Uma das coisas mais interessantes em O Agente Secreto é que ele parece incomodar quem assiste a um filme esperando nós bem amarrados, tudo fechadinho. Ele até oferece isso de algum modo, mas escolhe seguir por outro caminho.
Ele parece lembrar (ou resgatar) que a memória é feita de pedaços. Como arquivos remexidos na tentativa de achar um fragmento da mãe. Como fitas ouvidas sem ver quem fala. Como a foto que basta para matar. Como a mensagem que diz que a mãe começa a ser esquecida…
Talvez falte, para uma parcela (sem culpa) do público, a percepção de que um filme não precisa ser uma história (por mais que O Agente Secreto seja uma). Porque um filme pode ser apenas história, sem artigo. E história, no final das contas, é feita de registros incompletos, de balas “perdidas”, de personagens invisíveis. História é feita do que foi dito e também do que não foi. História, sobretudo, é feita de memória.
O Agente Secreto é, enfim, uma unidade sólida sobre algo que não tem unidade alguma. Isso pode incomodar, pode fazer faltar ar, porque lembrar também é respiro.
E isso me bate muito intimamente, porque talvez eu esteja percebendo que começo a esquecer quem foi meu pai, uma vez que ele mesmo já não sabe estar no presente. E tampouco consegue alcançar o passado.
Meu pai também é memória: a que ele não tem mais e a que ainda conseguimos reter. E é, mesmo que não documentada e cheia de pontas soltas, história: a dele, a de minha família e a minha.
O Agente Secreto bateu em mim desse jeito. Por um instante, entendi onde a memória respira.

