O ovo da serpente

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Uma semana depois da eleição para presidente, a sensação de que um retorno à normalidade era iminente caminha mais claramente para sua consolidação. Ainda que tenhamos vivido coisas inéditas para nossa muito jovem democracia, como um candidato a presidente que demora mais de dois dias para reconhecer publicamente sua derrota.

Desde que a reeleição foi instituída, esta é a primeira vez que um presidente não se reelege, apesar de todo o uso escabroso da máquina pública, do doping eleitoral causado pelo orçamento secreto e pelas sucessivas e fracassadas tentativas de golpe.

Mesmo que uns punhados de bolsonaristas maus perdedores, parte do maior surto coletivo já visto por aqui, tenham se negado a aceitar a derrota democrática de seu candidato e tumultuado algumas estradas do país para pedirem um golpe de Estado, alegando que a vontade da maioria dos brasileiros não poderia prevalecer porque ia em direção oposta à desses poucos, é necessário dizer que o patriota do caminhão e sua turma não representam todos os votos recebidos por Bolsonaro.

Essa turba marchando tolamente em frente a quarteis e sendo ridicularizada por isso – vide a patacoada em frente ao Tiro de Guerra, em Mossoró, que correu todo o país – representa uma pitada de gente covarde e ignorante, preconceituosa, intelectualmente despreparada e que nada tem de patriota ou nacionalista. São idiotas pintados de espigas de milho usando mal e inconsequentemente o tempo livre que têm.

Entretanto, o curioso é que, apesar desse ruído, o clima é mesmo de retorno à normalidade. Mesmo que o normal não me anime muito, a anormalidade dos últimos quatro anos é inaceitável. A política de ódio e massacre às minorias, aos pobres, de violência e exclusão precisa ter servido, no mínimo, para que não a normalizemos mais.

Os sinais de que voltamos à civilização existem: um presidente que fala em governar para todos, não apenas para os que o elegeram é um primeiro passo. A aceitação de líderes mundiais e a alegria com que o nome de Lula foi recebido dão a impressão de que não somos mais vistos como párias, mas como pares.

Retomar discussões de políticas públicas, medidas para a diminuição da desigualdade, e programas que são muito mais do que apenas carabinas eleitorais é também um sinal desse retorno.

Parece que, de repente, no meio da noite, acordamos do pesadelo quase infinito que vivemos por quatro anos. Seis, aliás, pois não podemos esquecer que este tenebroso capítulo de nossa história começa com o golpe antidemocrático contra a presidenta Dilma Rousseff.

Agora, para cuidarmos de nossa história de fato, precisamos evitar o erro cometido com a redemocratização de 1984: é preciso investigar, apurar e julgar os crimes cometidos nestes tempos. Toda a corrupção, a guerra de mentiras veiculadas para perturbar a ordem e todos os criminosos envolvidos nisso precisam ser julgados. As tentativas de derrubar nossa democracia precisam ser respondidas e seus provocadores responsabilizados.

Bolsonaro logo será esquecido, mas o ovo da serpente deixado por ele precisa ser destruído.

A maior de todas as urgências é voltarmos a ser uma nação de verdade, atenta às necessidades de seu povo e conhecedora de seu lugar no mundo. Para que isso aconteça, precisamos de um cuidado imediato: não deixar que todo esse tormento seja esquecido para que não corramos o risco de um dia, mesmo que por acidente, repeti-lo.

Theo Alves

Theo Alves

Theo G. Alves nasceu em dezembro de 1980, em Natal, mas cresceu em Currais Novos e é radicado em Santa Cruz, cidades do interior potiguar. Escritor e fotógrafo, publicou os livros artesanais Loa de Pedra (poesia) e A Casa Miúda (contos), além de ter participado das coletâneas Tamborete (poesia) e Triacanto: Trilogia da Dor e Outras Mazelas. Em 2009 lançou seu Pequeno Manual Prático de Coisas Inúteis (poesia e contos); em 2015, A Máquina de Avessar os Dias (poesia), ambos pela Editora Flor do Sal. Em 2018, através da Editora Moinhos, publicou Doce Azedo Amaro (poesia).

Como fotógrafo, dedica-se em especial à fotografia documental e de rua, tendo participado de exposições que discutiam relações de trabalho e a vida em comunidades das regiões Trairi e Seridó. Também ministra aulas de fotografia digital com aparelhos celulares em projetos de extensão do IFRN, onde é servidor.

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