TERRA ESTRANGEIRA: Uma doença de inverno

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Londres – Inglaterra, 15 de Janeiro de 2018.

Vi muito pouco da luz do sol hoje, talvez, por isso, ando melancólico.

Aqui é assim no inverno. Apenas oito horas de luz por dia e depois uma longa noite unindo duas datas no calendário. Talvez por isso, tanta gente apresente sintomas da tal “doença de inverno” (como Nietzsche a chamava).

 É realmente muito estranho, para nós que viemos da taba de Poty e que nos acostumamos a acordar com o sol, antes das 6:00; sair da cama apenas às 8:30, quando aquele azul da madrugada entra pela janela do quarto do albergue, anunciando que a longa noite, finalmente, acabou. É muito tempo na escuridão e no frio, e acredito que seja por isso que muitas almas suscetíveis aos humores depressivos, tantas vezes, não conseguiam resistir ao azul sombrio de um inverno rigoroso.

Hoje pela manhã, assim que aquele solzinho mirrado atravessou as nuvens de chuva, Ana voltou com Helena ao museu britânico para terminar de ver os artefatos da China, Índia, Japão e da América Pré-colombiana. Eu, por minha vez, possuído por essa paralisia melancólica que desaba com o frio e a falta de luz, acabei ficando mais tempo no albergue, deitado na cama, com a desculpa de acompanhar Sarah e Uriel, que estavam com “dor de cabeça”. Algo completamente compreensível, diga-se de passagem, porque os dias estavam sendo particularmente intensos, a despeito de curtos e gelados.

Ontem, por exemplo, finalmente, consegui tomar uma cerveja decente no pub que Dylan Thomas frequentava aqui em Londres durante a guerra. Descendo pelo Bedford Square (uma praça datada de 1775) em direção a Charlotte Street, achamos o lugar, bem no coração de Bloomsbury, bairro que foi apelidado pelo poeta galês de Fritzrovia por causa justamente da Fitzroy Tavern.

O pub (ou taverna, para ser mais exato), funcionava naquele local desde o período do entre guerras e ficou famoso por manter-se aberto, mesmo durante os blackouts causados pelos bombardeios alemães na capital britânica. O espaço, com um piso térreo e um andar subterrâneo que lembrava realmente um bunker, juntava, durante os ataques aéreos nazistas, artistas e escritores como George Orwell, Jacob Epstein, Nina Hamnett e o próprio Thomas.

O espaço me pareceu particularmente estreito, acomodando poucas mesas. Não há música (pelo menos quando a gente chegou por lá) e as pessoas bebem e conversam discretamente. Um ambiente completamente distinto daquilo que costumamos encontrar em um bar brasileiro, diga-se de passagem.

Eu particularmente imagino que, durante o período da guerra, o espaço talvez tivesse mais “movimento”, até porque, sendo o único a abrir durante os bombardeios, deveria juntar só gente bastante desesperada para tomar uma última caneca de cerveja antes que uma bomba alemã explodisse em cima da cabeça.

Mesmo sem ter ficado com nenhuma sombra de ressaca (fato que atribuo à influência mediúnica de Dylan Thomas, abençoando, com a resistência dos brutos, o meu fígado combalido), só me animei realmente a sair hoje do albergue quando, no fim da tarde, pegamos um barco para descer o Tâmisa e ir até o tal “meridiano” de Greenwich (uma outra convenção colonial do tempo do império, sem nenhuma base geográfica “real”).

Enquanto voltávamos pelo rio, já na noite fria, percebi que algumas áreas da cidade pareciam particularmente escuras, até mesmo sombrias, contrastando com a absoluta exuberância artificial das luzes dos prédios, tanto na margem norte, quanto na margem sul, onde arranha céus imensos dos bancos do setor financeiro (a City) se projetavam para o firmamento como monstros futuristas de ferro e vidro.

A escuridão do rio, junto ao céu soturno e às ruas pouco iluminadas, contrastava com o brilho desses arranha céus que pareciam lutar com a placa de escuridão celestial que envelopava a cidade. Todo esse negrume parecia se aprofundar, especialmente em função do vento fluvial gelado vindo de Greenwich, o tal ponto que os ingleses escolheram para dividir o mundo entre oriente e ocidente.

Acho que sentimos mais frio ali, subindo e descendo aquele rio, do que quando estávamos em uma Alemanha coberta de neve. Talvez tenha sido o vento ou a umidade que vem daquela fronteira fluvial que divide a cidade, mas o fato é que aquele clima, acabou por consolidar uma das imagens que cultivei sobre essas ilhas do norte durante muitos anos.

