TERRA ESTRANGEIRA: Na cena das cidades, a casa da linguagem

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Santiago de Compostela – Espanha, 26 de Janeiro de 2018.

O sol apareceu por esses dias com a timidez de costume, por entre as nuvens do Porto. Apesar da parcimônia com que o astro rei derrama suas luzes sobre a cidade, o rio Douro estava particularmente iluminado, com a revoada de gaivotas a zanzar por sobre suas águas antigas, que traziam o vinho do velho vale até as cales onde eram engarrafados e ganhavam o mundo em barris de carvalho. Animados com o fato de, pelo menos, não estar chovendo, passamos os dois últimos dias batendo perna pela cidade.

Já estamos há tanto tempo por aqui que conseguimos ciceronear bem a nossa amiga, Helena Deick, que chegou do sul da Alemanha para passar uma temporada conosco no norte de Portugal.

No primeiro dia, para manter a tradição germânica ativa, criamos uma programação com longas caminhadas. Passamos primeiro pela rua do Campo Alegre até o Palácio de Cristal e depois descemos por Miragaia até os jardins da Cordoaria e a Torre dos Clérigos, onde subimos os 225 degraus da velha construção para ganhar, lá em cima, uma magnífica vista em 360º da cidade. Depois descemos pela Rua das Flores até a Ribeira e atravessamos pela antiga ponte de metal até Gaia.

Ontem, optamos por seguir para outro lado, subindo pela rotunda da Boavista até a rua da Cedofeita e de lá, descendo até a livraria Lello, que, por sorte, estava fazendo aniversário e por isso não cobrava ingresso para entrar. De lá subimos pela praça dos Aliados até a rua Santa Catarina para tomar um café no Majestic – mesmo nome do café que o poeta Jorge Fernandes, (primo legítimo de minha bisavó paterna – Dona Joana Fernandes de Macêdo), possuía no centro de Natal no começo do século passado.

Confesso que fiquei incomodado na livraria (o que, para mim, não é muito usual). Na verdade é praticamente impossível garimpar sossegado um livro qualquer na Lello tal a quantidade de turistas que visitam o local para tirar fotos do seu magnífico vitral de teto e posar diante da sinuosa e “escheriana” escada que dizem ter inspirado a escritora britânica J. K. Rowling na descrição das escadarias de hogwarts.

A culpa por todo aquele furdunço na livraria (uma das mais belas que eu já visitei, preciso confessar) é mesmo de Harry Potter. Foi o sucesso de sua série, na virada do século, que transformou a Livraria Lello num polo turístico do Porto. Com aquele estilo art nouveau afrancesado, a Lello seria apenas mais uma dessas livrarias belas e antigas, que faz parte de uma dessas “cidades-museu” que se espalham pela Europa, se a mitologia em torno da inspiração da escritora britânica, que morou no Porto no começo dos anos 90, não tivesse transformado o lugar em um espaço quase religioso de peregrinação para os fãs da série.

Para mim isso é apenas mais um incômodo do que uma vantagem, porque, no íntimo, sempre enxerguei as livrarias como espaços de peregrinação e uma das coisas que faço com um hábito praticamente litúrgico é garimpar livros por todos os lugares que eu passo. Sempre senti que a grande estrela em uma livraria é o livro e, por mais que a arquitetura e a decoração sejam notáveis (ainda mais com uma bandinha de Jazz old school tocando ao vivo) nada naquele lugar dá algum significado que transcenda o significado de um livro achado por acaso entre suas prateleiras.

O caso do café Majestic (não o de Natal, mas o do Porto), também me soou semelhante. O espaço me pareceu mais um daqueles lugares preparados para abrigar turistas, com um ambiente também art noveau marcado pelas mesas cheias de sobremesas servidas com vinho do Porto, sorvido ao som de um piano tocado no meio do café.

Tudo preparado demais para ser real.

Mas isso parece ser a tônica desse novo Portugal que emergiu após a crise da troika. A cidade do Porto, por exemplo, me parece ter sido repaginada para sair na foto. A noite, os prédios principais, como o da Catedral da Sé, da Torre dos Clérigos, da Câmara Municipal, do teatro Coliseu e mesmo os velhos prédios do começo do século ao redor da praça dos Aliados, recebem uma iluminação direcionada, preparada para construir um clima de cinema

Essa arte de preparar a cidade para o instagram deve estar no cerne da transformação do Porto em um dos destinos mais badalados de Portugal nesta temporada.  Mesmo que não estejamos no verão, o Porto parece que se vende bem… é uma cidade para funcionar turisticamente independente da estação. Neste inverno, por exemplo, a cidade está tomada por turistas brasileiros.

