Por Francc Neto
Vivemos um tempo em que o colapso se tornou matéria-prima. As imagens já não denunciam, elas desfilam. O horror perdeu a sua aspereza e passou a circular como mercadoria estética, pronta para consumo nas redes, nas feiras, nas bienais. O olhar contemporâneo já não se espanta: ele administra. O sofrimento é estetizado, a catástrofe ganha moldura, a ruína é curada com verniz conceitual. Vivemos, enfim, o cinismo das imagens — uma era em que a arte se tornou cúmplice de sua própria impotência.
E talvez seja justamente nesse pacto que ela revele, paradoxalmente, o último vestígio de sua lucidez.
A arte, que antes desejava abrir frestas no real, hoje parece integrar o sistema imunológico do capital. Tudo o que toca é convertido em discurso, em dado, em relevância calculada. A linguagem da denúncia virou protocolo; a estética da urgência, um estilo reconhecível. O sistema absorveu a revolta e a transformou em pauta. O artista, entre o desejo e a sobrevivência, encontra-se preso a essa engrenagem que promete visibilidade e lhe oferece apenas exposição. Expor-se tornou-se um modo de se esvaziar.
O problema não está apenas nas instituições ou no mercado, mas na própria percepção. Byung-Chul Han já advertia: vivemos o tempo da transparência, da saturação sensorial, onde nada mais fere, nada mais toca. O excesso visual produziu uma nova cegueira. Didi-Huberman diria que já não sabemos ver o que nos olha. Somos espectadores cansados diante de um espetáculo infinito, incapazes de sustentar o peso da presença. Tudo é imagem, e a imagem tornou-se anestesia.
Nesse contexto, falar de descolonização, de ética, de urgência social é inevitável — e, ao mesmo tempo, arriscado. Pois o sistema aprendeu a incorporar o discurso crítico como ornamento. O colonialismo agora veste roupas conceituais e circula com editais de inclusão. A potência simbólica das vozes indígenas, negras e periféricas corre o risco de ser higienizada pela própria visibilidade que as promove. Quando a dor é convidada a participar do circuito, ela se transforma em signo; e o signo, por sua vez, já nasce domesticado.
A arte depois do esgotamento não é apenas aquela que perdeu o fôlego; é a que continua a produzir mesmo sem acreditar. Move-se por inércia, como uma máquina de sentido que insiste. E, no entanto, há algo de profundamente humano nessa insistência. Porque talvez a arte só sobreviva justamente quando já não há mais nada a dizer. Quando o gesto criativo se reduz a ruído, a resto, a matéria que resiste ao desaparecimento. É aí que a arte reencontra a sua força — não como revelação, mas como sobrevida.
O artista contemporâneo carrega a fadiga do mundo nas mãos. Sua paleta é feita de ruínas, de pigmentos mortos, de materiais que já viveram. Há uma ética nesse gesto de recompor o que foi abandonado — uma tentativa de dar forma à falência. Não se trata de redenção, mas de presença. A arte, talvez, ainda sirva para isso: para manter acesa uma centelha mínima de lucidez em meio ao colapso estetizado.
Flusser dizia que criar é um ato contra a entropia. E é exatamente esse o desafio: criar sentido em um mundo saturado de signos. A arte precisa reabrir o espaço do mistério, devolver à experiência o que foi sequestrado pela função. Não mais representar o real, mas inquietá-lo. Não mais produzir imagens, mas ferir o olhar — devolvê-lo ao risco da emoção, ao desconforto da vida.
Talvez o futuro da arte resida nesse gesto pequeno e radical: recusar o cinismo, mesmo dentro dele. Criar a partir do cansaço, mas sem desistir. Fazer da exaustão uma forma de claridade. Entre o mercado e o silêncio, entre o colapso e a esperança, a arte ainda respira.
E cada suspiro é, ainda, um ato de criação.

2 Comments
Texto maravilhoso , que nos faz repensar o processo artístico e o ser artista.
Esse texto é muito essencial para o nosso tempo.