É curioso como a gente vai aprendendo desde criança a dizer “com licença”, “obrigada” e “desculpa”, mas ninguém ensina como falar “estou magoada com você” sem soar como um escândalo. Crescemos com a falsa ideia de que silenciar é maturidade, e que o desconforto vai sumir se a gente empurrar ele para debaixo do tapete. Lembrete: ele não some. Vira bolor.
Outro dia, fiquei pensando na importância de falar sobre os incômodos diretamente com quem os causou. É justamente esse o pulo do gato que a gente foge de dar: conversar com quem provocou a dor, e não com a rodinha de amigos que só balança a cabeça e aumenta a mágoa com pitadas de “pois é, amiga, que absurdo!”.
É fácil se sentir entendida quando se abre com quem não estava na cena do crime. Mas é covardia emocional. E confesso: poucas coisas me dão mais preguiça do que gente que prefere criar um tribunal paralelo a resolver de fato a pendência.
O silêncio, quando conforta mais do que a coragem de falar, é um convite para que a relação apodreça devagar. Ele cria uma distância invisível que cresce em cada mensagem não respondida, em cada encontro cheio de sorrisos falsos. Um dia, ninguém mais sabe ao certo por que o afeto ficou estranho e só restam farpas sutis, climão e aquela sensação de que algo azedou. Tudo porque ninguém teve a decência de sentar e dizer: “Isso que você fez me machucou”.
E o mais triste é que, muitas vezes, você acaba pagando sessões caríssimas de terapia para tentar resolver um mal-estar que nem é totalmente seu, é de uma comunicação que nunca aconteceu. Quando a conversa é evitada, o incômodo vira narrativa única: só sua. E você começa a carregar culpas, paranoias e teorias que poderiam ser dissipadas em meia hora de honestidade.
Eu passo por isso muitas vezes. Já fui, e ainda sou taxada como “a pessoa dos textões”, a que sempre chama pra conversar, a que prefere mandar uma mensagem com três parágrafos do que fingir que está tudo bem. E quer saber? Sim, sou essa mesmo. Porque pra mim, segurar o que me incomodou é uma tortura. Prefiro falar, organizar, esclarecer. Mesmo que o outro não goste, mesmo que ache exagero, mesmo que me rotule de intensa ou dramática. Não falo para agradar. Falo para me aliviar. E sempre que coloco para fora, mesmo sem garantia de escuta, o peso diminui.
Mas, como eu chego para ter essa conversa sem parecer que vou puxar uma briga? Primeiro: escolho um momento em que nem eu nem a outra pessoa estejam fervendo de raiva. Depois, fale no “eu”, “eu me senti assim”, “eu fiquei incomodada”, em vez de sair apontando dedo no “você fez isso”. E principalmente: ouço. Dou espaço para que o outro também explique, porque nem todo mundo que fere faz isso por maldade, às vezes, é pura desatenção ou ignorância emocional.
A melhor forma de tentar resolver é lembrando que o objetivo não é vencer uma discussão, mas esclarecer sentimentos. Pergunto se a pessoa está disposta a conversar, digo o que senti de forma clara, sem rodeios nem ataques, e finalizo dizendo o que espero dali para frente: um pedido de desculpas, um ajuste de comportamento ou só o simples reconhecimento do que aconteceu.
Agora, um adendo necessário: não confundo franqueza com sincericídio. Eu sei que há quem se orgulhe de “falar na cara” como se isso fosse sinônimo de virtude, mas o sincericídio é prima-irmã da grosseria. Gente que despeja opinião sem filtro, na hora que quer, do jeito que quer, se esconde atrás do “sou sincero mesmo” para não lidar com a própria falta de empatia. E essa prática, longe de resolver conflitos, cria novas rusgas, porque a palavra dita sem cuidado pode doer mais que o silêncio.
Essas pessoas que batem no peito dizendo “eu sou assim mesmo, falo tudo” muitas vezes querem mais se livrar do próprio incômodo do que consertar a relação. Usam a honestidade como desculpa para agressividade e, no fundo, estão tão presas em suas certezas que não conseguem construir diálogo algum. O resultado? O incômodo cresce, vira mágoa coletiva, e lá estamos todos emaranhados em novos silêncios.
Sim, eu sei, a conversa franca não garante finais felizes. Pode trazer mais afastamento do que aproximação. Pode escancarar que, às vezes, a outra pessoa não tem a menor disposição para reconhecer que pisou no calo alheio. Mas, mesmo quando termina mal, a gente para de ruminar diálogos imaginários no banho. Para de criar justificativas que só existem na nossa cabeça. A gente respira. E, quando a fala encontra quem a merece, abre-se uma chance de reconstruir confiança, de fortalecer relações e, principalmente, de lembrar que o afeto não precisa ser mudo para ser pacífico.
Falar sobre o incômodo com quem o causou é escolha que separa a maturidade do teatro. E, entre o desconforto de uma conversa difícil e o peso de carregar rancor em silêncio, prefiro me arriscar na palavra, mesmo sabendo que, às vezes, ela vai sair torta, embargada, com voz trêmula. Mas ainda assim, viva.
E eu torço para que mais pessoas façam isso também. Porque, na maioria das vezes, é esse movimento que fortalece os laços e transforma ruído em cuidado, desconforto em respeito. E se não fortalecer, tudo bem. Que o outro siga em paz com seu achismo, com seu silêncio, com seu orgulho. Mas a minha parte eu fiz. E fiz com verdade.
