Celebrando a música brasileira

PIX: 007.486.114-01

Colabore com o jornalismo independente

Depois do silêncio, o que mais se aproxima de exprimir o inexprimível

é a música.

Aldous Huxley

A primeira vez que assisti a um concerto da Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte foi em 2018. Uma experiência única. Arrebatadora. Uma noite memorável. Aquela foi também a primeira vez que tive a alegria de assistir uma orquestra ao vivo. Lembro com alegria e emoção o arrebatamento que aquele momento me causou. Fiquei extasiada e a primeira coisa que fiz ao deixar o teatro foi registrar aquela experiência. Talvez uma forma de eternizá-la. Talvez uma maneira de partilhar a alegria, o encantamento e o privilégio que é estar diante de uma orquestra. O resultado foi uma crônica publicada no blog Papo Cultura, do meu amigo Sérgio Vilar, que, além de um trabalho primoroso como jornalista cultural, acolhe tantos escritores/artistas potiguares e dá visibilidade a nossa produção artística. A crônica intitulada “Uma noite na Espanha” está entre os textos que compõem meu primeiro livro, “Lições de otimismo e outras crônicas”, publicado em 2022 pela CJA. Obra que aliás carece de uma segunda edição urgente. Os leitores já estão me cobrando isso há algum tempo. Prometo fazê-lo em breve.

Voltemos à experiência de assistir a um concerto da OSRN. Recentemente, tive o privilégio de ver a orquestra pela segunda vez. Outro momento inesquecível. Sob a regência do maestro Linus Lerner, a Orquestra Sinfônica do RN iniciou a temporada de 2026 com um concerto alusivo aos seus cinquenta anos de existência e convidou ninguém menos que Roberta Sá para esse momento histórico da música brasileira. A Orquestra Sinfônica do RN é um dos principais grupos artísticos do estado e essa nova temporada reafirma o compromisso de promover concertos que dialogam com diferentes públicos e linguagens musicais, integrando tradição e contemporaneidade, celebrando a história da orquestra e apontando novos caminhos artísticos, de acordo com Sérgio Vilar.

O evento lotou o Teatro Riachuelo e emocionou o público com clássicos da música brasileira interpretados pela artista potiguar que já fez parcerias com Chico Buarque, Gilberto Gil, Martinho da Vila, Ney Matogrosso. Roberta Sá nasceu em Natal, mas vive no Rio de Janeiro desde os nove anos. Artista versátil e uma das intérpretes mais prestigiadas da MPB, tem um repertório que reúne clássicos do samba, bossa nova, MPB, além de composições inéditas de compositores de diversas gerações. Aliás, ela está comemorando vinte anos de carreira e foi a estrela do programa Sem Censura no último dia 20 de março, apresentado por Cissa Guimarães e exibido no mesmo dia do concerto da OSRN. Com uma carreira consolidada e indicações ao Grammy Latino, Roberta Sá reúne discos aclamados pela crítica. O primeiro deles foi “Braseiro” (2005) e o mais recente, “Tudo que cantei sou” (2025). Em 2007, recebeu da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), o prêmio de melhor cantora de música popular e, em 2017, no 28º Prêmio da Música Brasileira, recebeu o prêmio de melhor cantora de samba pelo disco “Delírio no circo”.

De acordo com Linus Lerner, a proposta do espetáculo foi integrar a música sinfônica e a MPB, com repertório dedicado à trajetória da artista potiguar (“Ah, se eu vou”, “Samba de um minuto”, “Pavilhão de espelhos”, “Pressentimento”, “Fogo de palha” etc. Esta última canção, do disco “Giro”, é uma composição de Roberta Sá e Gilberto Gil). Aliás, as canções ganharam arranjos sinfônicos inéditos, elaborados especialmente para a ocasião, explorando a combinação entre a interpretação vocal e a sonoridade da orquestra, conforme explicou o maestro em recente entrevista.

