Já em terras d’Espanha, logo após Badajoz, causam-me forte impressão os vastíssimos campos cultivados (trigais, parecem-me) sem que haja neles uma habitação, uma árvore, nada – só aquele mar imenso amarelando a paisagem. De onde virão as pessoas que cuidam dessas plantações?
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Primeiras impressões de Sevilha, expressas em um cartão postal enviado ao meu pai:
“O povo daqui se parece mais com o brasileiro. A cidade tem belíssimos monumentos, mas, de modo geral, não é bonita”.
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Giro pela manhã: Museu de Belas Artes. Obras de Murillo, El Greco (uma, só), Zurbarán e outros pintores espanhóis.
Gostei, especialmente, deste último e de duas esculturas de Juan Martinez Montañes e de uma de Pedro Torrigiano, nomes estes que tive o cuidado de anotar, tamanha a impressão que as suas obras me causaram.
Depois de visitar o Museu, fui ver a Plaza de Toros de la Maestranza e a Igreja da Madalena. São 18:30 hs. e o sol ainda alto. Quentura medonha lá na rua. Aqui no quarto do hotel, porém, não faz calor.
Visitas da tarde. Primeiro a Catedral. Quanta grandiosidade e opulência nesse enorme templo, o terceiro maior da Cristandade. Muita beleza, mas também muito mau gosto, fruto de acréscimos feitos ao longo dos séculos, em estilos diferentes, contrastando com o gótico original.
Logo ao lado da Catedral, integrando-se no conjunto arquitetônico, a Giralda, a célebre torre, herança árabe, hoje uma espécie de emblema da cidade, juntamente com a Torre Del Oro.
Subi os 34 pisos da Giralda (não há escadas, mas rampas) para admirar o panorama da cidade, de uma altura equivalente a de um edifício de 15 andares.
Em seguida fui dar um passeio pelo Barrio de Santa Cruz, bairro antigo, labirinto de ruelas, arquitetura típica. Nada mais pitoresco. Existem ali, em bom número, hostais, cafés, bares e lojas de artesanato.
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Cordiais, expansivos e, quando em grupos, ruidosos, os espanhóis diferem muito, sob este aspecto, dos seus vizinhos ibéricos, os recatados portugueses.
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Manhã de outro dia, curtindo a Plaza de España.
Tarde: novo passeio pelas ruelas encantadoras do Barrio de Santa Cruz e visita à Casa de Pilatos, palácio renascentista, exemplar mais citado da arquitetura civil da cidade.
Lá pelas 20 horas – sol forte e muito calor – fui ver a Igreja do Salvador. É magnífica. Altares monumentais em estilo barroco – um barroco esmagador. (Tanta rima é um horror).
Ao passar pela calçada da Giralda, observo um jovem sevilhano a entoar, para si mesmo, despreocupadamente, o canto tradicional, característico destas terras de Andaluzia. Belíssimo cantar!
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De volta a Lisboa, em ônibus de linha. Letreiro na janela de emergência do ônibus: VENTONA DE SOCORRO
Lembrei-me instantaneamente, de uma Maria do Socorro, dona de imensa venta.
Li, novamente, agora certo: VENTANA DE SOCORRO
Ao entregar os passaportes, na fronteira, o “comissário de bordo” espanhol vai chamando, em voz alta, os nomes dos passageiros. Quando chega a minha vez, brada, enfático:
– Senhor Santana do Matos!
Supondo ser eu o único passageiro nascido na cidade de Santana do Matos, apanhei o passaporte, contente com o nome que me foi dado…
