Suportar existir: aos espectadores do genocídio televisionado

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Há algumas semanas o embaixador da Palestina, Riyad Mansour, perdeu o controle e chorou quando pedia pelo fim do genocídio (Conselho de Segurança das Nações Unidas, maio/2025). Pouco mais de um ano antes, o mesmo embaixador segurou o choro, que quase escapa, num semelhante apelo (Corte Internacional da Justiça, fevereiro/2024).

Nos dois casos, Mansour perdeu o controle quando falava das crianças palestinas, assassinadas em grandezas de milhares.

Nesse ambiente frio da diplomacia, onde cabem negociatas e conversas com números e resoluções, as crianças ainda resistem a ser transformadas em grandezas objetivas; a dor transborda, “o coração não suporta”, nas palavras do embaixador.

Se em 2024 ele conseguiu conter o choro, um ano depois já não foi possível sustentá-lo no peito.

Fiquei imaginando se vamos chegar num momento em que as pessoas vão começar a chorar e gritar no meio da rua. Apenas pessoas atravessando seus dias, que repentinamente se veem impedidas de distrair-se do estado de desespero que a humanidade enfrenta. Uma grande sinfonia de choros, ecoando berros de pavor e luto pelo espaço público.

Eu vinha me sentindo assim, incapaz de abstrair a tragédia diária, a impotência diante da destruição maliciosa de que somos reféns (e engrenagem).

Fiquei pensando sobre como estamos, coletivamente, tomando tanto remédio (alopático ou não) para controlar as emoções, para lidar com a mente, para o coração suportar. E o quanto isso é a estratégia do status quo para se manter.

Procurei um filme para me ajudar a processar esse momento. A Besta, filme francês de 2023, se passa num futuro distópico gerido por IAs, no qual qualquer ser humano pode comprar um procedimento que elimina suas emoções.

O filme queria nos apresentar um futuro distópico, mas o nosso presente já não alcançou isso antes mesmo de entregar a gestão da realidade para as máquinas?

A narrativa é muito bonita. A personagem principal passa pelo procedimento, mas não consegue ter o resultado pretendido. “Você está dentro do nosso 0,7% de falha”, o robô diz. Ela sente tanto que isso atinge até a máquina que cuida dela, que por ela se apaixona.

A inteligência artificial argumenta que um mundo sem emoções funciona melhor, porque os seres humanos cometem erros quando o sentimento é um fator. Nesse futuro “as decisões não são feitas por pessoas deprimidas ou irritadas”.

Nas salas de guerra, homens racionais, com razões lógicas, justificativas históricas e propostas de resorts, tomam decisões e executam genocídios; enquanto as pessoas sensíveis seguram o choro, para tentar convencer os psicopatas por meio da linguagem deles. Como suportar?

Para mim, essa semana foi especialmente desesperadora. Eu só me perguntava: como suportar? É possível ignorar o genocídio, ignorar o mundo acabando, e viver cada dia, dia após dia?

Foi uma combinação de notícias que trouxe algum alento: A Freedom Flotilla com Grata Thunberg e outros ativistas iria navegar até a Palestina para romper o cerco assassino. Pouco depois disso, uma Marcha Mundial atravessaria o deserto à pé até a fronteira da Palestina, partindo do Egito. A repressão dessas duas iniciativas foi um baque destruidor.

Mas, o luto precisa parar. Na minha opinião, a luta funciona melhor do que a abstração da realidade, essa distração constante que tenta nos afastar das nossas emoções, do nosso pulso de vida, incutindo-nos emoções falsas, digitais, virtuais.

No final dessa semana (13.07), mais uma Freedom Flotilla parte em direção ao cerco israelense. Os ativistas, que corajosamente colocam seus corpos em perigo, precisam ser inspiração (e cobrança) para o restante do mundo. A insistência em ter planos de resistência e se organizar em comunidade é o que pode acalmar as cabeças ansiosas e os corações partidos.

Durante meus 17 anos de veganismo, 10 dos quais com o ativismo pelos direitos animais como prioridade na minha rotina, tive muitos momentos de desesperança; mas, na maior parte do tempo a indignação era combustível para a ação, e a ação, um consolo para a existência.

De modo geral, as pessoas que não se engajam em trabalhar para a mudança do mundo ou em alguma caridade, justificam que “nada vai mudar, não adianta”. Mas qual é a outra opção?

Sei que somos engrenagens do sistema, o reproduzimos e o alimentamos. Mas imagina se, enquanto fazemos isso, todos nos recusássemos ser apenas isso?

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Paula Pardillos

Escritora e crítica, membra da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Norte. É também roteirista e diretora de cinema, com enfoque no gênero terror.

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