Bruce Springsteen

A depressão de Bruce Springsteen

Próximo mês Bruce Springsteen completa 70 aninhos. É dos meus preferidos. A energia do “the boss” nos palcos, junto à sua lendária Street Band, só me é comparável a James Brown. Para conhecer mais e além do lado artista, dos 20 grammys recebidos e quetais, li sua recente autobiografia Born To Run. E é surpreendente que por trás de toda aquela força demonstrada nos palcos havia uma depressão aguda. Fiz questão de transcrever trechos em que ele descreve momentos dessa fase, hoje curada, segundo ele. São três páginas de um relato cru, transparente do que chamam de mal do século.

“(…) Pouco depois de fazer 60 anos, caí numa depressão como não sentia desde uma noite empoeirada no Texas, 30 anos atrás. A depressão durou um ano e meio, e me destroçou. Normalmente, são poucos os que notam que estou dominado por esse humor (…) Nessas alturas, posso ser bastante cruel: corro, sou dissimulado, saio de mim mesmo, desapareço, volto, raramente peço desculpas (…)

No início pensei que a depressão se devesse a todas as mortes que me rodeavam. No entanto, por mais que amasse todas essas pessoas, sou capaz de suportar a morte; a depressão se devia a uma outra… coisa. A tal coisa que analisei e contra a qual lutei durante a maior parte dos meus 65 anos. Surge por entre a escuridão ou em plena luz do dia e recorre sempre a uma máscara sutilmente diferente, tão discreta que algumas pessoas como eu, que a conheceram e a combateram várias vezes ao longo da vida, a recebem como uma velha amiga. Depois, se instala de novo bem fundo na mente; no coração e na alma, até, por fim, depois de levar a cabo a sua destruição, ser repelida.

A medicação antidepressiva é temperamental. Por volta dos meus 59, 60 anos, reparei que o composto que tomava parecia ter deixado de fazer efeito (…). Depois da morte do dr. Myers, meu terapeuta durante 25 anos, comecei a me consultar com um novo médico com quem me dava muito bem. Tomamos a decisão conjunta de parar a medicação que eu seguia há cinco anos e ver qual o resultado… TEATH TO MY HOMETOWN!!! Mergulhei de cabeça, como o cavalo que mergulhava no velho cais de Atlantic City, entrando numa piscina de mágoa e lágrimas de enormes proporções.

Quando isso me aconteceu, no entanto – eu não queria parecer muito carente -, ocultei a seriedade dos meus sentimentos da maior parte das pessoas à minha volta, incluindo o meu médico. Fui capaz de agir assim, sem problemas, durante algum tempo, e teria sido totalmente bem sucedido não fosse por um estranho fenômeno: LÁGRIMAS! Baldes, oceanos delas, lágrimas negras e frias que me escorriam pela cara abaixo como a corrente de água que cai sem cessar nas cataratas do Niágara. A que se devia tudo aquilo? Era como se alguém tivesse aberto uma comporta e fugido com a chave. NÃO havia meio de parar. Lágrimas do tipo assistindo a Bambi… lágrimas do tipo assistindo a O meu melhor companheiro… lágrimas do tipo assistindo a Tomates verdes fritos… Chuva… lágrimas… sol… lágrimas…. Não encontro as chaves…. lágrimas. O acontecimento mais vulgar, qualquer pequeno solavango na estrada dos sentimentos tornava-se motivo para que tudo desabasse. Até podia ser engraçado, só que não foi.

As coisas mais insignificantes transformavam-se em razões para uma crise existencial destruidora que me fazia sentir um faltalismo horrivelmente profundo, e também uma certa tristeza. Estrava tudo perdido. Tudo… todas as coisas… o futuro era negro… e a única forma de aliviar o fardo que sentia sobre as costas era acelerar minha moto a centro e tantos quilômetros por hora, ou fazer outras atividades inquietantes. Era ser imprudente comigo mesmo. O esforço físico extremo estava na ordem do dia e era uma das poucas coisas que me ajudavam. Esforcei-me como nunca levantando pesos e percorri, de stand up paddle, o equivalente ao oceano Atlântico – tudo em troca de alguns momentos de alívio. Seria capaz de fazer qualquer coisa para afastar do meu rabo os dentes do cão preto, esse símbolo tão expressivo da depressão, segundo Churchill.

(…)

Disse qo meu médico que não podia continuar a viver assim. Eu ganhava a vida fazendo shows, dando entrevistas, sendo observado de perto. E bastava alguém dizer “Clarence” para tudo desabar. Assim, ele teve a sabedoria necessária para me encaminhar para um psiquiatra. Patti e eu consultamos o médico e nos deparamos com um cavalheiro com cerca de 60 anos, enérgico, cabelo branco, acolhedor, porém, muito profissional. Sentei-me e, claro, desfiz-me em lágrimas. Fiz-lhe um gesto com a mão; olhe, é essa a minha vida. É por isso que aqui estou. Não consigo parar de chorar! Ele olhou para mim e disse: “Nós já resolvemos isto.” Três dias e um comprimido depois, a torneira fechou-se de repente. Inacreditável. Voltei a ser quem era. Já não precisava mais de stand-up paddle, exercícios, entrar em brincadeiras perigosas ou desafiar o destino. E não precisava mais das turnês. Sentia-me normal.”

Sobre o autor

Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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