A melhor cerveja do mundo! (não existe!)

melhor-cerveja

PIX: 007.486.114-01

Colabore com o jornalismo independente

Saudações, cervejeiros!

Apesar de o título da chamada do texto de hoje dar a entender que falaremos de uma suposta “melhor cerveja do mundo”, vamos cortar logo as expectativas e enunciar que ela não existe. Tal premissa equivale a responder, objetivamente, e sem nenhuma outra ponderação se uma determinada cerveja “é boa”? Afinal, a resposta a tal questionamento sempre pode ser sim ou não, isto é, o mais adequado é sempre responder com um sonoro e eloquente: depende!

O fato de não existir “a melhor cerveja do mundo”, não quer dizer que você mesmo, leitor, não possa eleger uma cerveja, em específico, para ocupar o posto mais alto de todas as prateleiras cervejeiras. Todos nós temos predileções, não há pecado algum em tal ato volitivo. Inobstante, o que isso significa é que não existe um postulado universalmente válido para que, dentre os mais variados estilos cervejeiros, alguém tenha a pretensão de eleger uma cerveja como sendo a melhor do mundo.

É justamente sobre todas essas nuances de escolha e de estilo que vamos trabalhar o tema de hoje, para concluir que o título, tal como proposto, pode até ser habilidoso para atrair a atenção da maioria das pessoas. Todavia, factualmente, ele jamais será capaz de prover aquilo que alardeia, ou seja, a indicação de uma cerveja como sendo, estrita e derradeiramente, a melhor cerveja do mundo.

As melhores experiências nem sempre são com as melhores cervejas

Tal como já abordado e dito algumas outras vezes ao longo dos textos semanais sobre cerveja escritos no blog, o ato de degustar cervejas artesanais é algo que envolve bastante esmero, e, pequenas mudanças na análise sensorial, podem comprometer ou alterar de maneira indelével o resultado do que foi apreciado. O panorama descrito, por si só, já garante que uma análise gustativa feita por uma pessoa (por mais bem treinada que ela seja) seja diferente da feita por uma outra pessoa. Até mesmo “estado de espírito” do degustador no dia já pode fazer com que a análise possua alguma divergência comparativa.

Por vezes, estar aberto (ou não) a um estilo cervejeiro com o qual você tem uma menor (ou maior afinidade) poderá influenciar se a sua experiência cervejeira foi satisfatória. Claro, nem todas as experiências são fabulosas, já que nem todas as cervejas provadas ou degustadas necessariamente são boas, maravilhosas, ou estupendas, e também sempre há a gradação em agradar mais ou ainda mais, entre umas e outras. Dito de outra maneira, mesmo uma cerveja sendo boa, é possível que se deguste, sequencialmente, uma que seja ainda melhor que ela. Isso não gera um demérito relativo, e sim, um enriquecimento na experiência de provar cada vez mais novos rótulos, e também enriquece ainda mais a empreitada com novos aromas e sabores.

Às vezes, a variedade de experiências cervejeiras pode ser aplicada a uma mesma cerveja, de um mesmo lote, de um mesmo ano (mas com lote diferente, por exemplo). Eventualmente, um pequeno defeito de vedação na tampa pode estragar a experiência de uma cerveja outrora degustada e classificada na ocasião anterior como maravilhosa. Assim, uma pequena tampinha pode mudar o curso da experiência gustativa e fazer com que o resultado não seja dos melhores.

Ou seja, se nem mesmo entre cervejas de uma mesma marca e modelo é possível se ter um consenso, a partir da mudança temporal que pode incidir sobre o exemplar degustado, muitas outras variantes também podem influenciar e serem relevantes quando se fala de uma infinidade de tipos de cerveja, de variedades de local, de acondicionamento, de capacidade de percepção e muitos outros fatores que impedem que se chegue objetivamente à “melhor cerveja do mundo”.

As melhores experiências nem sempre revelam as melhores cervejas, ao passo que, concomitantemente, as melhores cervejas nem sempre se desvelam no mesmo compasso em que os momentos mais significativos são experimentados. Não existe uma correlação necessária entre ambos, o que acaba fazendo com que aquilo que gostamos mais, não seja, exatamente, o retrato fiel do que é “melhor”, em termos estritamente técnicos, de avaliação e de análise sensorial. Tal dissociação impacta, sobremaneira, qualquer pretensão de se julgar uma cerveja como “melhor”, em termos absolutos e derradeiros pela experiência obtida.

