BIBLIOBUNKER – INANA: antes da poesia ser palavra, era mulher

INANA

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INANA: antes da poesia ser palavra era mulher

Autora: Enheduana

Tradução de Guilherme Gontijo Flores e Adriano Scandolara

Prefácio: Katia Pozzer

Editora: Sobinfluência Edições

Ano: 2022

Páginas: 130

Em 1994 eu decidi abandonar o curso de psicologia na UFRN e migrar, por reopção, para o curso de licenciatura em filosofia. Foi uma decisão complicada, até porque, na época, a Filosofia ainda estava banida do ensino médio (o que me tornaria um professor de uma disciplina inexistente na grade curricular das escolas brasileiras).

Lembro que nessa época, passando pelos corredores do setor II da UFRN, vi um cartaz anunciando um curso de introdução à língua e literatura grega. O curso seria ministrado durante uma das “Semana de Estudos Clássicos” promovidas pelo departamento de Filosofia. Sem titubear, me inscrevi no curso. Foi lá que soube de uma informação que aumentou meu desejo de me aprofundar ainda mais no mundo da antiguidade grega: o conceito de autoria teria aparecido na Grécia antiga, mais especificamente entre os séculos VIII e VII antes da era comum, quando Hesíodo (ou algum escriba grego que usasse seu nome por procuração poética), fez menção ao poeta como autor do poema “Os trabalhos e os dias” . Ao fazer referência a si mesmo, o “irmão de Perses” que aparece no verso dez (“Eu a Perses verdades quero contar”) teria sido, deste modo, o primeiro autor da história a registrar um “eu lírico” em um poema. 

Eis que, curiosamente, trinta anos depois de ter assistido aquele mini curso, ministrado por um ótimo professor da UFMG (cujo nome infelizmente não me recordo); acabei despertando do meu sono dogmático.

Essa tradução feita por Adriano Scandolara e Guilherme Gontijo Flores de peças poéticas do cânone mesopotâmico, me conta uma outra história das origens daquilo que costumamos chamar de “literatura”.  Estão disponíveis em uma belíssima edição em azul e branco da Sobinfluência Edições, de São Paulo, a tradução de dois textos compostos e registrados em escrita cuneiforme, na língua suméria, que era corrente antes que o acádio antigo se tornasse língua franca da região entre os rios Tigre e Eufrates, por volta do ano 2300 ou 2200 antes da era comum.  

Os poemas “A descida de Inana ao mundo dos mortos” e a “Exaltação de Inana” são duas peças que giram em torno de Isthar (em acádio) ou Inana (em sumério), a deusa da guerra e do amor livre, identificada também com o planeta Vênus (a estrela da manhã) e que sintetiza, no cânone babilônico, tanto as funções da Afrodite grega e da Oshun iorubá; quanto as da Atena clássica, como as da Iansã do golfo da Guiné.

O interessante é que, no poema de exaltação à Santa Inana, aparece, registrado em uma escrita cuneiforme, a seguinte passagem: “eu Enheduana / o mel da minha luz // virou babélico veneno / meu traço mais feliz // agora é pó”; e mais a frente, junto com a lamentação diante da destruição e da morte produzida pelas guerras dos homens, aparecem os seguintes versos: “plena e replena pari a canção // por ti Senhora excelsa / o que te recitei // à meia noite / repetirá o cantor // ao meio dia”.  

A mulher que teria escrito tais versos era uma sacerdotisa do deus Nana (o deus sumério da Lua, pai de Inana). Seria então ela, dessa forma, a primeira pessoa de qualquer gênero, mais de mil anos antes de Hesíodo e de David (cujos textos que lhe são atribuídos são ainda mais recentes) a ter deixado seu nome registrado como suposta autora de um poema. Em uma cultura onde o anonimato dos textos era uma tradição recorrente, a sacerdotisa Enheduana, que viveu na cidade de Ur durante o reinado de Sargão de Acade (2332 – 2279, a.C.), deixou a marca de sua presença, indicando não apenas que os hinos religiosos têm uma autoria humana, mas também que a poesia é uma forma de arte que atua no campo da linguagem e não uma pura e simples manifestação de forças sobrenaturais que falam, com as potências do entusiasmo, pela boca de cantores em seu transe mediúnico.

Escrito provavelmente em um período de conturbação política, que levou a sacerdotisa poetisa a se exilar de sua cidade natal, os versos do texto constituem um gênero de poesia de louvor aos deuses que influenciou bastante a literatura hebraica pós exílica dos séculos V e IV antes da era comum, especialmente os Salmos atribuídos ao Rei David.

Em sua lamentação poética, Enheduana roga a Inana (Ishtar para os babilônios), que venha em seu socorro, destrua seus inimigos e a liberte de seu exílio. Essa mecânica de sedução põe o verbo poético como uma força que serviria para encantar a própria deusa e eleva a construção literária ao status de oferenda religiosa, de forma bastante semelhante ao que o autor que usa o nome de David tenta fazer nos Salmos.

Aliás, a consciência da influência da literatura babilônica e cananeia na construção dos textos do cânone judaico não é nenhuma novidade. Tanto os Salmos quanto os textos das Lamentações se encaixam perfeitamente em um tipo de lírica devocional semítica que parece reter muito do estilo dos textos em acádio, a língua que veio para ocupar o espaço que era do sumério na Mesopotâmia.

Quem lê a Bíblia buscando neutralizar o máximo possível a focinheira das doutrinas teológicas que condicionam nosso olhar para o cânone de Nicéia, sabe que as escrituras cristãs e judaicas beberam de várias fontes, tanto mesopotâmicas, quanto egípcias e hititas. Importante também frisar que, a esse hall de influências literárias, foi acrescido também, a partir de 1929 (quando foram descobertos textos nas ruínas da antiga cidade de Ugarit, nas proximidades de Ras Shamra, norte da Síria) uma boa dose de literatura religiosa cananeia e fenícia.

Desse modo, com essa edição bilíngue (sumério-português), uma parte desse grande cânone de literatura mesopotâmica e levantina antiga chega às mãos de um público que não teria acesso (por dificuldades linguísticas óbvias) aos originais desses poemas e dessas epopeias, que constituem uma boa parte dos fundamentos mais arcaicos, tanto literários quanto religiosos, daquilo que os cristãos chamam de “Antigo Testamento”.

Essa edição da editora Sobinfluencia se situa assim, junto com às traduções do Enuma Elish, da Epopeia de Gilgamesh e do próprio texto que contém a narrativa descida de Isthar ao mundo dos mortos (só que na versão em acádio); realizadas pelo professor Jacynto Lins Brandão, como uma excelente fonte de pesquisa, tanto para quem se interessa por assuntos ligados ao mundo antigo, quanto para quem tem curiosidade de saber mais sobre a presença feminina na literatura.

Uma presença que, a despeito do que muita gente imagina, inaugura, praticamente junto com a própria arte da escritura, a noção de autoria no mundo da linguagem poética, que, durante muito tempo, foi, supostamente, lida como um “assunto masculino”.

Pablo Capistrano

Pablo Capistrano

Escritor, professor de Filosofia e Direito do IFRN. Dramaturgo do grupo Carmin de Teatro.

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