Antes de falar da emoção de assistir esse concerto, vou contar a aventura que foi pra conseguir um ingresso (risos). O evento foi gratuito e os ingressos foram distribuídos uma hora antes do concerto. E lá estava eu chegando meia hora antes achando que ia conseguir ingresso (estava tomando um café com minha amiga Monalisa Medeiros e não senti o tempo passar). Muitas emoções. Próximo de chegar minha vez, os ingressos se esgotaram. Tensão no ar.  Eu não estava acreditando que voltaria pra casa sem assistir àquele concerto. Rutênia, uma amiga que estava ao meu lado, me incentivou a continuar ali na esperança de a produção conseguir alguns ingressos a mais. E foi exatamente isso que aconteceu para a alegria dos fãs. Em êxtase, pude acompanhar o concerto e me deleitar com alguns clássicos da MPB interpretados por Roberta Sá, com o acompanhamento luxuoso da OSRN. Uma noite de festa e celebração da música brasileira. Detalhe: havia combinado de me encontrar com minha amiga Lorena Abdon, mas não consegui sequer vê-la na fila do teatro. Ela estava acompanhada do filho mais velho, Gabriel. Tenho certeza que eles amaram o concerto. No próximo evento, tentarei chegar cedo, amiga. É sempre uma alegria partilhar esses momentos contigo. Sei que você também ama música e valoriza muito esse tipo de evento.

Voltemos à estrela da noite. E de onde vem essa admiração por Roberta Sá? Explico. Essa artista faz parte de uma fase muito especial da minha juventude, quando comecei a me firmar como revisora de textos. Ela embalou muitas manhãs e tardes de trabalho na Editora da UFRN, onde estagiei/trabalhei alguns anos. Minha amiga Paula Santos lembra bem dessa época e da minha paixão por Roberta Sá, de quem ela também é fã. Aliás, comecei a escutar Roberta Sá por influência de Clara Cavalcanti, minha irmã, uma historiadora que ama literatura, tem um excelente gosto musical, toca violão e escreve poesia. Foi com ela que também aprendi a escutar Legião Urbana na adolescência. Aliás, devo aos meus irmãos boa parte do meu gosto musical. Todos são amantes da boa música popular brasileira. Com Sebastião aprendi a escutar Gonzaguinha, Raul Seixas e outros nomes da MPB; com Cícero aprendi a ouvir Jackson do Pandeiro; com Jonas conheci Pinduca; com Anchieta, a música romântica…

Voltemos ao concerto da OSRN. Ainda durante o evento, fiquei refletindo sobre algumas questões importantes e como gostaria de transformá-las em crônica. Aliás, esse é um pensamento recorrente do escritor, transformar suas experiências/observações em texto. É quase uma obsessão. Isso me faz lembrar uma frase de Clarice Lispector que talvez sintetize essa necessidade/urgência de escrever: “Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida”. Uma das questões que me assaltaram durante o concerto foi o poder da música e como algumas canções marcam a nossa história. A cada canção que Roberta Sá entoava é como se eu fosse transportada para determinados momentos da minha vida, bem como para alguns shows dela que tive a oportunidade de assistir aqui em Natal. Um deles foi o show “Quando o canto é reza”, do disco homônimo, em que ela interpreta composições de Roque Ferreira, um dos mais importantes compositores do samba baiano. Acompanhada do Trio Madeira Brasil, a obra resulta em um trabalho que se aproxima do choro e do samba baiano. Uma beleza. Esse disco é uma delícia! Tenho ele autografado pela artista. Coisa de fã.

