que, nascido lá no vale do Ceará Mirim, foi provavelmente o maior cinéfilo que já caminhou pelas ruas da capital potiguar.

De quebra, a edição, com projeto gráfico e capa de José Clewton do Nascimento e fotografias de Cícero Oliveira, traz não apenas um mapa com a localização dos principais pontos citados no texto (cinemas, vídeo locadoras, bares e lanchonetes), mas também um bom conjunto de fotografias e desenhos com referência a esses espaços.

Enfim, para uma cidade como Natal, que padece de uma espécie de “doença do presente” e sempre se esforça em esquecer do que já foi para nunca compreender o que realmente é, obras como essa, que nos chega pelo Selo Caravela Editorial, são fundamentais, especialmente nesta época, na qual nosso velho centro, abandonado pelo promíscuo e inclemente fluxo do capital (que ergue e destrói coisas belas), desponta como uma ruína arqueológica para o futuro. Um artefato de memória que se fragmenta diante de nossos olhos, sempre embotados por esse fluxo tempestuoso que chamamos “progresso”.

PS.: Para quem se interessou pelo texto, o livro está sendo vendido na Cooperativa do Campus da UFRN e pode ser encomendado pelo Whatsapp (84) 988189538 ; assim como também no Sebo Gajeiro Curió no mercado público de Petrópolis.

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Pablo Capistrano

Escritor, professor de Filosofia e Direito do IFRN. Dramaturgo do grupo Carmin de Teatro.

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