Saí em uma sexta feira à noite em meio a uma viagem de curadoria e a cidade estava em silêncio, mas não era o silêncio da paz. Era o silêncio do abandono, o som seco de portas fechadas que um dia foram palcos de encontros, gargalhadas, desejos. Estou na Rua Mamede Simões, aqui em Recife, berço de tantas revoluções culturais, e tudo o que vejo é uma ausência barulhenta. Boi Neon: fechado. Bar Central: evaporado. O vazio das calçadas ecoa mais alto do que qualquer paredão de som. O que ficou são réplicas: festas genéricas, pagodes branqueados, sertanejo gourmetizado. A cidade virou vitrine sem alma, palco sem memória.
Ainda resistem alguns focos, o Bar do Treze, a Bestafera, corpos pulsando contra a desertificação. Mas é como se o centro histórico estivesse sendo comido por dentro. E depois regurgitado em forma de “revitalizações” que não revitalizam ninguém. O que era cultura vira produto. O que era identidade vira tendência. O que era coletivo vira palco para selfie.
E essa não é só uma crônica sobre Recife. É também sobre a Ribeira, em Natal. Um bairro inteiro que vive em suspensão entre a ruína e o renascimento. Ali, no meio da precariedade, explode o Clube Frisson: uma mistura de festa, ritual e resistência. Um acontecimento. Um corpo coletivo em movimento. Música, gente dançando, calor de pertencimento. A cada semana uma centelha de cidade futura é ensaiada no presente.
E aí pensei no Clube Iraque, na Casa de Evandro, na força ancestral de quem segurava o som e a rua nos braços aqui de Recife. Penso que entre o Iraque e a Frisson existe uma linha de continuidade que nenhuma especulação imobiliária consegue apagar. São camadas de memória que sobrevivem não por decreto, mas porque ainda há quem as dance, quem as cante, quem as viva.
O problema é que a desertificação cultural não é acidental. É projeto. É política pública de omissão. É plano urbano de esquecimento. Uma cidade que insiste em expulsar o povo de seus centros históricos e substituí-los por prédios estéreis e cafés padronizados escolhe ser apenas uma mercadoria. E nós não somos clientes da cidade. Nós somos quem a habita, quem a escreve, quem a canta.
Durante o Manifesta LAB, falamos da cidade como corpo, da memória como ação. Falamos de “Cidade Corpo Processo”. E o processo, agora, é de cura. De reinvenção. Porque enquanto os grandes centros históricos viram casca para investimento, são esses clubes, esses encontros, esses porões iluminados que seguram a história pela beirada. E o Manifesta vai continuar fazendo pela cidade e falando sobre estes aspectos importantes.
O fiquei pensando enquanto olhava para tudo isso, sentada em uma mesa sozinha no meio da noite em um plano para salvar os centros históricos, e o que proponho é simples: um Fundo de Memória Viva para os Centros Históricos, com orçamento garantido por lei, voltado para residências artísticas, ocupações culturais, moradia criativa e manutenção de espaços independentes. Não se trata de restaurar fachadas para turistas, mas de garantir presença. Presença de quem é do território. Presença de quem transforma ruína em palco, esquina em manifesto.
Além disso, urge criar frentes culturais nos Conselhos de Cultura, voltadas exclusivamente para os centros históricos. Uma política que combine urbanismo, habitação, patrimônio e cultura, sem higienizar a vida que pulsa nas frestas. Projetos reais sem pouco falar e muito fazer.
Porque uma cidade que apaga suas festas de subúrbio para vender rooftops não é cidade, é cenário. E o risco é virarmos figurantes de nossas próprias histórias.
Senti saudade e a saudade, aqui, não é só do que passou. É também desejo do que ainda pode ser. Como em Retratos Fantasmas, sabemos que o centro já foi lugar de encontro, de afeto, de desejo. Hoje, é fantasma. Mas ainda há tempo. Entre os espectros da especulação e os gritos do Clube Frisson, do Espaço Rosas na Cartola, ainda há resistência. Ainda há festa. Ainda há nós.
Temos que fazer algo. Temos que unir forças pelo não apagamento da memória das nossas cidades. Manter ela viva e pulsando. Cuidar do que ainda resta, reinventar a roda, criar cultura de ativação e cuidado a cidade. Ser bairrista e resistir com o nosso melhor em criatividade e isso não pode ser apenas uma memória sem ação, é o que queremos oferecer também a quem sai de suas cidades para nos visitar.
Que não aceitemos a cidade apenas como cenário. Que voltemos a habitá-la como manifesto. Porque centros vazios também gritam e talvez seja hora de gritarmos de volta.