Horas-copo: cada um tem sua bagagem cervejeira

Existe um termo no meio cervejeiro do qual eu não sou particularmente fã, mas, que na impossibilidade de se usar outra nomenclatura que seja mais fiel em retratar a realidade, vamos utilizar: o conceito de horas-copo. Esse conceito é útil e vem a calhar, logo, vamos nos valer dele para desenvolver algumas ideias cervejeiras a seguir.

O conceito de horas-copo pode ser sintetizado como sendo a quantidade de tempo e a profundidade de estudo dispendido com análise sensorial de estilos cervejeiros. A terminologia cervejeira em apreço é muito importante para sinalizar a capacidade que o degustador possui em avaliar os estilos e emitir uma opinião abalizada sobre a cerveja experimentada. Nem todos estamos no mesmo nível, alguns tem mais horas-copo que outros e isso é natural.

Devemos salientar, no entanto, que horas-copo não significa nem apenas a quantidade de cerveja consumida, tampouco o tempo que se destina apenas a beber cervejas. Ambos os parâmetros podem soar imprecisos, caso sejam tomados de maneira separada e sem a devida ponderação de como podem ser combinados para representar a capacidade de se emitir um juízo de valor que corresponda ao que foi degustado.

Primeiramente, a quantidade de cervejas bebidas não necessariamente vai ser traduzida em horas-copo que simbolizem uma apuração técnica em julgar estilos de cerveja. Ou seja, uma pessoa que degustou ao longo de 10 anos apenas cervejas de massa, como Skol e Brahma, no máximo uma Heineken ou Stella Artois que ele “filava” dos amigos nos churrascos, não possui a mesma bagagem de horas-copo que alguém que passou “apenas” 2 anos degustando estilos variados, como IPA’s, Porter’s, Stout’s e Bock’s… dentre muitos outros.

Noutra banda, apenas o tempo, sem levar em consideração a variedade de estilos cervejeiros, ou a quantidade de cervejas degustadas também pode não revelar muita coisa. Apenas dedicar muito tempo a degustar, sem o devido aprofundamento em termos teóricos, pode apenas significar que a apreciação cervejeira é feita despretensiosamente (o que não é errado, do ponto de vista que cada um bebe sua cerveja como quiser, e da forma que lhe aprouver melhor). Não é um erro beber (ou até mesmo “degustar”) despretensiosamente, o único efeito “negativo” de tal abordagem é que não se pode falar em horas-copo contabilizada.

Beber despretensiosamente, pelo acúmulo de experiências e de estilos, pode levar a algum conhecimento empírico. Todavia, sempre haverá uma lacuna teórica a ser preenchida. Tal lacuna é irrelevante caso seu intuito seja unicamente bebericar do líquido das multidões, sem se importar muito em entender as pequenas nuances envolvidas no processo de análise técnica.

Resumidamente, horas-copo são um conjunto integrado de oferta de boas cervejas, interesse em ter uma amplitude maior de conhecimento e dedicação em perscrutar e degustar vários estilos. Tudo isso requer não apenas dedicação e interesse, bem como também uma boa dose de pesquisa, uma condição financeira que lhe permita se aprofundar no mundo da cerveja artesanal, e claro, bom gosto, afinal, nem sempre o capital financeiro (ou melhor dizendo, a quantidade de dinheiro que se tem – e todos gritam: Ave, Mammon!) vem acompanhado de capital cultural (bom gosto, às vezes, não se compra). Afinal, quem nunca conheceu aquele “tio rico” que dirige uma BMW mas só bebe Skol (com gelo ainda mais)?

Ps. O personagem mencionado é meramente fictício, mas, eventualmente, a vida imita a arte.

Uma infinidade de estilos cervejeiros… e não existe um estilo melhor que outro!

Por mais que uma boa bagagem cervejeira representada por muitas horas-copo possam avalizar uma degustação devidamente apreciável em termos técnicos, não há como se garantir que uma cerveja possa ser eleita como “a melhor cerveja do mundo”. Essa é uma pretensão que transborda os limites do aceitável.

melhor-cerveja-do-mundoDiante de uma variedade quase que infindável de estilos de cervejas tão díspares entre si, como comparar uma IPA com uma Stout? Ou uma Lambic com uma Bock?

Dizer que existe uma cerveja digna de ser considerada “a melhor cerveja do mundo” equivale a dizer que um estilo é melhor do que o outro, algo que certamente não procede. É correto apenas se comparar cervejas dentro de um mesmo estilo, com uma mesma proposta, ou até mesmo as cervejas que se enquadram no seu gosto pessoal. Todavia, essa comparação não dá azo a se dizer que uma cerveja x é melhor que a cerveja y, principalmente quando elas são comparadas em parâmetros diversos. Daí não ser possível eleger uma melhor dentre todas (as possíveis).

