Por Alexandre Coslei*
A transformação de escritores em popstars escancara uma faceta controversa da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip): a crescente espetacularização do universo literário. O evento, que nasceu com a missão de fomentar o pensamento crítico e celebrar a diversidade da produção escrita, hoje parece muitas vezes mais preocupado em transformar autores em top models do que em destacar suas obras.
A figura do “autor popstar” pode até parecer um feito louvável à primeira vista — afinal, em uma sociedade que consome influenciadores e entretenimento instantâneo, qualquer forma de dar visibilidade à literatura poderia ser vista como algo positivo. No entanto, essa “popstarização” frequentemente desvia o foco: do conteúdo para a performance, da ideia para a imagem, da complexidade do texto para os aplausos da persona.
Nesse contexto, a Flip corre o risco de se tornar mais um festival de vaidades do que um espaço de questionamento e resistência cultural. Autores passam a ser escolhidos por seu apelo midiático, por sua capacidade de mobilizar seguidores nas redes sociais, por seu figurino ou carisma diante das câmeras — e não necessariamente pela densidade, originalidade ou urgência de suas obras.
Há, ainda, um impacto direto sobre os leitores: a criação de uma cultura de consumo literário baseada em modismos e personalidades, onde a leitura crítica dá lugar ao colecionismo de autógrafos. Escritores deixam de ser intelectuais públicos para ocupar um lugar semelhante ao de astros do entretenimento — com tudo o que isso implica em termos de efemeridade e esvaziamento.
O evento deveria resgatar o equilíbrio: valorizar o autor, sim, mas sem esquecer o texto. Celebrar a festa, claro, mas sem permitir que ela se transforme em um desfile de egos ou em uma vitrine de marketing editorial. Afinal, a literatura só se mantém viva quando preserva sua capacidade de incomodar, questionar e transformar — e não apenas de entreter.
* Alexandre Coslei é jornalista, pedagogo, professor, editor e escritor.
Crédito da foto: Márcia Foletto

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Excelente texto. Parabéns. Parabéns.