Outra questão que me veio à mente durante o espetáculo foi a alegria e o privilégio de poder assistir a um concerto em plena sexta-feira à noite. Sabemos que essa não é a realidade da maioria dos brasileiros. Afinal, sabemos que o acesso à arte e à cultura ainda não alcança a maior parte da nossa população, especialmente quando se trata de pessoas pretas e periféricas. Sabemos, também, da importância da arte na formação humana e intelectual das nossas crianças e jovens, especialmente. Aliás, sonho com uma cidade onde as pessoas tenham acesso ao cinema, ao teatro, à literatura e à arte de modo geral. Sonho com uma cidade que tenha mais bibliotecas e mais espaços de lazer e cultura para a população. Espaços onde as pessoas possam, inclusive, desenvolver seus talentos artísticos, além de apreciar espetáculos de dança, teatro, música, sessões de cinema, recitais de poesia, leituras coletivas…

Ao chegar em casa, ainda em êxtase com o espetáculo daquela noite, continuei refletindo sobre o poder da música e a importância da arte em nossa vida. Fiquei pensando, também, na importância de eventos como aquele, gratuito e de qualidade. Esse concerto, por exemplo, faz parte do Projeto Movimento Sinfônico, via Lei Rouanet, com o patrocínio da Neoenergia e Instituto Neoenergia e realização do Ministério da Cultura e do Governo do Brasil. A OSRN tem como mantenedores a Fundação José Augusto (FJA), a Secretaria de Estado da Cultura do RN (Secult) e o Governo do Estado do Rio Grande do Norte. Uma das atividades da orquestra consiste em receber alunos de escolas públicas e privadas para a realização de concertos didáticos. Esses concertos são voltados a estudantes de 8 a 12 anos. Além disso, há também os ensaios abertos. No dia do concerto alusivo aos 50 anos da OSRN, a orquestra realizou um ensaio aberto para 400 estudantes da rede pública estadual, no qual mostrou aos jovens as funções que integram o trabalho da orquestra, além das possibilidades de atuação no mercado da música e da cultura. Trabalho fundamental para a formação das nossas crianças e jovens, que muitas vezes despertam para o mundo artístico a partir de atividades como essas.

E por que esse tipo de ação me deixa tão feliz? Sabemos que durante muito tempo esse tipo de evento esteve restrito a pequenos grupos, a uma certa “elite intelectual”, digamos assim, mas não podemos esquecer que o acesso à arte e à cultura são direitos do cidadão, inclusive garantidos pela Constituição, e que este deve ter acesso a eventos gratuitos e/ou com preços acessíveis, o que contribui significativamente para sua formação humana, intelectual, mas sobretudo para sua forma de enxergar o mundo. Afinal, “o lugar da cultura é a comunidade”, é preciso ultrapassar o uso burguês da cultura, como diria a escritora portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen. A vida com arte fica mais leve. A arte nos permite fugir um pouco da realidade, bem como nos possibilita refletir/enxergar o mundo sob outros pontos de vista.

E por falar em eventos culturais relacionados ao universo da música, não custa lembrar que a Escola de Música da UFRN também realiza concertos gratuitos o ano inteiro (a Semana de Música, por exemplo, é um evento tradicional na universidade). A EMUFRN é referência no estado e já trouxe para os seus palcos diversos instrumentistas nacionais e internacionais. Inclusive, já estou me programando para assistir o concerto “Todo sentimento”, da Filarmônica da UFRN, que será realizado no próximo dia 11 de abril no auditório da Escola de Música da UFRN, em duas sessões. O concerto terá a regência de André Muniz e a participação de Durval Cesetti no piano.

Encerro a crônica de hoje com uma reflexão de Sophia de Mello Breyner Andresen: “A cultura não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar – para que o homem possa construir e construir-se em consciência, em verdade e liberdade e em justiça. E, se o homem é capaz de criar a revolução, é exatamente porque é capaz de criar cultura”.


Crédito da foto: @cesimarseveriano

Picture of Andreia Braz

Andreia Braz

Escritora e revisora de textos.

WhatsApp
Telegram
Facebook
Twitter
LinkedIn

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais lidas da semana

Sergio Vilar
Visão geral da privacidade

Este site usa cookies para que possamos fornecer a melhor experiência de usuário possível. As informações de cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.