Dudu Morais atravessa a vida e deixa sua poesia

PIX: 007.486.114-01

Colabore com o jornalismo independente

A partida de Dudu Morais não chegou com estrondo. Veio em silêncio, desses que fazem a palavra tropeçar dentro da boca. Como se o mundo tivesse prendido a respiração ao perceber que um poeta-advogado — ou um advogado-poeta — não atravessaria mais a próxima esquina do dia.

Dudu carregava a estranheza bonita dos que habitam dois mundos. De um lado, o rigor da lei, a gramática severa dos códigos, o peso das causas humanas depositado sobre a mesa. Do outro, a delicadeza da palavra indomável, a poesia que escapa por entre os dedos, mesmo quando a realidade insiste em ser dura. Ele sabia: a justiça também precisa de metáforas e a poesia, às vezes, é a única forma possível de encabeçar a luta.

Agora, o que fica é essa ausência que não cabe em autos nem em versos. Um vazio com nome próprio. Um silêncio que parece pedir réplica, mas não admite recurso. As palavras, órfãs, procuram seu timbre; os papéis, desacostumados, aguardam mãos que já não virão.

Morre o corpo, dizem. Mas Dudu não se deixa encerrar assim. Ele permanece nos textos escritos às pressas, nos poemas que ainda respiram em quem os leu, nas causas em que ousou acreditar quando acreditar já era um ato de resistência.

 Permanece na inquietação — essa herança incômoda que só os verdadeiros poetas deixam.

Levaram-nos Dudu, mas esqueceram de levar o que nele era indisciplinado demais para caber no fim.

 Ficou a palavra. Ficou o gesto. Ficou a lembrança de alguém que fez da linguagem uma trincheira e, da sensibilidade, modo de existir.

E talvez seja isso: alguns não partem — atravessam. E seguem, discretos, advogando o humano em algum lugar onde a justiça ainda rima com poesia.

É fato que não foi apenas uma partida: foi uma interrupção brusca da frase. Um ponto final imposto onde ainda havia vírgulas, reticências, perguntas sem resposta. 

Porque Dudu Morais foi mais do que sua última decisão.

Foi palavra, foi luta, foi humano!

Picture of Teresa de Paiva Oliveira

Teresa de Paiva Oliveira

Escritora, poeta, advogada e diretora adjunta do Instituto Ariano Suassuna. Autora dos livros "Gentil, verás que um filho teu não foge à luta" (2022), "Esmeraldas ao Vento" (2024) e "João Fioravante Volpe Neto: quem deixa uma história para a vida, tem uma vida contada para a história" (2025).

WhatsApp
Telegram
Facebook
Twitter
LinkedIn

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais lidas da semana

Sergio Vilar
Visão geral da privacidade

Este site usa cookies para que possamos fornecer a melhor experiência de usuário possível. As informações de cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.