O açúcar entre as páginas

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Recebi mais de cem livros de um amigo que, assim como eu, também é professor. Antes de lê-los, folheei um a um, para devolver as fotos e os bilhetes esquecidos entre as folhas. Sem querer, fiz também outra coisa: li o leitor.

Cada volume trazia o seu modo de estar com as palavras. Uns vinham sublinhados a lápis, grafite fino, como de quem conversa baixinho com o texto. Outros, cobertos de post-its, eram livros-arquivo, de um leitor que não suportava deixar nada sem resposta. E alguns, curiosamente, guardavam sachês de açúcar: dez, quinze por volume. O livro engordava onde o açúcar se acumulava e afinava onde a leitura passava depressa. O corpo do objeto mudara e, com ele, a memória de uma fase. A isso me atrevo a chamar de fisiologia do livro.

Perguntei se ele queria adoçar a vida de alguém, a própria ou a leitura. Ele riu: lia em livrarias e usava o que havia no café para marcar o que importava. A poesia do gesto nasceu da falta. Manoel de Barros diria que o olho vê, a lembrança revê e a imaginação transvê, e foi isso que se passou comigo diante dos sachês: o que era açúcar virou travessia.

Há fases inteiras nessa biblioteca: o período budista, o da sociologia, da filosofia, da educação, dos povos indígenas, da comunicação social, da literatura brasileira, da hispânica, etc. Ninguém muda de interesse por capricho. A vida pergunta outra coisa, e a gente responde, ou busca respostas: lendo. Cada fase é uma pergunta feita ao mundo.

Carlo Ginzburg chamou de paradigma indiciário o gesto de quem lê o pequeno, o aparentemente irrelevante, como fazem o psicanalista, o detetive e o historiador da arte, porque é nos detalhes que o sujeito se trai, no melhor sentido da palavra. Um sachê de açúcar é um indício, e nenhum diagnóstico é preciso para escutá-lo.

O livro foi, para ele, esse espaço entre o dentro e o fora, onde o sujeito brinca, se consola e se constitui. O açúcar entre as páginas faz parte desse brincar. E há o corpo: a leitura, na livraria, sem lápis, era um corpo habitando o texto com o que tinha à mão: sachês de açúcar.

 Como terapeuta, tenho o ofício de escutar quem fala. Mas quase nunca estamos atentos aos trejeitos e às deixas dos amigos, nem aos nossos próprios, e muito menos ao que eles deixam quando não estão falando. Há a leitura do mundo, e há também a leitura de quem lê: o que ele buscou em cada época, o que lhe faltava, o que poderia querer endereçar a alguém. Cada fase se deixa ler pelo desejo que a move.

Isso me fez perguntar sobre mim. Como eu marco meus livros? O que meus rastros diriam a quem os folheasse depois? Somos autores involuntários de uma biografia espalhada em margens, dobras e objetos esquecidos, uma escrita que se faz sem que saibamos, e ler o outro é tocá-la com respeito.

Quiçá, eu passe a visitar mais as bibliotecas dos meus amigos. Não por curiosidade clínica, mas por cuidado. Porque há uma escuta que vai além da voz, que alcança os rastros e permite compreender alguém de um modo que nem ele, talvez, tenha conseguido se compreender.

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Tatyanny Nascimento

Tatyanny Nascimento tem dupla licenciatura em Letras: português e espanhol. Mestrado em Literatura pela UFRN, também possui especialização em Psicanálise, e algumas tantas pós-graduações: como MBA em Neurociência e Desenvolvimento humano, Neuroeducação e Neurociência do Comportamento.

Analista, professora, empresária, palestrante e escritora há 20 anos: contos, crônicas e poesias, atualmente, com seu primeiro romance em construção. Escreve, além de gêneros literários, ensaios filosóficos.

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