4 livros sobre o RN que você precisa conhecer

Manoel Onofre Jr.14 de maio de 2019Literatura, Opinião, Artigos e Crônicas Image

O MISTÉRIO DO VERDE NASCE – Ana Cláudia Trigueiro. Natal: CJA Edições, 2018.

A história da inglesa Emma Campbell poderia servir como enredo para uma típica novela romântica ou ultrarromântica.

Vivente da cidade de Wallasey, perto de Liverpool, Emma se casou, em 1878, com o ceará-mirinense Marcello Barroca, jovem pertencente à aristocracia rural do ciclo do açúcar, e veio morar no Engenho Verde Nasce, no Ceará-Mirim, mas, com pouco tempo, faleceu em consequência de complicações do primeiro parto. Deixou uma filha que recebeu seu nome.

Como professava a religião anglicana, Emma não pode ser sepultada no Cemitério de Ceará-Mirim, sob jurisdição da Igreja Católica. Seu túmulo, ainda hoje, se encontra nas cercanias do Engenho Verde Nasce.

Foi nessa história singela que a escritora Ana Cláudia Trigueiro inspirou-se para criar a sua novela “O Mistério do Verde Nasce”. Numa prosa fluente e clara, a autora deu um tratamento ficcional ao seu texto, sem distorcer a realidade dos fatos.

Longe de maiores pretensões quanto à forma, Ana Cláudia Trigueiro armou, com simplicidade, a trama novelesca, dentro da tradição literária, valendo-se de uma linguagem correta e despojada. Tais qualidades fazem desta obra um livro cuja leitura se recomenda, especialmente, à mocidade nas escolas de nível médio.

Numerosas notas de pé de página e, no final, vários exercícios de interpretação de texto deixam entrever certo caráter paradidático.

Sem dúvidas, trata-se de interessante contribuição à ficção norte-rio-grandense, numa área pouco trilhada pelas nossas escritoras.


ERASMO XAVIER – O ELOGIO DO DELÍRIO, de Rejane Cardoso. Natal: Editora Clima, 1989.

Esboço biográfico de Erasmo Xavier de Paula (1904-1930), precursor da arte moderna no Rio Grande do Norte.

O livro vale não só pelo texto leve, descontraído, e pela criteriosa pesquisa sobre esse desenhista, pintor, cenógrafo e caricaturista, dos anos vinte, mas, especialmente, vale como requintado trabalho gráfico, em que se nota a presença da autora, doublé de jornalista e artista plástica.

Vários documentos – textos de autoria do biografado, depoimentos a seu respeito e farta iconografia – enriquecem a obra, que conta, também, com glossário, cronologia e índice onomástico.

Erasmo Xavier, que não atuou apenas em Natal, mas também no Rio de Janeiro, então capital do país, poderia ter alcançado projeção nacional se a indesejada da gente não o levasse ainda jovem, com 25 anos de idade.

Referindo-se a um trabalho dele, afirma Câmara Cascudo, em Acta Diurna, de 1948: “Pela inspiração modernista, pelo arrojo das cores, pela disposição das massas, pelo inusitado do conjunto, o trabalho era magistral. Ninguém o superou. Mas o desenhista, decorador, viveu depressa. A reserva vital esgotava-se como um comburente precioso e rápido na queima orgânica para manter a chama mais alta e luminosa”.

Boa notícia: “Erasmo Xavier – O Elogio do Delírio” deverá sair em segunda edição revista e ampliada, já em preparo.


MEMÓRIAS DE UM SERTANEJO – Artéfio Bezerra da Cunha. Rio de Janeiro: Editora Pongetti, 1971.

Seria mais adequado intitular este livro de “Memórias de um Boiadeiro”, pois, em grande parte, o seu texto apenas relata, minuciosamente, as transações do autor como mercador de gado bovino no sertão do Nordeste. Matéria que nem sempre interessa ao leitor.

Salvam-se alguns capítulos finais, especialmente aqueles referentes ao cangaço e aos reflexos da Revolução de 1930 e da Revolta Comunista, de 1935, no Seridó potiguar.

Artéfio Bezerra da Cunha, homem empreendedor e influente, que chegou a exercer, por duas vezes, o mandato de Prefeito Municipal de Serra Negra (RN), era cunhado de Juvenal Lamartine, Presidente (Governador) do Estado, deposto pelos revolucionários de 1930.

Nota curiosa: embora se trate de uma autobiografia, a narrativa transcorre na terceira pessoa do singular.


ROTEIROS DA ZONA OESTE – Raimundo Nonato da Silva. Rio de Janeiro: Pongetti, 1952.

Nascido em Martins e criado em Mossoró, onde passou de engraxate a professor, Raimundo Nonato viveu, também, longos anos, no Rio de Janeiro, e lá escreveu numerosos livros, mas, embora, distanciado de sua terra, continuou fiel à temática regional nordestina. Mossoró, sua menina dos olhos, está presente em muitas de suas obras.

Em “Roteiros da Zona Oeste”, Nonato reuniu vários escritos de sua autoria sobre o seu país sentimental. Obra do começo da carreira do prolífico escritor. Súmulas históricas de alguns municípios oestanos e perfis de figuras tradicionais ganharam relevo na prosa envolvente.

Dentre os tipos humanos retratados desperta curiosidade o poeta popular Davino Oliveira, vivente de Mossoró, apelidado de Barão de Tibau, cujos versos sem pé nem cabeça o autor transcreve como senso de humor que lhe era peculiar.

Vejam estes, por exemplo:

“Ruge, ruge a tempestade,
A fortaleza está tomada,
As mulheres de Mossoró
Só tomam banho de madrugada.”

E estes:

“Cantora, cantarina, cantariz
Da igreja Santa Luzia da Matriz,”

Taí um precursor do non sense de Zé Limeira, o poeta do absurdo.

Sobre o autor

Manoel Onofre Jr.

Desembargador aposentado, pesquisador e escritor. Autor de “Chão dos Simples”, “Ficcionistas Potiguares”, “Contistas Potiguares” e outros livros. Ocupa a cadeira nº 5 da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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