Aliás esse é um dos aspectos notáveis aqui por essas bandas, o aumento brutal dos diversos sotaques do lado de lá do mar oceano. Posso atestar bem isso, primeiro porque ouço compatriotas em todo lugar que vou e, conversando com um garçom português, neto de avó brasileira, que nos atendeu às margens do Douro, descubro que minha impressão acústica não é ilusão. 

A sensação que eu tenho é que muita coisa mudou por aqui, doze anos depois de termos vindo pela primeira vez por essas bandas. Em função dessa noção, de que o tempo muda o lugar e que uma cidade nunca é a mesma quando a gente volta a visitá-la com uma década de intervalo, resolvemos pegar novamente a estrada para o norte, até Santiago de Compostela.

Dessa vez com Sarah (que não era nascida em 2006) e sem Uriel (que viajou para as Astúrias, na Espanha, a fim de visitar a mãe que está morando por lá). Helena (a nossa amiga) assumiu a direção do carro alugado e, após um pequeno stress na locadora portuguesa que, ironicamente, não queria aceitar o cartão de crédito (alemão) dela, pegamos a autoestrada até Braga, passando por Ponte de Lima, até Valença do Minho. Optamos por não ir pelas auto estradas nacionais, mais rápidas, mas que não nos oferecem as visões magníficas das paisagens rurais que se estendem ao redor da Baía de Vigo e de Pontevedra.

No caminho a gente logo notou como o ano havia sido seco e, junto às marcas dos incêndios que tomaram conta de Portugal até quase o fim do Outono, o que mais me chamou a atenção, a medida em que avançávamos pela terra galega, era a quantidade de casas com alpendres e varandas, uma marca arquitetônica muito parecida com a que a gente vê nas cidades coloniais nordestinas e nas velhas fazendas de gado e de algodão do sertão potiguar.

Dos portugueses que chegaram no Nordeste durante os tempos coloniais, uma grande parte saiu do Minho, embarcada pelo porto de Viana do Castelo, fugindo da miséria que só abandonou definitivamente Portugal e Espanha quando esses países resolveram aderir à zona do Euro e ficar sob a tutela financeira da Alemanha (talvez aí a implicância ressentida do funcionário da locadora com o cartão de crédito alemão de nossa amiga).

Desta vez, ao contrário de doze anos atrás, chegamos em Santiago durante uma noite de inverno. A minha impressão da cidade, em função disso, foi completamente diferente da que tive em 2006, quando aportamos por aqui numa tarde quente do mês de Junho. Após estacionar o carro e deixar as coisas no pequeno apartamento alugado via AIRBNB, partimos em direção ao largo da catedral seguindo pela faculdade de filosofia e pela praça Cervantes.

Um clima sombrio parecia cercar a cidade e se não fosse uma conversa casual e animada com um senhor que nos deu informações sobre a nossa localização, eu teria ido dormir com a impressão bem pouco familiar daquele lugar.

O senhor, que era galego, bateu simpaticamente um papo com a gente por um bom tempo. Disse que já tinha ido umas dez vezes ao Brasil e que sempre que chegava por lá ouvia, diante de seu “sotaque”, a pergunta: “de que parte do Brasil o senhor é?”.

Detalhe é que nosso simpático interlocutor não falava português, mas sim, galego, a língua nacional da Galizia espanhola. Foi só então que eu percebi que havia, a despeito do frio noturno e da escuridão de inverno que tornava aquelas ruas medievais bastante sombrias (para não dizer sinistras), um sentido de familiaridade naquele lugar.

Em meio a palavras como “riba”, “beiço”, “espinhaço” e “oiças”, senti como se estivesse na cozinha da casa da minha infância, lá na rua Miosótis, no conjunto Mirassol (zona sul de Natal), ouvindo minha avó, nascida há quase cem anos lá no pé da serra do Lima, no alto oeste potiguar, falando comigo com seu inconfundível sotaque sertanejo.

O gentil senhor, naquela rua noturna de Santiago, nos alertou que não tentássemos falar castelhano enquanto estivéssemos em terra galega. Nosso portguês com sotaque do sertão potiguar soava melhor aos ouvidos dos moradores de Santiago do que um “portunhol” que se parecia sempre com uma rendição à tirania madrilenha.

Lembrei na hora de uma frase de Ludwig Wittgenstein (um estrangeiro que viveu boa parte de sua vida longe da sua terra natal): “as fronteiras da minha língua, são as fronteiras do meu mundo”. Ali, na terra galega, talvez até mais do que em Portugal, nossa língua sertaneja seria a nossa casa.

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Pablo Capistrano

Escritor, professor de Filosofia e Direito do IFRN. Dramaturgo do grupo Carmin de Teatro.

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