Referindo-se a minha antiga pesquisa com as rezadeiras do RN, o amigo jornalista Vicente Serejo, em sua coluna diária, reconheceu de que não é fácil ultrapassar as pedras do nosso caminho: A memória popular vence os desafios. E o nosso sábio povo, quando vê alguém vencer algo muito complexo, diz de antemão, que é comparado a – tirar leite de pedra!
Neste sentido, devo salientar que esta minha pesquisa já tão demorada e ao mesmo tempo, tão esperada pelos leitores, teve início nos fins dos anos 80/90, com muitas histórias, relatos e vivências pessoais coletadas e que agora serão repassadas por mim. Memórias de mulheres sofridas com suas artes místicas de curas. E fui em busca delas, com muita coragem, cabelos pretos e sem barba, como demonstram as primeiras fotografias ao lado destas, em seus casebres humildes e aconchegantes. Chãos sagrados, com paredes rodeadas de imagens de santos e santas católicos. Ambientes entrelaçados com rezas de curas para as doenças de pessoas necessitadas e aflitivas. Fé na religiosidade nordestina, sem a costumeira troca de interesses financeiros que se vê por aí nesta era agitada e avançada da inteligência artificial, tão egoísta e gananciosa. Tudo pelo pix!
E deste modo, entrei em inúmeras casas de caridade, com rezas, aconselhamentos e indicações da medicina popular como parte do conjunto de suas curas espirituais. E dos humildes lares das rezadeiras, ninguém saí, sem um conselho do bem, uma simpatia certa e uma reza forte para suas curas, seja de olho-mau, quebranto ou espinhela caída. E apesar da pobreza extrema encontrada, ainda se toma um prazeroso café coado no pano e fervido em fogo de lenha, além de abraços e carinhos. São os abrigos abençoados de mulheres, geralmente analfabetas, pretas, velhas de mãos e rostos enrugados, com seus saberes oriundos de seus ancestrais, via a oralidade espiritual que lhes foram repassadas e memorizadas por estas ao logo de suas sofridas vidas.
Muitas rezadeiras foram ou são, doceiras, costureiras, parteiras e raizeiras, conhecedoras da milenar cultura popular sertaneja de curar as mazelas do povo. Em outras regiões, são também conhecidas como – Benzedeiras ou Curandeiras. São mulheres, que ainda são discriminadas pelas religiões ditas oficiais
e dominantes, desde a famigerada e antiga – ‘santa inquisição’…
Comecei minhas empreitadas, com apoio moral e incentivo dos meus amigos-mestres – Veríssimo de Melo, Gumercindo Saraíva, Celso da Silveira e Deífilo Gurgel entre outros. Pesquisa com recursos próprios, em cada cidade que eu chegava, recebia abrigos e afetos, de amizades, como em São Paulo do Potengi, onde fiquei hospedado na residência do saudoso monsenhor Expedito Sobral de Medeiros, que inclusive me levou às casas das rezadeiras, suas amigas e devotas. E em Mossoró, logo fui recebido com o apoio das amizades de Raimundo Soares de Brito, Vingt Un Rosado, Kydelmir Dantas e do monsenhor Américo Simonetti, entre outros.
E o pesquisador foi andando agarrado a sua máquina fotográfica Kodak, um pequeno gravador e um caderno para anotações. Fui de Pendências, Assu a Martins e Apodi, recolhendo rezas e fórmulas mágicas de curas, que iam me repassando as rezadeiras. Algumas não permitiram fotografias e nem gravações de suas rezas, apesar das suas palavras de afeto e generosidade anfitriã ao jovem aventureiro e pesquisador.
O tempo foi esticando e desde o ano passado a peleja tem sido grande para a publicação deste resultado em livro, pois a referida obra, já foi por três vezes rejeitada pelos ditos editais públicos e democráticos. E tudo isto, com as Rezadeiras do RN, sendo até oficialmente, por lei estadual, consideradas ‘Património Cultural’. Como também, nem foi levada em consideração que a citada pesquisa faz parte da terra do folclorista Câmara Cascudo, o autor mais pesquisado e citado da obra inédita em questão.
E como diz o sábio povo resiliente que – água mole em pedra dura, tanto bate até que fura, eu agora resolvi publicar estes resultados em livro, em uma edição especial, com 300 exemplares numerados, com o selo editorial do Instituto Histórico e Geográfico do RN, no qual sou honradamente seu sócio Emérito. Apresentação do médico e folclorista Iaperi Araújo, com as orelhas comentadas pela amiga presidente do referido IHGRN, escritora Joventina Simões. Com designer visual de José Aglio, cerca de 280 páginas, recheadas de fotos e ilustrações temáticas. Salientar aqui que a obra é uma homenagem ao centenário de nascimento da romanceira e rezadeira famosa de São Gonçalo do Amarante – dona ‘Militana’, uma das minhas entrevistadas envolvidas nas conversas e depoimentos.
E a coragem estará lançada. Em breve saberemos o valor do livro do ano, tão esperado do RN, que estará em disponibilidade para os leitores, em formato de venda antecipada ‘via pix’ e entregue ao leitor (a). E caso sobre alguns exemplares das vendas antecipadas, eu me comprometo que o livro do ano de 2025, estará sendo autografado na tarde do dia 21 de agosto, no auditório do Instituto Histórico, Cidade Alta, como parte da sua ‘Quinta Cultural’, com uma mesa redonda comigo, que abordará a temática das Rezadeiras e o amigo médico folclorista Iaperi Araújo, com a Medicina Popular.
E como se vê neste desabafo, publicar obras de cunho da cultura popular no nosso RN, não é tão fácil como se possa imaginar.

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Parabéns pelo trabalho! Ansioso pela leitura. 👏🏼👏🏼👏🏼