Pela amizade e pelas conversas de calçada

falta de conversa

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Poderoso pra mim não é aquele que descobre
ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre
as insignificâncias (do mundo e as nossas)
Manoel de Barros

Depois de alguns dias sem me exercitar, levantei cedo para fazer algo que, além de atividade física, é uma forma de me conectar comigo mesma e com o lugar onde moro há quase três décadas (eu tinha doze anos quando cheguei de Garanhuns para viver no Conjunto Pirangi, na zona sul de Natal. Ainda lembro daquela tarde de domingo ensolarada). Enquanto caminho, aproveito para fazer minha oração diária, cantarolar baixinho alguma música, pensar nas atividades do dia. Além disso, é um momento de observar as pessoas e a infraestrutura do bairro. Não raro, volto para casa entristecida pela quantidade de lixo nos canteiros, de esgotos a céu aberto, de ruas esburacadas, de crianças pedindo esmola no sinal de trânsito. Problemas que nos perseguem diariamente Brasil afora. Problemas que nos revoltam, nos entristecem.

Mas nem só de revolta vive o cidadão brasileiro. É possível encontrar alguma beleza no meio do caminho. E estou sempre atenta isso. Há cenas que se repetem todas as manhãs e me causam profunda comoção. Um idoso varrendo a calçada sorri e me diz um bom-dia cheio de afeto. Falamos rapidamente da chuva na noite anterior e da surpresa com aquela manhã ensolarada. Uma mãe com roupa de ginástica, boné e óculos escuros leva o filho à escola. A mulher carrega a mochila e a lancheira do garoto. O menino também usa boné e óculos escuros. Ela me cumprimenta e eu sorrio de volta. Um homem apressado deixa o filho na porta da escola. Dois homens simpáticos recebem a criança com um sorriso e um bom-dia. Um casal leva a filha para a escola. A menina parece feliz segurando nas mãos dos pais. Sinto o afeto e a segurança que cercam aquela menina. A certeza de ser amado é algo tão necessário. Um homem solitário toma café na padaria enquanto mexe no celular e parece preocupado.

Sigo caminhando na manhã ensolarada de quarta-feira que nos empurra para mais um dia de trabalho, leituras, preocupações, desejos, planos, consultas médicas, faxina, mercado… E por falar em mercado, parei no Mercadinho São Marcos, perto de minha casa, para comprar um produto de limpeza e tomar um café. Aliás, o café de Otávio é uma das coisas que atraem os clientes todos os dias a um lugar aconchegante e cheio de novidades gastronômicas. Cuscuz com carne guisada ou com galinha, bolos, pães, bolachas… Impossível sair de lá sem comprar/desejar alguma comida gostosa.

Ao sair do mercado, decidi conversar um pouco com dois homens que estavam na calçada. Eu sempre os cumprimento quando passo por ali, seja na volta da caminhada ou no retorno do trabalho/faculdade, mas nunca havia parado para conversar com eles. João e Bel são dois membros do Senadinho, um grupo de amigos do bairro que se reúnem na calçada de João para jogar conversa fora todos os dias (e tem coisa melhor que isso?). Nosso papo começa com a importância do banho de sol para absorção da Vitamina D. João diz que aquele é o melhor horário para tomar sol e que muita gente fica comprando vitamina ao invés de se beneficiar da própria natureza. Concordo com ele e lembro a importância, também, de uma alimentação saudável, o que inclui o consumo de frutas, verduras, pouca carne vermelha etc. (infelizmente, sabemos que essa não é a realidade de milhares de brasileiros, que vivem em situação de insegurança alimentar). Lembrou da jornalista Glória Maria, que morreu no mês passado em decorrência de um câncer. Certa vez ela declarou que tomava 80 vitaminas por dia. Isso sem falar no chá de ninho de passarinho que conhecera na Tailândia. Um chá para evitar rugas, dizia ela.

Ainda no quesito saúde, falamos sobre a nova vacina contra a Covid-19. Todo orgulhoso, Bel afirma que tomou as quatro doses e, assim como o amigo João, está esperando o momento de tomar a bivalente e ficar imunizado contra a temida Ômicrom e outras variantes da doença que ceifou a vida de quase 700 mil brasileiros. Lembraram a partida repentina de um amigo, vítima da Covid-19, que morava ali próximo e de quem não puderam se despedir. Naquela época, os velórios estavam proibidos devido ao alto risco de contaminação.

