Dez notas sobre o primeiro turno

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Mesmo diante de um momento pessoal muito difícil, tento respirar um tanto e fazer alguma leitura sobre o cenário político que levou as eleições presidenciais ao segundo turno, como já previa boa parte das pesquisas eleitorais.

Algumas notas são as mais óbvias:

  1. A polarização política é um fato muito claro, ainda que essa polarização seja repleta de nuances bastante complexas, afinal Lula e Bolsonaro juntos reuniram 91,6% de votos válidos no primeiro turno, achatando os candidatos de outras frentes e cujos apoios para o próximo turno serão muito importantes.
  2. Se a esquerda cresceu um pouco aumentando suas cadeiras no legislativo, a direita doentia bolsonarista se mostrou um bocado sólida, elegendo alguns de seus principais e mais terríveis nomes em todo o país.
  3. Há um contraste curioso demonstrado pelo aumento de representantes LGBT no legislativo enquanto teremos também alguns dos mais cruéis direitistas deste momento.
  4. ainda sobre contrastes, nada mais didático que a reeleição da Governadora Fátima Bezerra já no primeiro turno, com um percentual tranquilo e sólido de votos, e a escolha de Wendel Lagartixa (ex-policial filmado em participação num triplo homicídio) como deputado estadual mais votado do Rio Grande do Norte.
  5. O adiamento da eleição presidencial para o segundo turno foi um baque na esperança que se desenhou para a esquerda nas últimas semanas, mas é preciso lembrar que a vitória de Lula no primeiro turno foi importante, pois não se deve esquecer do peso que descansa sobre o poder da máquina pública em um processo de reeleição, ainda mais se usada descaradamente como o fez Bolsonaro.
  6. A diferença de mais de seis milhões de votos é significativa, especialmente se considerado o número relativamente baixo de votos em aberto para o segundo turno. Isso aponta para a necessidade de atenção por parte da esquerda a uma das estratégias ensaiadas pela situação para essa primeira rodada: a desmobilização do eleitorado de Lula.

Manobras como a suspensão do passe livre para o transporte público no dia das eleições é um sinal claro dessa estratégia, já que limitar o acesso de populações mais carentes aos locais de votação tende a atingir eleitores mais propensos ao voto no candidato do PT. Isso significa dizer que também é necessário olhar com cuidado para os eleitores das zonas rurais que votam nas cidades, por exemplo.

  1. Artimanhas como o “orçamento secreto”, nome fantasia do maior escândalo de corrupção na compra de apoio político desde a manobra de Fernando Henrique Cardoso pela aprovação da reeleição, funcionaram de forma considerável tanto para a eleição de deputados e senadores quanto para um crescimento de Bolsonaro nas últimas semanas antes do pleito.
  2. Para a esquerda, é preciso intensificar o diálogo e o corpo a corpo especialmente nas regiões mais conservadoras, uma tarefa difícil, afinal esses conservadores defendem interesses muito mais diretos e individuais do que políticas públicas. É, por exemplo, um grupo formado por pessoas que preferem votar aliados a seus patrões em lugar de alguém que represente um crescimento econômico verdadeiro e amplie oportunidades de emprego. Ou, em outro exemplo, quem ofereça acesso à rede de saúde como um favor pessoal e não como um direito comum a todo brasileiro.
  3. Não se pode desconsiderar a existência de alguns grupos complexos do eleitorado brasileiro: um que realmente se identifica com os piores aspectos do bolsonarismo e por isso se sente representado por ele; outro que não consegue associar suas escolhas políticas ao resultado de suas vidas cotidianas e todo o sofrimento ligado a elas, conduzido pelo medo da mudança, como se qualquer movimento diferente fosse suficiente para tirar deles tudo o que já não têm; e ainda outro grupo que rejeita a figura de Bolsonaro, mas que está apegada ao ideário bolsonarista.
  4. Por fim, embora tenha havido frustração com a indefinição no primeiro turno, é preciso lembrar que a vitória de Lula foi um passo importante para a derrota do fascismo que se apodera dos ambientes políticos nos últimos anos. Assim, não se pode permitir que essa sensação de frustração esmoreça os ânimos para o segundo turno. Só a mobilização é capaz de sustentar o último fôlego necessário para encerrar este triste capítulo da história brasileira.
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Theo Alves

Theo G. Alves nasceu em dezembro de 1980, em Natal, mas cresceu em Currais Novos e é radicado em Santa Cruz, cidades do interior potiguar. Escritor e fotógrafo, publicou os livros artesanais Loa de Pedra (poesia) e A Casa Miúda (contos), além de ter participado das coletâneas Tamborete (poesia) e Triacanto: Trilogia da Dor e Outras Mazelas. Em 2009 lançou seu Pequeno Manual Prático de Coisas Inúteis (poesia e contos); em 2015, A Máquina de Avessar os Dias (poesia), ambos pela Editora Flor do Sal. Em 2018, através da Editora Moinhos, publicou Doce Azedo Amaro (poesia).

Como fotógrafo, dedica-se em especial à fotografia documental e de rua, tendo participado de exposições que discutiam relações de trabalho e a vida em comunidades das regiões Trairi e Seridó. Também ministra aulas de fotografia digital com aparelhos celulares em projetos de extensão do IFRN, onde é servidor.

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