Dez mulheres filósofas e como suas ideias marcaram o mundo
Autor: Armin Strohmeyr
Tradução de Kristina Michahelles
Editora: Record
Ano: 2022
Páginas: 320
Desde quando comecei a estudar filosofia profissionalmente, há trinta anos, encontrei, pelas estantes dedicadas à aventura filosófica espalhadas por esses sebos e livrarias que frequentei, poucas edições de livros escritos por pensadoras.
Tirando Simone de Beauvoir e Hannah Arendt, praticamente nada aprendi, nos bancos universitários, entre aulas, palestras, minicursos e seminários, dos meus anos de graduação até os do meu estágio de pós-doutoramento, sobre as mulheres que ajudaram a construir e consolidar a aventura filosófica do Ocidente.
Esse tipo de déficit no ensino de filosofia, circunscrito em um cânone tradicional amplamente masculino, ajuda a passar a impressão equivocada de que a filosofia não é um território propício para as mulheres. Para elas, como trabalho intelectual no campo das letras, restaria o verbo poético e as incursões no mundo da literatura, ao passo que, no território da “fria audácia do conceito”, os homens reinariam absolutos.
Nos últimos anos, no entanto, essa tendência de apagamento da presença feminina no campo da experiência filosófica vem arrefecendo, com o surgimento, aqui e acolá, não só de traduções e publicações de filósofas, mas também com o aparecimento de livros introdutórios como este, publicado na Alemanha em 2021 e escrito pelo doutor em estudos germânicos e jornalista freelancer especializado em biografias, Armin Strohmeyr.
Lançado recentemente no Brasil pela editora Record, o livro de Strohmeyr, que já escreveu sobre Klaus Mann, George Sand e Annette Kolb, traz, em pequenos ensaios biográficos, a memória e a notícia da contribuição, para a história da filosofia ocidental, de dez pensadoras.
O recorte que o autor construiu parte da escolástica medieval com a figura de Heloísa (que foi aluna de Pedro Abelardo) lá no século X e aporta em Jeanne Hersch (pensadora suíça de origem judaico-polonesa) no século XX.
De cara percebi duas coisas curiosas, logo quando folheei o livro antes de comprá-lo, ainda na livraria: a ausência de pensadoras da antiguidade (como Hipátia de Alexandria) e a concentração dos nomes listados nas tradições alemã e francesa.
Uma das explicações possíveis para essa opção eurocêntrica (e filos germânica) pode ser o fato do autor ter se graduado na universidade de Augsburg em “ciências da literatura” (Literaturwissenschaft), com ênfase nas letras da Alemanha e da França. Posteriormente, avançando na leitura dos perfis, saquei também o motivo pelo qual esse recorte se impõe no curso do texto: em muitas passagens o autor não esconde uma visão marcada por certo conservadorismo católico, aliado a um anticomunismo escancarado; o que explicaria, por exemplo, a presença de um capítulo sobre Ricarda Huch e a ausência de qualquer menção mais aprofundada a Rosa Luxemburgo.
Outro ponto que me incomodou um bocado, foi um certo cacoete do autor de gastar um número demasiado de parágrafos discorrendo sobre a vida sentimental das filósofas que analisa, algo que passa completamente ao largo quando falamos sobre a biografia de filósofos barbados (ou bigodudos). Esse tipo de redução do pensamento feminino ao “tópico do amor” é um negócio irritante, mesmo que muito habitual nas biografias de pensadoras como Heloísa (reduzida sempre a uma atriz coadjuvante na “catástrofe” digna de telenovela mexicana do castrado Pedro Abelardo); Hannah Arendt (cujo caso com Martin Heidegger é sempre superdimensionado) e Simone de Beauvoir (sendo constantemente nomeada como a “companheira de Sartre”).
Além de Hipátia de Alexandria (executada por fanáticos cristãos no século V) uma outra ausência notável é a de Elizabeth da Boêmia, a princesa alemã que, em sua correspondência com René Descartes, no século XVII, formulou o problema mente-corpo e lançou as bases para a criação da chamada “filosofia da mente”, a partir do diagnóstico das inconsistências teóricas do dualismo cartesiano. Acho que a princesa Elisabeth mereceria algum espaço nesse livro, nem que fosse uma menção no tópico que introduz as pensadoras modernas.
A despeito dessas ressalvas (que parecem ter a ver com a visão de mundo do autor e com o seu próprio recorte canônico) o livro é muito interessante para servir como um guia introdutório para quem quiser saber mais sobre a contribuição de algumas das principais filósofas ocidentais. Figuras importantíssimas que sempre passam ao largo dos currículos das graduações de filosofia, como Hildegard von Bingen, Edith Stein e Simone Weil.
O meu destaque fica para o capítulo sobre Cristina de Pisano que, no século XIV, viúva e mãe de família, acabou sendo uma das primeiras autoras europeias a viver, em um ambiente de capitalismo recém nascido, da venda de seus textos, rompendo corajosamente com a imposição medieval de ter de se enfurnar em um convento para ter o direito de escrever.
Outro ponto positivo é a recuperação da figura fundamental de Emilie Du Châtelet, que foi tradutora de Newton para o francês e que introduziu as ideias de Leibniz no mundo intelectual de Paris, durante o auge do iluminismo. Du Châtelet escreveu “Discurso sobre a felicidade”, uma obra central para o pensamento político moderno, que influenciaria de maneira definitiva as perspectivas liberais no século XIX. Largamente considerada como uma das maiores pensadoras da França no século XVIII, Châtelet foi, aos poucos, tendo seu papel no iluminismo europeu reduzido, se transformando, no século XIX, em um “apêndice biográfico” de Voltaire (de quem foi amante). Uma injustiça profunda para uma mulher que marcou significativamente o pensamento iluminista na França.
Um outro ponto positivo é que o livro, na sua edição brasileira, ganhou um posfácio escrito pela professora Nastassja Pugliesi, sobre as pensadoras brasileiras, com um destaque todo especial para a nossa Nísia Floresta. Além disso, o posfácio apresenta uma discussão interessante sobre o papel das mulheres naquilo que Pugliesi aponta como uma espécie de “iluminismo tardio” no Brasil do século XIX. Confesso que foi uma alegria para mim, natalense da gema, ver esse destaque dado a Nísia Floresta que, a despeito de ter vivido a maior parte de sua vida fora do território potiguar, é, sem nenhuma sombra de dúvidas, a mais importante e influente figura intelectual que o Rio Grande do Norte pôs na terra.
No fim das contas, o livro de Strohmeyr me parece ter uma boa serventia como um começo, pra quem quer desconstruir a ideia de que, nesses milênios de filosofia ocidental, a busca por essa tal “fria audácia do conceito” é um assunto restrito a um punhado de machos barbudos e seus simpatizantes.