Ainda no quesito doença-vacina, não pude deixar de falar sobre as fake news, o movimento antivacina e o nosso dever de combater esse tipo de prática que infelizmente tem se disseminado em nosso país, sobretudo no último governo. Uma época que aliás não pode ser totalmente esquecida porque alguns cidadãos insistem em trazer à tona certas práticas irresponsáveis (para não dizer criminosas) que aliás foram chanceladas pelo ex-presidente em seus quatro anos de governo, inclusive no período mais crítico da pandemia.

E assunto foi o que não faltou. Depois dos benefícios do banho de sol, das fake news e do movimento antivacina, começamos a falar do uso exacerbado das redes sociais e da pouca conexão real entre muitas pessoas hoje em dia, o que tem contribuindo também para quadros de depressão e de ansiedade, como apontam alguns estudos. João lembrou as dificuldades de convivência que teve com uma ex-namorada que era “viciada em celular” e o quanto isso prejudicou a relação do casal. Nesse momento, ele destaca a importância do diálogo e da escuta atenciosa e afetiva para que um relacionamento dê certo. Afinal, às vezes tudo que a gente precisa é ser ouvido, é desabafar sobre determinado problema, é sentir-se acolhido por quem está ao nosso lado, seja um amigo, um parente, um companheiro/companheira.  Isso me fez lembrar um grande ensinamento de Freud. Ele diz que é preciso amar para não adoecer.

João tem 71 anos e Bel, 75. João é aposentado e Bel ainda trabalha como lanterneiro numa oficina mecânica. Ambos são separados e moram no Conjunto Pirangi há muitos anos. João está separado há 27 anos, mas mantém uma relação e amizade com a ex-mulher, com quem teve três filhos. Ele diz que datas como o Natal, por exemplo, está sempre com a família. Bel tem cinco filhos com três mulheres diferentes e também garante que mantém uma relação amigável com suas ex-companheiras e com todos os filhos. Orgulhoso, mostrou a foto de uma das filhas que tem a minha idade.

Ao falar da alegria de morar naquela casa e dos amigos que tem no bairro, João nos conta que um dos seus filhos já cansou de insistir na ideia de que é melhor viver em um apartamento, que é mais seguro etc. e tal. Vivendo em um apartamento, certamente perderia a convivência diária com os amigos do Senadinho e dos que se juntam ao grupo eventualmente, seja porque estão cansados de esperar o ônibus ali próximo, seja porque foram fazer compras no mercadinho de Otávio e estão dispostos a jogar conversa fora.

Desejo vida longa ao Senadinho e aos dois meninos que conheci hoje, João e Bel. Que eles sigam com essa alegria de viver e sempre partilhando coisas boas com quem passa por ali, seja um membro efetivo do grupo ou um transeunte como eu, que tive o privilégio de bater um papo com eles e voltar pra casa muito mais animada/inspirada para realizar minhas atividades rotineiras.

Que o afeto e o sorriso de vocês seja o combustível para os dias incertos. Que vocês continuem acolhendo quem chega para uma conversa ligeira ou um bate-papo mais demorado. Que essa alegria de viver e a esperança em dias melhores os façam seguir juntos porque o afeto é revolucionário. O afeto é urgente. Salve a amizade e as conversas na calçada!

Andreia Braz

Andreia Braz

Escritora e revisora de textos.

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2 Comments

  • Lina Bel

    A escrita de Andreia tem sua voz e também representa tantas outras pessoas. Suas palavras tem algo de sofisticado, poético e apresenta uma magia no dia a dia. Tenho feito a leitura do seu livro e este é altamente inspirador! Viva a escritora e amiga Andreia!

  • Gosto das crônicas de Andreia porque elas nos trazem pessoas simples, gente, aqueles que ainda guardam traços de solidariedade humana. Obrigado, amiga…
    Um abraço afetuoso. E que siga, vida afora, sempre nos presenteando com seus deliciosos escritos.

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