Discurso sobre o colonialismo
Autor: Aimé Césaire
Tradução: Cláudio Willer
Editora: Veneta
Ano: 2020
Páginas: 132
“A Europa é indefensável”. De fato… no que diz respeito aos holocaustos coloniais produzidos em larga escala por países europeus nos últimos 500 anos, essa afirmativa, contundente e taxativa, não parece exagerada. O ensaio: “Discurso sobre o colonialismo”; escrito pelo poeta martinicano, Aimé Césaire, e publicado pela primeira vez em Paris no ano de 1950, pela Éditions Réclame, deixa bem à mostra a arquitetura de pensamento que faz com que essa frase, repetida em memes, posts ou comentários, neste circo romano digital que atende pela alcunha de “rede social”, não seja apenas uma mera hipérbole.
Ligado ao movimento surrealista de André Breton e ao partido comunista francês, Aimé Césaire foi um personagem central da luta política anti racista e anti colonial do século XX. Ao publicar, em 1935, na revista L´étudiant noir, um artigo intitulado Nègreries: conscience raciale et révolution sociale, Césaire foi responsável pela construção da noção de “negritude”, utilizada e popularizada posteriormente por Léopold Sédar Senghor (primeiro presidente do Senegal livre). Como se não bastasse isso, o poeta também foi uma figura fundamental na formação intelectual de Frantz Fanon que, seguindo seus passos, construiu uma das obras mais densas e contundentes sobre os efeitos do racismo e do colonialismo no mundo contemporâneo.
Considerado por muitos críticos como o maior poeta em língua francesa do século XX, o autor desse ensaio clássico, teria produzido também, no julgamento de pessoas como o historiador C. L. R. James “o mais selvagem ataque contra a sociedade burguesa que eu já vi em versos”.
De fato, amigo velho, esse ensaio fundamental da luta anticolonial é uma porrada. Especialmente porque, no contexto em que o livro foi publicado, logo após a hecatombe das duas grandes guerras mundiais e no esteio da debacle do nazi fascismo mundo afora, seu impacto e o mal estar que suas ideias causaram no mundo intelectual francófono, foi desconcertante.
Esse mal estar já havia sido sentido dois anos antes da publicação do livro quando, em 1948, Césaire, “por equívoco” fora convidado a escrever sobre a colonização, a união francesa e as províncias do ultramar na revista conservadora Chemis du Monde. Desde de 1945, eleito deputado do parlamento francês pela Martinica, Césaire já promovia a denúncia dos massacres perpetrados pela França em suas colônias, escandalizando as elites políticas parisienses que aguardavam, de sua parte, uma postura de reconhecimento agradecido por ter recebido, mediante a colonização francesa, “as luzes” de uma Europa esclarecida.
Em seu artigo de 1984, já se antecipava a força retórica e a agudeza crítica do seu pensamento, quando o poeta afirmava: “não, a colonização não leva a civilização ao povo oprimido. Ao contrário, ela desumaniza o homem, tanto o colonizador quanto o colonizado.”
Antecipando uma ideia, calçada na dialética hegeliana, que Fanon também vai aplicar em seus textos, a obra de Césaire aponta o dedo na cara da alta cultura europeia, fazendo uma espécie de autópsia crítica do humanismo iluminista que seria o esteio daquela nova Europa democrática de Konrad Adenauer, Robert Schuman e Georges Bidault.
O que o poeta nos mostra é que ninguém coloniza inocentemente, ninguém coloniza impunemente. Para demonstrar isso, neste ensaio publicado no Brasil pela editora Veneta com tradução de Claudio Willer, o poeta promove uma espécie de profilaxia ideológica da intelectualidade francesa dos séculos XIX e XX, analisando autores como Yves Florence, Joseph de Maistre, Arthur Gobineau, George de la Pouge, Pierre Gourou e até Claude Levi-Strauss (que nos anos de 1930 andou aqui pelos sertões brasileiros e escreveu um clássico da antropologia do século XX o “Tristes Trópicos”)..
Ao passar a limpo as principais referências das ciências sociais francófonas de seu tempo, Aimé Césaire acaba por reforçar a tese da indefensabilidade do projeto “civilizacional” europeu, e consolidar a noção de que: “o empreendimento colonial é, no mundo moderno, o que foi o imperialismo romano no mundo antigo: o preparador do desastre e o precursor da catástrofe”. Isso porque, na sua visão, os efeitos do nazismo, sentidos pelos povos europeus no solo de seu próprio continente, não apenas foram tolerados, mas também praticados por esses mesmos europeus, nas Américas, África e Ásia.
Sabendo das leituras e da influência que as obras do escritor alemão Karl Friedrich May produziram no imaginário do jovem Adolf Hitler e da admiração que o líder do terceiro Reich tinha para com o projeto de expansão, patrocinado pelos seus primos saxões nos EUA, com sua marcha para oeste e com ampliação do “espaço vital” (Lebensraum) dos WASP (White, anglo-saxan, protestant) mediante limpeza ética, escravização e genocídio; não é de se espantar que o projeto nazista tenha feito recair sobre a Europa a mesma fúria genocida que os países europeus protagonizaram em suas colônias.
No fim das contas, o escopo desse texto, fundamental para os chamados “estudos decoloniais”, se alavanca na aposta de que: “valeria a pena estudar, clinicamente, em detalhes, os passos de Hitler e do hitlerismo e revelar ao burguês muito distinto, muito humanista e muito cristão do século XX que ele carrega consigo um Hitler sem saber (…)”.
A edição brasileira da Veneta, que conta ainda com belíssimas ilustrações de Marcelo D´Salete, traz também uma cronologia biográfica de Rogério de Campos, que situa Césaire, não apenas no intervalo de sua vida, mas no contexto dos processos históricos que constituíram seu pensamento e definiram sua poesia.
Campos faz algo muito interessante com essa cronologia: inicia o roteiro da vida do poeta em 1493, quatro séculos antes de seu nascimento, na data em que Cristóvão Colombo chega na Martinica e acaba por atravessar os principais acontecimentos históricos que marcaram a presença colonial no Caribe antes de chegar em 26 de Julho de 1913, data de nascimento de Césaire.
Só assim, olhando o homem para além de seu próprio tempo, a gente pode ter uma noção dos processos históricos que impulsionaram a potência desse texto, que, antes de ser uma avaliação científica do racismo e do colonialismo, marcada pela fria audácia do conceito, é uma calorosa denúncia dos crimes e da violência racial que o capitalismo colonial desta era moderna nos legou. Uma violência que não podemos esquecer, especialmente nesses tempos de revisionismos históricos e de genocídios transmitidos ao vivo em postagens do tick tock. Algo que o poeta já previa quando afirmava: “(…) não nos livrarmos tão facilmente dessas cabeças de homens, dessas colheitas de orelhas, dessas casas queimadas, dessas invasões góticas, deste sangue fumegante, dessas cidades que evaporam na ponta da espada”.