Ainda assim, não é raro ver algum anúncio marqueteiro dizendo que tal cerveja foi eleita “a melhor do mundo”. Até havia antigamente o hoax que a Delirium Tremens, a famosa cerveja do elefante rosa, era reconhecida internacionalmente como a melhor cerveja do mundo. Não obstante, isso não passa de uma lenda. Ela é uma boa cerveja, um ícone no seu estilo (Strong Golden Ale), pode já ter recebido muitas medalhas em vários concursos de cerveja, no entanto, o epíteto de “melhor cerveja do mundo” é flagrantemente improcedente para ela (e para qualquer outra que se venda de tal maneira).

Derradeiramente, ao se falar dos mais variados estilos e da possibilidade de se pensar em escolher uma cerveja como a melhor do mundo, é importante finalizar dizendo que o fato de uma cerveja agradar (ou não) ao seu paladar não é um norte qualitativo. Dito de outra forma, não é porque você gostou de uma determinada cerveja que isso significa que ela é boa. O inverso também é verdadeiro, você pode até não gostar da cerveja e ela ser excepcional, é provável que você não tenha bagagem de horas copo suficiente para apreciar toda sua pujança (ou simplesmente gostar do estilo, caso ele seja pouco acessível).

Saideira

Podemos concluir, sem sombra de dúvidas, que não existe uma cerveja que possa ser escolhida como a “melhor do mundo”. Além de não existir, podemos afirmar categoricamente que essa escolha estritamente feita do ponto objetivo de análise é simplesmente impossível de ser feita. Podemos trabalhar em cima das hipóteses de escolhas pessoais, de estilos de cervejas e de propostas cervejeiras diversas para selecionar as melhores em cada quadrante. Porém, escolher uma única cerveja para preencher todas essas categorias é mais do que impossível, soa como um verdadeiro charlatanismo cervejeiro feito apenas para ludibriar os incautos.

Ademais, não vou nem entrar em tópicos que poderiam render artigos em separado dedicados apenas a tratar sobre eles: as cervejas que ganham medalhas em concursos, e publicações hoax espalhadas por tiozão do zap zap dizendo que cerveja tal foi escolhida a melhor do mundo. Cada um desses tópicos possuem suas particularidades, e eles não se encaixam exatamente nas premissas elementares do texto de hoje, que diz muito mais respeito à experiência particular de cada um em analisar e degustar as cervejas a partir de suas próprias vivências no mundo da cerveja artesanal.

Recomendação musical para degustação

A melhor cerveja do mundo simplesmente não existe. Mas, o que pode existir é a melhor experiência possível que você pode ter ao degustar uma infinidade de cervejas.

Nesse compasso, a recomendação musical de hoje vai nessa esteira, com a música Best of You da banda americana de Rock Alternativo Foo Fighters. Deposite suas expectativas analíticas em si, e não nas cervejas, pois, caso o contrário, a chance de decepção é grande em busca da “melhor cerveja do mundo”.

Tente sempre tirar o melhor de si a cada experiência cervejeira!

E, acumulemos horas-copo!

Saúde!


FOTOS: postadas no site Pão de Açucar.

Lauro Ericksen

Lauro Ericksen

Um cervejeiro fiel, opositor ferrenho de Mammon (מָמוֹן) - o "deus mercado" -, e que só gosta de beber cerveja boa, a preços justos, sempre fazendo análise sensorial do que degusta.
Ministro honorário do STC: Supremo Tribunal da Cerveja.
Doutor (com doutorado) pela UFRN, mas, que, para pagar as contas das cervejas, a divisão social do trabalho obriga a ser: Oficial de Justiça Avaliador Federal e Professor Universitário. Flamenguista por opção do coração (ou seja, campeão sempre!).

Sigam-me no Untappd (https://untappd.com/user/Ericksen) para mais avaliações cervejeiras sinceras, sem jabá (todavia, se for dado, eu só não bebo veneno).

A verdade doa a quem doer... E aí, doeu?

WhatsApp
Telegram
Facebook
Twitter
LinkedIn

2 Comments

  • Filipe maltez de farias

    Heineken a melhor . Tem status certo . Essa matéria deve ser da concorrência. Uma merda de matéria bebo Heineken pq é boa e a melhor .

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais lidas da semana

Sergio Vilar
Visão geral da privacidade

Este site usa cookies para que possamos fornecer a melhor experiência de usuário possível. As informações de cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.