Resolvi, então, testar as trends que pipocam nas redes sociais. Aqueles filtros milagrosos que prometem revelar sua versão mais glamourosa, futurista ou poderosa. E em quase todas, a minha imagem sequer lembrava quem eu sou. O algoritmo decide que eu preciso de mais ângulo, menos barriga, mais nariz fino e, claro, menos espaço.
O pior é quando eu peço uma mulher real, com as minhas características. Aí aparece uma figura gorda, sim, mas desleixada, mal cuidada, sem brilho. Como se existir em um corpo maior fosse sinônimo de abandono, preguiça, derrota. E não é. Nem de longe. Não tem nada a ver comigo.
Foi então que me bateu a pergunta: se eu me deixasse levar pelas imagens idealizadas que a máquina cospe, em vez de olhar para o espelho com respeito e admiração, o que sobraria de mim? O quanto isso não seria danoso para minha autoestima e para a de qualquer pessoa que já cresce ouvindo que só existe uma forma de ser aceitável?
No Brasil, estima-se que 5,8% da população sofra de depressão ou seja, cerca de 11,5 milhões de brasileiros enfrentam esse transtorno mental. Além disso, pesquisas com adolescentes brasileiros revelam que 30,2% dos jovens relatam insatisfação com a imagem corporal. Estudos também apontam que adolescentes com sobrepeso ou obesidade apresentam maior insatisfação corporal, e que essa insatisfação está associada a sintomas depressivos e baixa autoestima. Esses números são alarmes e não abstrações.
Não é exagero dizer que isso adoece. Num estudo com jovens de 11 a 14 anos nos EUA, 19% relataram insatisfação corporal relacionada ao uso de redes sociais. Outro estudo mostra que exposição a conteúdos “fit”, idealizados, diminui a autoestima em cerca de 37% das pessoas pesquisadas. Esses números não são só estatísticas frias, são vidas que se comparam, se cobram, se silenciam por não se verem nos filtros.
Não é exagero dizer que isso é perigoso. Porque se a inteligência artificial começa a devolver imagens distorcidas, afinadas, recortadas, ela não está apenas manipulando pixels. Ela está manipulando a nossa percepção. Está dizendo, em código binário, que existe uma versão aceitável de nós e que ela nunca coincide com a realidade.
Esse tipo de “aperfeiçoamento automático” não é nada inofensivo. Ele reforça a sensação de inadequação, aquela que já vem sendo plantada em nós desde a infância, quando aprendemos que corpo bom é corpo pequeno, e corpo grande é corpo problema. Agora, em vez de só a mídia e os outdoors, temos um algoritmo nos lembrando disso em alta definição.
E o perigo maior é que a gente passa a acreditar. Porque a máquina, ao contrário da propaganda tradicional, vem travestida de neutralidade, como se fosse apenas “a verdade dos dados”. Só que não: o que ela mostra é a verdade enviesada do mundo que a programou, um mundo gordofóbico, racista, sexista e tudo mais que a gente já sabe.
A real é que eu não saí dessas fotos me sentindo mais poderosa. Saí com a certeza de que, se depender da IA, minha barriga nunca será bem-vinda. E isso mexe. Mexe porque toca fundo no ponto frágil da autoestima: aquele lembrete cruel de que o que eu sou não basta.
Se a inteligência artificial não entende isso, paciência. Eu sigo poderosa do mesmo jeito, com o corpo que tenho, com a história que carrego e com a presença que ninguém pode programar. Eu só desejo e espero que mesmo com todas essas trends e a vontade de participar delas, a gente aprenda a olhar para o espelho com respeito e admiração, e nunca aceite menos do que somos: reais, múltiplas e impossíveis de caber em qualquer filtro.
