Enéas Athanázio (1935-2025)

Enéas Athanázio

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Enéas Athanázio, que se encantou no dia 4 de abril passado, era não só um grande contista regionalista, mas também ativista cultural de mão cheia. Escreveu 62 livros – ensaios, artigos e notas de viagem, afora contos – e se correspondia com meio mundo, sempre atento aos arraiais literários de todo o país. Sulista autêntico, mas amigo do Nordeste, interessava-se por cangaço e fanatismo religioso, entre muitas temáticas regionais. Era sócio correspondente da Academia Norte-rio-grandense de Letras e de várias outras academias estaduais.

Com ele mantive correspondência epistolar durante longos anos, mas não tive oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. Uma pena. Sinto a sua morte, embora saiba que ele, já nonagenário, havendo cumprido a sua missão nesta terra, talvez se sentisse um tanto enfadado. Numa de suas últimas cartas me disse que resolvera parar de escrever livros. E acrescentou, referindo-se à velhice; “É a idade indecente”.

Para iniciação à sua vasta obra ficcional, convém ler o livro “Contos Escolhidos” (Florianópolis: Letras Contemporâneas, 2012).

Como já tive ocasião de afirmar, em artigo de jornal, trata-se de uma obra consagradora, propiciando visão geral do contista. Além do seu interesse puramente literário quanto à forma, isto é, linguagem, estilo, etc., desperta especial atenção pela sua temática repassada de forte sentimento telúrico. Regionalismo, sim, todavia sem perder o sentido de universalidade.

Sem dúvidas, “Contos Escolhidos” merece alinhar-se entre as grandes obras de ficção da literatura brasileira contemporânea.

Em tempo: Athanázio destaca-se, também. como ensaista, autor de livros indispensáveis para o conhecimento da vida e da obra de escritores tais como Godofredo Rangel e Monteiro Lobato.

Falta dizer que poucas pessoas conheciam o Brasil tão bem quanto ele. Era um andarilho inveterado, um estradeiro que sabia ver e registrar tudo ou quase tudo por onde passava. Em um dos seus livros com anotações de viagens, ele diz que gostou da nossa Natal, onde esteve turistando, alguns dias, em novembro de 2004. 0 relato pormenorizado de sua estada, não só na capital do Estado, mas também em Caicó e outras cidades do Seridó, é simplesmente admirável. Impressionado com a natureza da região semiárida, ele diz:

“Creio que agora conheço um pouco melhor o verdadeiro Sertão do Seridó de que tanto ouvi falar e sobre o qual muito li. É um mistério como aquela gente consegue viver naquelas condições. Todo brasileiro deveria conhecer a região para não agasalhar preconceitos.”

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Homenagens póstumas foram prestadas ao notável escritor em Balneário Camboriú (SC), onde residia, bem como em diversos outros pontos do país.

Requiescat in pace. Dace. Descanse em paz, caro Enéas.

Trecho de uma carta de Athanázio

07.04.02

Caro Manoel Onofre Jr.:

Foi uma grata surpresa receber sua carta com o livro e a revista. Ainda há poucos dias eu pensava que meu intercâmbio com o Rio Grande do Norte estava interrompido, ao passo que crescia com outros Estados do Nordeste, região que muito me agrada e onde já tenho muitos amigos.

Tive o prazer e a honra de conhecer cascudo, passei uma tarde com ele e D. Dahlia, em companhia de minha mulher, em 1983, no casarão da Avenida Junqueira Aires. Conversamos muito e ele demonstrou grande alegria pelo nosso encontro. Ofereceu-me um livro, “Anúbis e Outros Ensaios”, com dedicatória, que guardo até hoje. Muitos anos depois alguém me disse que na biblioteca que foi dele, hoje no Memorial, estavam vários livros meus. Mas ele se foi, deixando um enorme vazio. Saindo da casa dele, senti que tinha vivido um dos grandes momentos de minha vida.

Depois travei conhecimento com Veríssimo de Melo.

Trocamos muitas cartas e livros. Escrevi a respeito dele nos jornais e, de repente, assim no mais, soube que ele também havia partido. Eu planejava conhecê-lo na primeira viagem à região. Não deu tempo. Lamentei muito.

Meus correspondentes Leontino Filho, de Pau dos Ferros, mudou-se para S. Paulo, Murilo Melo Filho reside no Rio, e a Profa. Solange Maria Silva, de Nísia Floresta, silenciou. Getúlio Araújo mora em Goiânia.

Diante disso, fiquei desprovido de contatos na simpática terra de Cascudo, o provinciano incurável mais estimado do Brasil.

Por tudo isso, sua carta me trouxe muita alegria.

Manoel Onofre Jr.

Manoel Onofre Jr.

Desembargador aposentado, pesquisador e escritor. Autor de “Chão dos Simples”, “Ficcionistas Potiguares”, “Contistas Potiguares” e outros livros. Ocupa a cadeira nº 5 da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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