Foi no segundo semestre de 1993, que eu acabei comprando em uma cigarreira que funcionava no centro de convivência da UFRN, um número da revista General (editada por Rogério Campos e André Forastieri). A revista trazia de brinde uma fita K7 contendo as “novidades mais tocadas no verão inglês” (Um apelo irresistível para um fã do rock britânico como eu, vale salientar).

Lembro que a fita trazia músicas do Radiohead (Creep), da banda James (Sometimes) e dos nova iorquinos do Beastie Boys, além de uma de Pato Banton (um ícone do english beat). Quando coloquei a fita pra tocar no três em um que tinha no meu quarto, curioso para ter notícias do que os jovens da minha geração estavam ouvindo nas “terras civilizadas”, fui subitamente capturado por uma música.

Era a canção Dreams da banda irlandesa Cranberries, que na época estava acabando de chegar ao Brasil. Eu, que já havia me apaixonado antes por vozes como a de Nico e de Sinead O´Connor, acabei por cultivar, com a leviandade que só os dezenove anos nos permitem ter, uma nova paixão platônica.

Em uma época sem internet dificilmente a gente conseguia alguma informação sobre as músicas que ouvíamos de bobeira no rádio ou sobre os clipes que passavam nas madrugadas da MTV; por isso, só um ano depois, quando consegui ter em mãos o CD  Everybody Else Is Doing It, So Why Can’t We? do Cranberries, é que eu soube mais sobre a dona daquela voz, objeto de mais uma de minhas paixões platônicas.

Vi no encarte que o nome dela era Dolores O´Riordan e depois, fuçando em jornais e revistas especializadas, descobri que ela era irlandesa e que ela tinha mais ou menos a minha idade. Fiquei impactado com essas informações porque parecia, finalmente, que a minha geração estava florescendo no mundo da arte.

Durante o ano de 1994, ouvi o primeiro CD do Cranberries quase até apagar (já que pra furar mesmo, só a agulha no vinil).  Aquelas músicas, de uma melancolia doce e fria, me transportavam para outros mundos e outras fronteiras e era a voz de Dolores que abria espaço para esses sentimentos tão estranhos e deslocados de tristeza plácida, que pintavam com um azul esverdeado e úmido, até as tardes mais quentes e secas de meu verão potiguar.

Lembro que, por essa época, cheguei a ter uma intuição sobre a injustiça intrínseca deste mundo, ao pensar que, obviamente, em função da distância geográfica e cultural tão gigantesca que separava minha Natal (no fiofó do elefante), da Ballybricken de Dolores, uma área na freguesia de Carelly, a leste do condado de Limerick na Irlanda; eu jamais teria oportunidade, nesta encarnação, de estar fisicamente próximo da dona daquela voz.

Mesmo assim, foram as músicas do Cranberries e a voz de Dolores que, durante tantos e tantos anos, me passaram a impressão poética daquele frio e do suave azul escuro da alma que emerge quando o vento gelado do mar do norte bate nos penhascos da Irlanda ou encanava pra dentro de Londres, através do Tâmisa.

Por isso, quando voltei, agora há pouco, para o albergue, neste dia de luzes rarefeitas e frio polar, me assombrei com a notícia de que Dolores O´Riordan, uma das vozes mais marcantes da minha geração, havia morrido de modo súbito, aos 46 anos.

Pensei na hora que talvez não tivesse sido suicídio. Talvez um acidente ou esse desgosto com a vida que, tal qual uma doença de inverno, carregou, entre o frio e a escuridão, a melancolia doce daquela voz.

Quando abri minhas redes sociais para ler mais detalhes sobre a notícia, que já bombava mundo afora, acabei descobrindo, pasmo, que ela havia morrido justamente aqui em Londres, em um hotel no bairro de Mayfair, a menos de uma estação de metrô de distância do albergue em que estou hospedado.

Minha intuição de juventude havia sido desconfirmada pelo curso dos fatos. Eu, um simples escritor de província, estava, mesmo sem ter a mínima ideia, fisicamente muito mais próximo da dona daquela voz, do que jamais poderia imaginar, quando ouvia, naqueles verões de fim de século, aquela fita K7, 25 anos atrás.

Tenho que te confessar, amigo velho, a vida tem mesmo um certo senso de humor, mesmo que ela seja assim, muitas vezes, tão desconcertantemente melancólica.

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Pablo Capistrano

Escritor, professor de Filosofia e Direito do IFRN. Dramaturgo do grupo Carmin de Teatro.

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